‘Feira da morte’ reúne empresas militares israelenses e ativistas da causa palestina em SP

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Evento trouxe para o Brasil tecnologias de combate desenvolvidas sobre os corpos de palestinos

Por Manuela Ferraro

São Paulo vivenciou nessa semana uma amostra do conflito Palestina-Israel. Na última terça-feira, 10, aproximadamente 50 ativistas de São Paulo e Rio de Janeiro se reuniram em manifestação contra a LAAD Security, uma feira internacional de segurança privada que aconteceu entre os dias 10 e 12 deste mês num centro de convenções da zona sul de São Paulo. A chamada “feira da morte” é o maior encontro de vendedores de armas e demais dispositivos de segurança da América Latina. Entre diversos expositores internacionais no evento destacam-se uma série de empresas israelenses, que comercializam as tecnologias desenvolvidas a partir do conhecimento desenvolvido no controle social dos palestinos. 

Do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, a jornalista e comunicadora comunitária Gizele Martins apontou a relação entre a opressão vista na Palestina com a violência no Brasil. “Se eles criminalizam nossas vidas e internacionalizam a militarização, nós estamos aqui para internacionalizar a resistência contra o Apartheid”, afirma Gizele, da campanha ‘Caveirão Não’, que reivindica o fim das operações de ‘pacificação’ no Rio de Janeiro e advoga contra a utilização dos veículos blindados de fabricação israelense nas operações da polícia carioca nos morros da cidade. 

Gizele esteve na Palestina em julho de 2017 e se chocou com as semelhanças entre as ações da polícia no Brasil e o regime aplicado nos território ocupados da Cisjordânia. Para ela, o controle militar da vida é constante nos dois lugares. ‘Maré e a Faixa de Gaza compartilham um histórico de intervenções militares que restringem direitos básico das populações’, observa.

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Gizele Martins condenou a ‘feira da morte’ durante ato em SP

Já Soraya Misleh, brasileira de origem palestina, lembrou os 70 anos da Nakba, termo em árabe que significa catástrofe e expressa o significado que a criação do estado de Israel tem para os palestinos, quando mais de 800,000 palestinos foram expulsos de suas casas por milícias israelense, dando início a uma série de massacres e processos de destruição de vilarejos históricos nunca interrompidos.

Para Soraya, é extremamente simbólico realizar o ato com os ativistas cariocas em razão dos massacres diários nas duas sociedades. “As mesmas armas que promovem o genocídio da população negra brasileira estão matando os filhos das mães palestinas”, aponta.

Além da campanha ‘Caverião Não’, o ato contou ainda com membros do Movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), do Movimento Palestina Livre, da Ação Antifascista de São Paulo, do Coletivo Papo Reto e do MTST, além de diversos moradores das comunidades cariocas.

A presença das empresas de segurança israelenses no Brasil

Nos últimos anos, o Brasil se tornou o quinto maior importador de de armas de Israel, segundo o Sipri (Instituto Internacional de Estudos sobre a Paz Estocolmo). Na LAAD Security ocorrida 2016, no Rio de Janeiro, foram os maiores expositores internacionais da feira. O comércio de produtos de segurança entre Brasil e Israel se tornou tão intenso nas últimas décadas que o ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores Celso Amorim chegou a declarar que o país dependia das tecnologias israelenses.

Na edição deste ano, a Carmor foi uma das organizações israelenses presentes. Ela é responsável pela fabricação dos “Guardiões” – os blindados anti-motim utilizados pela Polícia Militar de São Paulo. Enquanto a joint-venture israelo-brasileira Stefanini Rafael ambiciona trazer ao Brasil as tecnologias de vigilância utilizadas nas fronteiras de Israel, inclusive nos Territórios Palestinos Ocupados (TPO). A Smart Shooter apresentou as suas armas de precisão, que capturam o alvo corretamente ao mesmo tempo que almejam proteger o atirador, diminuindo o risco de ‘erro’ humano. O armamento já é utilizado pelo exército israelense. 

Diferente de um passado recente, quando tinham nas Forças Armadas o seu potencial cliente, as empresas israelenses direcionam o seu foco no orçamento de R$ 1 bilhão de reais disponibilizado pelo governo Michel Temer para a segurança pública. A grande presença na feira de policiais de diversos estados do país representou uma grande oportunidade de negócio para os representantes israelenses.  

As relações entre Brasil e Israel, entretanto, não se restringem ao comércio de armas. Ano passado, a Polícia Militar do Rio de Janeiro tentou implementar uma estratégia bastante utilizada pelas forças israelenses nos TPO: a ocupação das casas de moradores de favelas como postos permanente de policiais em confronto com o crime organizado. Segundo Tainã Medeiros, do coletivo Papo Reto, a invasão tomou as casas de moradores da Praça do Samba, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, por quatro meses. O Alemão é considerado o quartel-general do Comando Vermelho. Como pode-se ver, cada vez mais a Palestina é aqui.