Congelando no escritório? Culpa do ar condicionado machista

annafrozen
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Sim, Anna, a gente te entende

 

Aqui na redação de Opera Mundi rola uma batalha ferrenha pela temperatura do ar condicionado. Nesta guerra fria [com o perdão da infâmia], eu sou uma das mais vocais advogadas do lobby anti-ar. Manter as janelas abertas e conformarmo-nos à temperatura ambiente economiza energia e é mais saudável pra todo mundo, argumento. A maior parte dos meus colegas – entre eles, a maior parte dos homens – discorda e insiste no ar condicionado estabelecido em torno dos 20 graus – temperatura que faz com que eu e algumas colegas nos sintamos na Sibéria.

 

O recorte de gênero desta disputa sempre esteve claro pra mim – sinto muito mais frio do que todos os homens com quem convivi. Eis que dois cientistas (homens) acabam de corroborar minha suspeita: em um estudo publicado nesta segunda-feira no periódico Nature Climate Change, eles relatam que os termostatos dos condicionadores de ar em grande parte dos edifícios comerciais se baseia em uma fórmula matemática de conforto termal desenvolvida nos anos 1960. Este modelo leva em consideração a estimativa da taxa metabólica – ou produção corporal de calor – de um indivíduo com pênis e testículos com cerca de 40 anos de idade.

 

Este indivíduo talvez até fosse representativo da população dos escritórios na década de 1960, mas nós que temos vulva e ovários somos não só metade das pessoas no mundo como também somos hoje metade da população nos prédios comerciais mundo afora. E segundo os cientistas da Universidade de Maastricht, na Holanda, a tendência é que nosso corpo produza cerca de 35% menos calor do que o de indivíduos contemplados no modelo termal.

 

“Em muitos prédios, o consumo de energia é muito alto porque o padrão [do ar condicionado] foi calibrado para a produção de calor dos corpos dos homens”, disse Boris Kingma, biofísico e coautor do estudo, ao NYT. “Se houver uma visão mais apurada da demanda termal das pessoas dentro do prédio, você pode calibrá-lo para gastar muito menos energia, e isso significa também menores emissões de dióxido de carbono.” Eles propõem que o modelo seja ajustado para cada edifício de acordo com as pessoas que o frequentam, levando em conta também a idade, o peso e os trajes que elas costumam utilizar lá dentro.

 

A conclusão dos pesquisadores é que o gender gap deve ser superado também nas temperaturas dos condicionadores de ar, não só pelo bem estar de todes mas também – e principalmente – pelo planeta: a superação da discriminação de gênero no modelo de conforto termal faria diminuir o gasto de energia e as emissões de dióxido de carbono, ajudando no combate ao aquecimento global.

 

Pra ser justa com meus colegas, devo registrar que antes que o ar condicionado da redação seja ligado rola sempre uma conversa cordial em que todas as partes ponderam suas razões pró e anti-ar (“tá 30 graus lá fora!”, diria Igor; “é só abrir todas as janelas!”, diria Vanessa). Às vezes nós vencemos, às vezes eles vencem. Meu casaco e meu xale estão sempre a postos, just in case.