Britânica inverte os papeis em situações de machismo cotidiano

Britânica inverte os papeis em situações de machismo cotidiano

Leah Green encara o moço e ele nem. No vídeo do The Guardian

 

Durante os últimos dois anos, o projeto Everyday Sexism tem reunido em seu twitter e em seu site relatos de mulheres sobre episódios cotidianos de sexismo. As contribuições contam com frases machistas disfarçadas de elogios – “já que você tem um rosto tão lindo, vou fazer um desconto pra você” é um dos tweets da semana – até assédio e agressões sexuais em locais públicos – “dois homens com mais de cinquenta anos me encaram enquanto eu passo. Um diz ‘bom dia’, o outro diz ‘piranha’”, conta outro tweet no perfil do projeto.

 

 

Leah Green, produtora de vídeo no jornal britânico The Guardian, teve a brilhante ideia de recriar algumas dessas situações nas ruas de Londres, mas invertendo o sinal: seria ela a testar em homens desconhecidos as frases relatadas pelas mulheres no twitter do Everyday Sexism. O hilário resultado foi publicado no último sábado no site do jornal, e já teria recebido mais de um milhão de visitas.

 

 

“Gostei das suas calças, mas elas ficariam melhor no chão do meu quarto”, “ei gostoso, deixa eu ver essa bunda!”, “quer ir pra minha casa comigo?”, “vocês dois já deram uns amassos?”, “vocês se depilam lá embaixo?” são algumas das frases replicadas por Leah no vídeo. Ao entrar em uma loja, ela pede para ser atendida por uma mulher, porque “uma mulher entenderia melhor do assunto”; e nas impagáveis cenas que pontuam o vídeo, ela encara incessantemente um homem que fuma seu cigarro, impassível. “Você não pode falar assim com a gente”, “por que você tá perguntando isso?”, “tá tudo bem com você?” e “qual é o seu problema?” são algumas das respostas de homens perplexos com as investidas da moça. Um deles, porém – o único, segundo a própria Leah, entre todos os homens abordados durante a produção do vídeo – aceita a oferta de ir pra casa com ela: “ok, eu só tenho que passar no banco primeiro”.

 

O carisma de Leah e as reações dos homens tornam o vídeo cômico, mas de fato é trágico perceber o quanto esse tipo de situação é normalizada na vida de tantas mulheres em contextos tão diversos como Reino Unido, Brasil e outros 16 países mapeados no site do projeto. A inversão de papeis deixa claro também o quanto é absurdo que metade da população seja tratada com tamanho desprezo e desrespeito, simplesmente porque são mulheres.

 

Ano passado, o site brasileiro ThinkOlga realizou uma pesquisa bem simples e direta sobre assédio sexual em locais públicos. A pesquisa foi uma das plataformas da campanha Chega de Fiu Fiu, e deixou bem claro como a enorme maioria das mulheres se sente com relação a esse tipo de abordagem: eu também respondi ao questionário e estou entre as 99,6% das 7.762 mulheres que disseram já terem sido assediadas, as 83% que não acham isso legal, as 81% que já deixaram de fazer alguma coisa e as 90% que já trocaram de roupa para evitar o assédio e as 73% que não reagem por medo. Mas a crescente conscientização sobre o problema e a grande visibilidade de iniciativas como essas têm encorajado muitas mulheres a reagir ao assédio, fazendo barulho e voltando a agressão contra o agressor. O coletivo Mulheres em Luta de São Paulo, por exemplo, propõe alfinetes como arma de defesa contra encoxadores no metrô da cidade. Segundo a revista Fórum, o coletivo tem distribuído alfinetes para mulheres em pontos de transporte público, lançando a campanha “Não me encoxa que eu não te furo!”: “Em meio ao caos e situação de barbárie, nossa obrigação é assegurar o direito de autodefesa das mulheres.”

 

O buraco do machismo – e de toda violência baseada em opressão de gênero – é muito mais embaixo, mas ficadica para encoxadores e machistas de plantão: se encoxar, pode levar alfinetada; se mexer com mulheres na rua, pode ouvir um “vou cortar sua pica” como resposta.

 

Imagem via Pagufunk (valeu, Helô!)