O papa está no Brasil. O que muda na sua vida?

O papa está no Brasil. O que muda na sua vida?

Desafinando o coro das católicas e católicos contentes que lotam a cidade do Rio de Janeiro para acompanhar os eventos da Jornada Mundial da Juventude, a ONG feminista Católicas pelo Direito de Decidir lançou uma série de vídeos que abordam temas que vão de encontro à posição conservadora da alta cúpula da Igreja. Os vídeos da campanha “O Papa vem aí! O que muda na sua vida?” defendem o uso de contraceptivos, o Estado laico, o direito ao aborto e o respeito à população LGBT.

 

 

Maria José Nunes, presidente da ONG, destacou em lúcida entrevista ao site da revista Carta Capital como o “papa dos pobres”, epíteto do argentino Jorge Bergoglio,  é uma figura muito conveniente para a Igreja nesse momento, pois tinge de suposta humildade e simpatia o recrudescimento do conservadorismo da instituição. “Em termos doutrinais, a figura desse papa é a manutenção do que foi o papado de Bento XVI e de João Paulo II, embora os estilos sejam distintos. Há dois indicadores claros nesse sentido: um é o Manual de Bioética para jovens que a igreja está lançando agora e o outro é a encíclica que o papa Francisco acaba de publicar. Nesta encíclica, além da reafirmação da fé, existe a reafirmação, por exemplo, da heteronormatividade. Francisco é um papa muito mais midiático que Ratzinger, que era duro e intelectual. É uma figura que vem a calhar para a Igreja neste momento, mas que significa a manutenção e o aprofundamento do conservadorismo doutrinal.”

 

Conservadorismo que não parece corresponder aos ânimos da maioria dos jovens seguidores de Bergoglio. Prova disso são os resultados da pesquisa encomendada pela CDD ao IBOPE sobre como pensam os católicos e as católicas brasileiras a respeito de aborto, união entre pessoas do mesmo sexo e uso da pílula do dia seguinte, entre outras questões.

 

Das pessoas entrevistadas entre 16 e 30 anos, 82% apoiaria total ou parcialmente se a Igreja resolvesse permitir o uso da pílula do dia seguinte, e 75% dos católicos com mais de 31 anos também apoiariam a decisão. A união entre pessoas do mesmo sexo seria apoiada por 56% dos jovens católicos e por 43% dos fiéis mais velhos. A absurda prisão de mulheres que recorrem ao aborto, prevista pela lei brasileira, é rejeitada pela maioria das pessoas entrevistadas: 60% entre jovens das regiões Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste, e 77% entre jovens da região Sul do país. “Há uma juventude que segue o papa, que vai às jornadas, mas que não pratica a doutrina proposta por ele. Acho que a gente não pode imaginar que toda essa juventude não faça sexo, seja heterossexual, não use camisinha e anticoncepção. Uma coisa é a necessidade que eles têm, digamos, de guias e de lideranças. Agora, dessa juventude, qual é a proporção daqueles que seguem a doutrina?”, questiona Nunes.

 

Imagem via Aborto em Debate

 

A presidente da ONG lembra que a influência da religião na política brasileira se traduz em retrocessos e supressão dos direitos civis principalmente de mulheres e homossexuais, e não são só os parlamentares evangélicos que atuam nessa frente. “O que acontece é que temos, na verdade, não uma bancada evangélica, mas uma bancada religiosa, que é a soma de evangélicos, com espíritas e católicos. A Igreja Católica se alia aos evangélicos conservadores no Congresso contra, muito especificamente, os direitos das mulheres e dos homossexuais. Isso é um direito que eles têm, de estar lá, porque a nossa Constituição permite isso e, portanto, é nas urnas que temos que derrotá-los. Mas cabe a nós perguntar sobre o outro lado: como o Executivo lida com a religião? Ultimamente a posição tem sido de subserviência, em função do que eles supõem que sejam os ganhos eleitorais. Não há uma palavra do governo sobre a absurda CPI do aborto, sobre o inconstitucional estatuto do nascituro e sobre a questão da cura gay. E há um investimento de recursos do Estado na religião. O papa vem ao Brasil não como Chefe de Estado, mas como líder espiritual de uma comunidade religiosa. Portanto, constitucionalmente, o Estado não pode colocar recursos ali e, no entanto, coloca. Defendemos o Estado laico, mas esses últimos governos não têm demonstrado, ao contrário até, avanço nessa direção. Eles não podem se pautar por valores e princípios religiosos, sejam eles de qualquer religião. Essa é a base e o princípio do respeito à todas as religiões e à não-religião.”

 

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