Quais são os países mais desiguais da América Latina?

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O Banco Mundial, em pesquisa de dezembro de 2015, mostra que os primeiros cinco países no ranking da desigualdade são africanos. A América Latina não é a região mais pobre do planeta, porém compete com a África pelo título de mais desigual. Os cinco mais desiguais são africanos – e aí vai – seguidos por cinco latino-americanos.

Entre os 14 mais desiguais a nível global figuram Honduras (6º), Colômbia (7º), Brasil (8º), Guatemala (9º), Panamá (10º) e Chile (14º).

O Banco Mundial utilizou o coeficiente Gini para medir a desigualdade: zero – todos têm o mesmo ingresso ou perfeita igualdade; e 1 – uma só pessoa concentra todo o ingresso e o resto não tem nada ou desigualdade absoluta.

Uma das surpresas é que países de ingresso baixo ou médio-baixo, normalmente identificados como pobres (Honduras, Guatemala) têm praticamente o mesmo nível de desigualdade que outros de ingressos médio-altos ou altos (Brasil, Chile).

O economista da Universidade de Quilmes Germán Herrera Bartis assinala que é necessário distinguir entre pobreza e desigualdade. “A pobreza se vincula com a renda per capita de uma sociedade. A desigualdade com a distribuição. Não há uma relação linear entre ambas. Por isso se pode ter países pobres muito desiguais, no entanto também países com ingressos médios ou altos – como o Brasil e os Estados Unidos – com altos níveis de desigualdade.”, indicou.

MEDIÇAO SEGUNDO O COEFICIENTE DE GINI
· 53,7 – Honduras
· 53,5 – Colombia
· 52,9 – Brasil
· 52,4 – Guatemala
· 51,7 – Panamá
· 50,5 – Chile

Honduras
Em Honduras, 64,5% da população estão em situação de pobreza e 42.6% de extrema pobreza (menos de 2,5 dólares/dia).

“Para se ter uma ideia, o país mais igualitário, Noruega, tem um de 25,9 e o mais desigual, África do Sul, 63,4″, indicou Herrera Bartis.

No Indice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas que mede conjuntamente renda, expectativa de vida, acesso à saúde e a educação de um país, Honduras perde 7 pontos quando se pondera o impacto da desigualdade nas medições.

Guatemala
Outro país com ingresso médio baixo é a Guatemala, que conseguiu uma redução da pobreza de 5 por cento no começo do século, porém em 2011 os índices voltaram a piorar até chegar aos 53,7% com uma situação particularmente difícil em quase a metade dos municípios rurais, onde 8 de cada 10 pessoas são pobres.

Note-se que a Guatemala aumentou seu PIB em mais de 3 por cento anualmente nos últimos 15 anos.

Apesar disto a desigualdade continua sendo uma das mais elevadas da região. “Há um círculo vicioso da pobreza e da desigualdade. Uma sociedade de baixa renda, de baixa arrecadação fiscal e muito desigual não gera um nível de demanda que se requer para atrair investimentos que façam crescer a economia”, assinala Herrera Bartis.

Colômbia
Entre os países latino-americanos de ingressos médio e alto, a Colômbia se encontra em primeiro lugar em desigualdade.

Na Colômbia os 10 por cento da população mais rica ganham quatro vezes mais que os 40 por cento mais pobre. Apesar de a pobreza ter caído desde 2002, a desigualdade se mantem constante.

Os sinais da desigualdade se estendem por todo o tecido social. De acordo, com a investigação de Ana María Ibáñez, decana de Economia da Universidade de Los Andes, em 2010, 77,6 por cento da terra estava em mãos de 13,7 por cento dos proprietários. Aplicado somente à terra, o índice Gini alcançaria 0,86.

Brasil
A maior economia da América Latina, o Brasil é um dos casos mais flagrantes de convivência entre redução da pobreza e aumento da desigualdade.

Se em 2006 os 5 por cento mais ricos abarcavam 40 por cento do ingresso total, em 2012 essa participação chegou a 44 por cento a despeito das políticas sociais dos governos Lula e Dilma terem retirado 40 milhões de pessoas da pobreza.

Esta desigualdade seria ainda mais abissal se se contasse toda a riqueza não declarada num país com uma evasão fiscal de 13,4 por cento e uma economia informal de 39 por cento.

Se se levar em conta que no ano passado o PIB acusou uma queda de 3,8 por cento, a situação está longe de ser promissora.

“Os processos econômicos de contração acompanhados de ajuste fiscal golpeiam os que menos têm e, em geral, aumentam tanto a pobreza quanto a desigualdade”, apontou Herrera Bartis.

Panamá
Em termos de queda ou desaceleração econômica, o Panamá é uma das exceções da região. Com um crescimento médio de 7 por cento nos últimos 10 anos, não se viu afetado pela queda dos preços das matérias primas: seu PIB aumentou mais de 6 por cento em 2015.

Contudo, uma coisa é a vida nessa opulenta “Little Manhattan” como é conhecida a Cidade do Panamá e outra nos bairros periféricos ou no interior do país.

Os ingressos refletem o abismo que separa os arranha-céus e os casebres com telhado de lata: o coeficiente Gini alcança 51,7.

25 por cento da população não dispõem de serviços sanitários, 5 por cento não têm água potável, 11 por cento sofre de desnutrição e outros 11 por cento vivem em casas com piso de terra.

Chile
É a economia regional que vem crescendo desde os anos 1980 e soe ser elogiada como modelo virtuoso para o restante da região.

No entanto, o informe de 2015 da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que agrupa 34 nações de altos ingressos, sublinha os níveis de desigualdade na sociedade chilena.

Com efeito, os 10 por cento mais ricos têm uma renda 27 vezes superior aos 10 por cento mais pobres.

Devido a limitada intervenção estatal, a situação piora quando se considera também o acesso à saúde e educação.

No entanto, Herrera Bartis assinala duas reformas que tendem a melhorar a situação. “No primeiro mandato de Bachelet introduziu-se a aposentadoria solidária para os que não haviam contribuído o suficiente para uma pensão. Em seu atual mandato, é a lei de inclusão escolar a via pela qual se busca avançar progressivamente para uma maior gratuidade do sistema. Não obstante, a foto do Chile é de uma economia profundamente desigual!, afirmou Herrera Bartis.