Para amar nossos cabelos cacheados

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A maravilhosa Marjorie Rodrigues tem um blog maravilhoso sobre cabelos cacheados, o Cabelo Bom, Sim Senhor!, em que ela celebra a beleza de cachos e crespos. Na seção O pente que nos penteia, ela dá espaço para cacheadas e crespas escreverem sobre a relação com os cabelos. Fiquei muito contente e honrada quando Marjorie me convidou a contar minha história.

 

Enquanto escrevia o post fui me dando conta do processo de desconstrução de mitos, preconceitos e padrões que nos são incutidos desde criança sobre como nossos cabelos devem ser, e como a reflexão sobre cabelos é uma grande questão feminista. Reproduzo o post aqui no Transtudo, convidando todo mundo a conhecer o blog da Marjorie e a refletir sobre os próprios cabelos. Como você se relaciona com eles? Que mensagens eles passam sobre você para o mundo? Quem se animar pode comentar aqui embaixo, e quem se animar muito pode mandar um email para a Marjorie, que está em busca de histórias pessoais sobre cachos e crespos.

 

Meus cachos e eu, felizes no Parque do Flamengo em janeiro de 2015

 

Quando eu tinha uns 11 anos, tinha os cabelos longos e estava começando a libertar meus cachos do rabo de cavalo em que os mantinha quase 90% do tempo. Um dia, com a cabeleira livre leve e solta, cheia de cachos e de volume, fui à casa de uma amiga que estava recebendo a visita de parte da família. Duas primas dela, ao me verem, mal conseguiram conter a risada; correram para o banheiro e se esvaíram em gargalhadas. Lembro o constrangimento estampado no rosto da minha amiga, e de pensar “caramba, os meus cabelos são tão engraçados assim?”

 

Acho que ali, no contexto em que a gente cresceu, eles eram sim. Naquela idade, nossa principal fonte de informação sobre como navegar as turbulentas águas da pré-adolescência eram revistas *para meninas* cuja mensagem invariavelmente era: “seja você mesma! Contanto que você seja branca, magra, tenha os cabelos longos e lisos e goste de meninos.” Eu sou branca, mas não era magra. Tinha os cabelos longos, mas cacheados. E até gostava de meninos, mas diferentemente do que aquelas revistas tentavam nos convencer, jamais senti que meu propósito na vida fosse agradar garotos. Aliás, muito pelo contrário (mas essa é outra história…).

 

Voltando aos cabelos, nessa época comecei a perceber que meus cachos e minha vontade de assumi-los – e a resistência a escovas e alisamentos, tão comuns entre as meninas e mulheres com quem convivia – eram também um traço de minha inquietação e rejeição a imposições sociais. Percebi também que até nos nossos cachos cagam regra: uma das máximas que ouvia bastante naqueles tempos era que cabelos cacheados tinham que ser longos, porque curtos eles se tornavam volumosos – e o volume, esse maldito, deve ser combatido com unhas, dentes e fios.

 

Daí que, também por volta dessa idade, cortei-os pela primeira vez na altura do queixo. Descobri que 1) volume não é algo necessariamente ruim. Fui me dando conta de que sigo contente na contramão dos padrões: adoro cabelos volumosos, estilo juba de leão, com cachos vivos, hipnotizantes e encantadores como as serpentes nos cabelos de Medusa. E 2) cabelos cacheados não são todos iguais. Os meus são relativamente finos e vão murchando ao passar dos ombros; quanto mais curtos, mais serelepes ficam os meus cachos, e gente, que lindeza que são cachos serelepes!

 

Fui sentindo cada vez mais algo que pra mim já estava claro desde meu primeiro creme ativador de cachos: cabelo é identidade. É um dos muitos signos que a gente ostenta pra mostrar pro mundão pelo menos uma parte de quem a gente é.

 

E a propósito de ser quem a gente é até o último fio de cabelo, uma das alegrias de ter morado na gringa é que, pelo menos nos lugares por onde passei, predominava o estilo cabeleira livre. Cacheados, lisos, ondulados, curtos, médios, longos, de várias cores ou descoloridos, em cortes assimétricos ou raspados, em mulheres e em homens: a galera com quem eu convivia tinha uma relação ao mesmo tempo lúdica e política com os próprios cabelos. Vale destacar que o ambiente que frequentei lá fora, de gente meio-intelectual-meio-de-esquerda-e-bastante-feminista, era propício pra esse tipo de expressão.

 

Na Itália me encantei com a cabeleira selvagem de algumas italianas e com os cortes assimétricos. Arrisquei o design italiano e fiz um lindo sidecut, aquele corte em que um lado fica bem curtinho e o outro lado mais longo. Curti bastante, mas a assimetria foi me cansando e eu fui ficando cada vez mais encantada ao olhar pro lado em que brilhavam meus cabelos curtíssimos. Fui trabalhando a ideia de cortar tudo e bancar um corte pixie, uma espécie de Joãozinho modernoso.

 

Eis que me vejo em Londres, onde não falta inspiração pra quem curte invencionices em cortes e cores. Busquei um salão em East London, no coração hipster da cidade, e falei pra moça mandar ver. Saí de lá com um corte “calopsita cacheada” – que eu amei e que tenho mais ou menos mantido desde então.

 

Com o tempo tenho sentido que uma das coisas maravilhosas da minha incipiente experiência com a *maturidade* (risos) é que tenho querido cada vez mais ser eu mesma. E o curioso desse meu último corte é que ele tem expressado bastante bem essa Carolina de agora, sempre mais à vontade na própria pele e com os próprios cabelos. E com a falta deles também: o próximo passo rumo à libertação cabelística será raspá-los (!). Tenho ensaiado encarar a máquina há tempos, e tô pouco a pouco chegando lá. Quem sabe meu próximo post nesse blog maravilhoso não será um relato sobre a careca e sobre como, em termos de cabelo, de corpo e de vida, nada deve e tudo, absolutamente TUDO pode – e pode muito?