Deixem Marcela Temer em paz – ela é tão alvo de machismo quanto Dilma e todas nós

Marcela Temer, seu marido, Michel, e a presidente brasileira, Dilma Rousseff, em 2011. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / ABr
Marcela Temer, seu marido, Michel, e a presidente brasileira, Dilma Rousseff, em 2011. Foto: Fábo

Marcela Temer, esposa do líder do atual governo ilegítimo interino do Brasil, foi mais uma vez alvo de machismo por parte de um veículo de comunicação de reputação duvidosa. Depois do fiasco “Bela, recatada e ‘do lar’” publicado pela revista Veja em abril, nesta segunda-feira o tabloide britânico Daily Mail publicou uma matéria em que pinta Marcela – sem ouvi-la em nenhum momento – como uma “primeira-dama glamourosa e extravagante” e a compara a Maria Antonieta, a última rainha da França, pela vida de luxo que leva em meio à crise política e à deterioração da situação econômica da maior parte da população do país.

Eu gostaria de lembrar que, assim como Maria Antonieta, Marcela Temer não é a líder política de seu país. Não é ela a pessoa com décadas de trajetória política em mandatos eleitorais ou em cargos de confiança e que por isso deve satisfações à população sobre seus gastos e suas ações. Não é ela a pessoa que foi citada pelo menos quatro vezes em delações de investigados na Operação Lava Jato como suposta beneficiária de esquemas de corrupção, entre outras rusgas com a Justiça brasileira. Não é ela a pessoa que foi eleita pelo voto popular para cumprir um mandato e um programa de governo e no meio do caminho rompeu com este programa e com o mandato que lhe foi conferido pela maioria do eleitorado brasileiro. Não é ela a pessoa que conspirou abertamente para destituir sua companheira de chapa, tomar o poder ilegitimamente e implementar um programa de governo que foi derrotado não uma, não duas, não três, mas QUATRO VEZES nas urnas e que se diferencia diametralmente do programa de governo que venceu nessas quatro ocasiões. Não é ela a pessoa que nomeou um gabinete formado integralmente por homens brancos, demonstrando absoluto desprezo para com as lutas e conquistas de mulheres e pessoas negras do país. Não é ela a pessoa que lidera um governo ilegítimo que pretende tolher direitos trabalhistas e sociais como o direito à saúde pública, à educação pública, à cultura, e os direitos humanos em geral. Essa pessoa é Michel Temer (que, além disso tudo, é um homem que aos 62 anos achou por bem se relacionar com uma garota de 19 anos – mas isso é tema pra outro post).

Entretanto, assim como Maria Antonieta na França, é Marcela Temer que, nos textos da Veja e do Daily Mail, está sendo submetida ao crivo popular e sendo usada como mote para diferentes agendas. Enquanto a Veja decidiu retratá-la como modelo de mulher por ela corresponder ao padrão de beleza e de vida que agrada à revista e a seu público elitista, o Daily Mail decidiu pintá-la como uma mulher frívola e vaidosa que vive em palacetes e gasta dinheiro público em compras e viagens de primeira classe para o exterior, obedecendo à cartilha dos piores tabloides internacionais, que vivem de difamar e expor a sujeira – “dirt”, no jargão pseudojornalístico – de personalidades públicas.

O padrão de vida do casal Temer é certamente problemático – e não só por ser sustentado por dinheiro público. A questão aqui, no entanto, é Marcela Temer se tornar o centro das atenções da mídia e de críticas – também e talvez principalmente à esquerda – que sempre resvalam no machismo que nós, mulheres que nos opomos tanto ao governo ilegítimo de seu marido quanto ao papel que tentam impor a ela e a todas nós, combatemos.

Marcela Temer é responsável pelas escolhas que faz. Mas é Michel, seu marido, o ator político responsável por um processo de impeachment movido por canalhice e misoginia contra Dilma Rousseff e por um golpe contra a democracia brasileira que joga no lixo os resultados de eleições legítimas e empossa um programa de governo rejeitado repetidamente nos últimos 14 anos pelo eleitorado.

Portanto, pelamordadeusa, deixem Marcela Temer em paz. Diferenças de classe e orientações políticas à parte, ela é tão vítima do machismo quanto Dilma ou qualquer uma de nós. Quando ela é atacada por esse viés, perdemos todas; ganha o machismo que nos limita e mata todos os dias e aqueles que do machismo se beneficiam.