Em visita à América Latina, Obama adota tons distintos em Cuba e na Argentina

A visita de Obama a Buenos Aires teve características absolutamente distintas da de Havana. Em Cuba, sob aplausos gerais, confessou que os Estados Unidos cometeram erros e crimes durante mais de meio século, sem resultado, a não ser o sacrifício do próprio povo cubano, o que os levaram, mais recentemente, a se isolar na região dada a solidariedade manifestada pelas nações e povos latino-americanos à Ilha.

Em Havana, Obama propôs se olhar para o futuro. Em Buenos Aires, teve de se contorcer para explicar as razões por quê Washington se aliou e apoiou o terrorismo de Estado e a ditadura militar, responsável pelos crimes mais degradantes e hediondos e violadora dos mais elementares direitos humanos.

O presidente Obama e seu par argentino Macri percorreram o memorial em que se recordam os 30 mil desaparecidos durante da ditadura cívico-militar que está cumprindo 40 anos. Durante a coletiva de imprensa, ambos destacaram a desclassificação de arquivos que informam sobre a relação de Washington com o golpe de Estado de 1976, no entanto evitaram em qualifica-lo dessa maneira.

Durante seu discurso, o presidente norte-americano se referiu a “incômodas verdades” sobre feitos “cometidos por nossos líderes” durante a década de 1970 tanto na Argentina como em vários países latino-americanos, porém evitou mencionar uma relação direta entre eles.

“Sei que existem polêmicas sobre as políticas dos Estados Unidos nesses dias obscuros. As democracias devem ter o valor de reconhecer quando não se está à altura dos ideais que defendemos, quando tardamos em defender os direitos humanos. Esse foi o caso da Argentina”, observou.

Destacou a desclassificação em 2012 de “arquivos militares e de inteligência” de Washington sobre a ditadura argentina e ponderou o novo ciclo de descalssificações autorizados “após o pedido do presidente Macri. Na verdade, Macri nunca autorizou nada, foram os organismos de direitos humanos os que insistentemente e ao longo do tempo fizeram os pedidos às sucessivas administrações da Casa Branca.

“A memória, a verdade e a justiça são vitórias que vamos seguir defendendo todos os dias”, afirmaram a Avós da Plaza de Mayo e outras diversas entidades em documento lido por ocasião do 40º aniversário do golpe militar, ante uma multidão de mais de 100 mil pessoas que lotaram a Praça da Maio e arredores.

E como os temas atuais nunca são deixados de lado, acrescentaram um parágrafo exigindo a renúncia do ministro da Cultura, Darío Lopérfido, quem pôs em dúvida o número de 30 mil desaparecidos, dizendo que esta cifra foi fixada num arranjo a fim de cobrar subsídios.

Advertiram também sobre um “duplo discurso” do governo Macri, porque fala da continuidade dos processos contra os repressores porém ao mesmo tempo “despede trabalhadores do sistema judicial que os garantem.” No mesmo sentido, recordaram que no Parque da Memória, ao lado de Obama, Macri discursou, insinuando a teoria dos dois demônios ao pedir “nunca mais a violência política e institucional”.

Em outro trecho, se valorizou o anúncio da desclassificação de arquivos secretos vinculados com a ditadura, anunciada por Obama.

“A 40 anos do golpe genocida, nos sentimos novamente convocados a defender a democracia”, leu a presidenta de ‘Abuelas de Plaza de Mayo’, Estela de Carlotto. Ela afirmou que o “novo governo está significando no dia a dia a vulneração dos direitos”. Por último, a presidenta da ‘Madres de Plaza de Mayo’,  Taty Almeida, expressou o repúdio “às tentativas de desqualificação das democracias latino-americanas. Abraçamos o povo do Brasil em defesa da soberania popular. Vamos por Maduro na Venezuela, por Evo na Bolívia, por Dilma no Brasil. As corporações e as oligarquias não têm fronteiras. Vamos por nossa liberdade e nossos direitos. Sem direitos não há democracia”.