Não é gafe ou ‘bola fora’: discurso de Temer é machismo mesmo (com um tanto de recalque)

A primeira-dama, Marcela Temer, e o presidente Michel Temer na cerimônia do 8 de março no Palácio do Planalto. Beto Barata / PR
A primeira-dama, Marcela Temer, e o presidente Michel Temer na cerimônia do 8 de março no Palácio do Planalto. Beto Barata / PR

Michel Temer, o homem do PMDB que ocupa a Presidência do Brasil, disse ontem que tem “absoluta convicção do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar e pelos filhos”. “Se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher”, declarou o PMDBista na cerimônia de celebração do Dia Internacional da Mulher no Palácio do Planalto.

Temer falou também sobre a “grande participação” das mulheres na economia. “Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados do que a mulher. Ninguém é capaz de melhor detectar as eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico, maior ou menor.”

Ao repetir que o país está saindo da recessão, o presidente disse que, “além de cuidar dos afazeres domésticos”, as mulheres têm um campo “cada vez mais largo” de emprego.

Sou só eu ou você também está sentindo um cheiro uó de mofo depois de ler isso?

Sites e jornalões insistiram em chamar de “gafe” e “bola fora” o que nós sabemos bem de que se trata: machismo. E eu ainda arrisco outra motivação pra tamanha boçalidade: recalque.

Temer foi vice-presidente de Dilma Rousseff. Antes de vencer duas eleições para a Presidência do país, Dilma foi ministra e é formada em Economia, além de ter participado da luta armada contra a ditadura militar no fim da década de 1960.

Dilma, a mulher que foi superior de Temer entre 2011 e 2016, é a maior prova em contrário a todas as afirmações do atual presidente em seu discurso embolorado sobre as mulheres e nossos “afazeres”. Foi Dilma quem venceu duas eleições e encheu o governo de mulheres tão plurais quanto ela – e que foram expulsas do governo, Dilma e suas ministras, quando o golpe articulado por Temer se concluiu, em agosto do ano passado.

Temer, portanto, não pode ser culpado de desconhecer que mulheres fazem muito mais do que cuidar dos afazeres domésticos. Ao fazer estas declarações abertamente em uma data que celebra as lutas das mulheres por direitos sociais, trabalhistas e reprodutivos – humanos, em suma –, Temer explana para o Brasil e para o mundo o que ele espera e deseja das mulheres, tanto aquelas com quem ele convive como aquelas que ele, ilegitimamente, governa.

O discurso de Temer também não é nenhum espanto, dada a maneira como ele chegou à presidência e o governo que tem liderado desde então, cercado de homens tão brancos e machistas quanto ele.

Um destes homens é Renan Calheiros, líder do PMDB no Senado, que após o discurso de Temer classificou que o presidente “não foi feliz ao dizer que a mulher serve para controlar preços nos supermercados”. Para Calheiros, a mulher “serve também para isso, mas não apenas para isso”.

O que fica evidente nestas declarações é que estes homens veem as mulheres como seres alienígenas, que “servem” para algumas coisas – como controlar preços no supermercado –, mas não para sermos pares e parceiras na construção de um Brasil melhor. Até porque o Brasil que estes homens querem é aquele em que nós, mulheres, nos contentemos em “fazer pelo lar e pelos filhos”. Como as mulheres mostramos ontem mesmo, nas ruas de cidades de todo o país, este Brasil, hoje, só existe nas vãs tentativas destes homens de nos limitar.

 

PS: Outra triste constatação de Michel Temer em seu discurso é que, no mundo dele, os homens não contribuem em nada na formação dos filhos. Segundo o presidente, “seguramente”, quem dá “uma adequada formação” aos filhos de pais como ele “não é o homem, é a mulher”. Isso vindo de um homem de 76 anos, pai de cinco filhos. Que lástima.