Pela descolonização da questão Palestina/Israel

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O maior obstáculo para a paz não é Netanyahu. Nem Trump. Mas a estrutura colonial que oprime os palestinos

Bruno Huberman

Este texto busca dialogar com o ensaio ‘Os 70 anos da fundação do Estado de Israel: podemos conversar?”, de autoria de Rafael Kruchin e publicado no dia 13 de maio de 2018 no Nexo. Primeiramente, saúdo a sua contribuição ao debate sobre a questão Palestina/Israel aqui no Brasil. No entanto, acredito que o texto de Kruchin recai em alguns equívocos comuns aos seus pares do sionismo liberal, ou de esquerda.

Ao buscar manter vivo, ou ressuscitar, o chamado campo da paz, que perdeu muita força entre as comunidades judaicas em Israel e ao redor do mundo, Kruchin reivindica uma estratégia, a do diálogo, que, embora possua um contorno ético e racional sedutor, tenha se mostrado, em um passado recente, um instrumento para manter a colonização israelense da Palestina.

Como bem notado pelo autor, o campo da paz tem sido ocultado, na última década, por outros dois. Por um lado, à direita, o grupo que tomou o poder em Israel na forma dos governos de Benjamin Netanyahu e tem promovido o genocídio em Gaza, o fim das negociações com os palestinos e a aliança com Donald Trump. Por outro, à esquerda, os diversos movimentos palestinos, judaicos e transnacionais contrários ao apartheid na Palestina e que tem defendido a campanha por Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) a Israel.

No entanto, diferentemente do que reivindica Kruchin, não é essa polarização o principal obstáculo para o diálogo e a paz, mas a estrutura colonial que criou e mantém Israel como um Estado-nação exclusivamente para os seus habitantes judeus, consequentemente segregando e excluindo os nativos palestinos.

Diversos autores no decorrer da história, entre eles palestinos e israelenses, têm identificado o movimento de assentamento de judeus na Palestina como colonizador. Uma colonização por povoamento, na qual os colonos buscam construir uma nova sociedade por meio da expulsão, eliminação, confinamento e assimilação dos nativos.

Os milhões de palestinos desapropriados de suas terras, que constituem a maior população refugiada do mundo, os frequentes massacres, de Deir Yassin a Gaza, os fragmentados bantustões na Cisjordânia e as tentativas de apagamento da identidade dos palestinos cidadãos de segunda classe são exemplos que demonstram como Israel não age ao acaso, mas obedece historicamente à lógica colonial.

O sionismo de esquerda desempenha papel central nesse processo: desde a criação das comunidades socialistas — os kibutzim — fundamentais para o sucesso da colonização no início do século 20 até a conquista e ocupação dos territórios palestinos de Cisjordânia e Gaza, em 1967, idealizada pela esquerda em Israel.

Isso nos leva ao Processo de Paz dos anos 1990, que em nenhum momento chegou perto de entregar o que prometia — um Estado palestino soberano e independente nas fronteiras de 1967 — por causa de uma inconveniente verdade: os israelenses jamais ofereceram o mínimo exigido pelos palestinos e o que determina a lei internacional. Além disso, enquanto Rabin e Arafat negociavam em Washington, nunca os assentamentos judeus cresceram tanto nos 50 anos de ocupação.

Esses fatos nos permitem inferir que as negociações, na realidade, nunca desejaram promover a paz, mas construir um novo arranjo que possibilitasse aos israelenses acabar com a resistência popular da Intifada (1987-1993) e manter a colonização dos TPO (Territórios Palestinos Ocupados). Em suma, o processo de paz tornou-se, ao cabo, um projeto de pacificação dos palestinos e reorganização do poder colonial israelense.

Por essas e outras razões que a maior parte da sociedade palestina, à exceção da elite burocrática associada à corrupta Autoridade Nacional Palestina que se beneficia com a permanência das negociações, não acredita mais na paz com os israelenses. Consequentemente, a luta dos palestinos por justiça e liberdade passa por alternativas, como a campanha por BDS ou a Marcha do Retorno em Gaza. Essas estratégias, tal qual a Intifada, têm provocado rachaduras nos pilares de Israel, ameaçando a nova ordem criada com os Acordos de Oslo.

Diante da intenção da extrema-direita israelense de anexar os TPO e escancarar ainda mais o apartheid — o que poderia se revelar como um tiro pela culatra —, as intenções de diálogo e reconciliação soam como convenientes para a esquerda sionista.

Apesar da bem vinda iniciativa, os sionistas ainda não sinalizaram com alterações das bases dos Acordos de Oslo, como o reconhecimento do direito de retorno dos refugiados palestinos e reparações às desapropriações do passado e do presente.

Um acordo sem esses termos pode fazer da Palestina de amanhã a África do Sul de hoje, onde no pós-apartheid (1994 –), os colonos brancos continuaram dominando os nativos negros num arranjo condicionado pelo livre mercado, pois lá não houve reparações que diminuíssem as desigualdades erguidas por décadas de colonização.

Por fim, a solução de dois Estados para dois povos é, em si, um projeto colonial, baseado na estratégia de “dividir e conquistar” idealizada pelos britânicos durante o Mandato (1918-1948), imposta pela ONU na Partilha (1947) e acatada pelos colonizadores sionistas do passado (1948).

De forma a evitar que uma nova tentativa de diálogo se revele em mais uma farsa, é chegada a hora da esquerda sionista começar a pensar formas descolonizadoras de viabilizar a autodeterminação judaica na Palestina. Independentemente de uma solução de um, dois ou mais Estados, é preciso discutir termos que verdadeiramente tragam liberdade, justiça e direitos para todos aqueles que vivem entre o mar Mediterrâneo e o rio Jordão, seja qual for sua etnia, nacionalidade, religião, cor, gênero, orientação política.

Bruno Huberman é jornalista e doutorando em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). É membro da SEDQ, uma rede global judaica por justiça em Palestina/Israel e no mundo, e da FFIPP-Brasil, Rede Educacional por Direitos Humanos em Palestina/Israel.