José Serra e o ‘perigo’ das mulheres na política

José Serra e Claudia Ruiz Massieu na última segunda-feira (25/07). Foto: Agência Efe
José Serra e Claudia Ruiz Massieu na última segunda-feira (25/07). Foto: Agência Efe

Considerar 'um perigo' a atuação política de mulheres em igualdade e paridade em relação aos homens indica a consciência de que a atuação política deles é um privilégio baseado na exclusão das mulheres

Imagine só: você, mulher, ministra de Relações Exteriores. Você, nesse cargo, é a pessoa responsável pelas relações de seu país com o resto do mundo, a representante dele no cenário internacional, a mediadora dos diálogos entre o governo de seu país e os governos de outras nações. Você ocupa esse cargo depois de ter sido ministra do Turismo e deputada no Congresso nacional – e estes são apenas alguns dos papeis que você desempenhou nos seus quase 25 anos de vida pública.

Pois bem. Você se encontra com o representante de outro país, seu homólogo, pela primeira vez. Você é a anfitriã, ele é seu convidado e vocês, após reuniões de trabalho, se põem diante da imprensa para declarar a boa vontade de seus países em fomentar as relações e o intercâmbio e aquela ladainha de sempre. Até que ele se sai com essa: “Devo dizer, cara ministra, que seu país, para os políticos homens do meu país, é um perigo, porque descobri que aqui metade das senadoras são mulheres”. Em seguida, ele ri, indicando que, para ele, a representação política das mulheres é mote para piada.

Foi o que aconteceu na última segunda-feira (25/07) com Claudia Ruiz Massieu, chanceler mexicana. Seu homólogo estrangeiro era o brasileiro José Serra, que se encontra ministro das Relações Exteriores do governo golpista ilegítimo interino de Michel Temer. Serra é parte do gabinete ministerial nomeado por Temer no dia 12 de maio e formado integralmente por homens brancos, o primeiro gabinete ministerial brasileiro sem nem uma mulher desde o governo de Ernesto Geisel (1974-1979), na ditadura militar. Veja só: de 1982, quando Esther de Figueiredo Ferraz se tornou a primeira mulher a comandar um ministério no Brasil, até maio de 2016, quando Dilma Rousseff foi afastada da Presidência e com ela suas então seis ministras, sempre houve pelo menos uma mulher no primeiro escalão do governo. Michel Temer conseguiu uma façanha impensável nos últimos 34 anos: zerar a já parca representação em termos de gênero de metade da população brasileira no governo federal.

México 4 X 0 Brasil:

Especialmente por isso a declaração de José Serra é tão importante: ela explicita a intencionalidade da exclusão das mulheres nesse governo da masculinidade hegemônica imposto por Temer. Considerar “um perigo” a atuação política de mulheres em igualdade e paridade em relação aos homens indica tanto o medo que inspiram nestes homens as mulheres que fogem ao modelo “recatada e do lar” que eles tanto apreciam quanto a consciência de que a atuação política deles é um privilégio baseado necessariamente na exclusão das mulheres.

Flávia Biroli, professora do Instituto de Ciência Política da UnB (Universidade de Brasília), chama atenção para outro ponto explícito na declaração do chanceler interino: “O que José Serra mostra na sua fala é que aquilo que não parece prioritário para ele tem, no entanto, sido colocado como problema para outras pessoas. O governo interino excluiu de maneira sistemática as mulheres, mas principalmente barrou a interlocução com os movimentos feministas e de mulheres. Ora, são as vozes desse movimento que ecoam, de modo ambivalente, na fala de José Serra: ao fazer piada de um problema central para a democracia, ele reconhece as vozes que afirmam que um regime que se quer democrático, mas exclui as mulheres, é limitado e falho.”

Conscientes das limitações e das falhas deste sistema que beneficia estes homens brancos em detrimento de mulheres, pessoas negras e outras não-brancas ou pessoas LGBT, por exemplo, estes homens têm mesmo o que temer. Luíse Bello, gerente de conteúdo e comunidade da ONG Think Olga, ressalta: “Ele não está errado de ter medo, pois mulheres na política significam menos poder nas mãos de homens machistas como ele, que sempre foram beneficiados pela sistemática exclusão feminina que começa já dentro dos partidos.”

Nós, mulheres – especialmente aquelas que atuam na política formal, apinhada de homens como José Serra, temerosos da ameaça que representamos a seus privilégios –, não temos medo. “Que nas eleições desse ano, no Brasil, tenhamos um recorde histórico de mulheres eleitas, principalmente feministas, para deixar mentes atrasadas cada vez mais para trás”, torce Bello. Oxalá!