Sobre Rachel Sheherazade e homens que não ouvem as mulheres

'Nada mais parecido com um machista de direita do que um machista de esquerda' - Olga Berrios / Flickr CC
'Nada mais parecido com um machista de direita do que um machista de esquerda' - Olga Berrios / Flickr CC

1.Eu abomino a ideia de uma suposta aliança incondicional entre mulheres – o que muitas têm chamado de sororidade, palavra usada a torto e direito nas redes feministas que foram se formando pela internet nos últimos anos.

A palavra sororidade eu aprendi junto com a história dela: que teria sido usada primeiro por um grupo de mulheres brancas de classe média que predicavam um feminismo radical e sectário nos anos 1960-70 nos EUA, pressupondo uma aliança incondicional entre mulheres e negligenciando as diferentes experiências delas, atravessadas por outros marcadores sociais além do gênero, como etnia, classe, sexualidade, nacionalidade, idade, etc.

Posso estar enganada, mas o que aprendi foi que o conceito de interseccionalidade no feminismo – a atenção à interação destes marcadores sociais na experiência de cada mulher – surgiu inclusive para se contrapor a essa ideia de sororidade que nos igualava todas como mulheres, apagando as diferenças entre cada uma de nós em benefício de um grupo muito específico (as mulheres brancas de classe média).

Não me considero aliada de toda e qualquer mulher porque tantíssimas delas estão aí tranquilamente contribuindo pra opressão alheia. Minha aliança não está baseada no fato de uma pessoa se identificar como mulher, mas em ela estar consciente da própria posição, dessa interseção de privilégios e opressões que nos enreda a todas, e contribuir pra libertação de todes dessa máquina de moer gente que é o sistema capitalista heterossexista patriarcal supremacista branco.

2. Quando a campanha #MeuAmigoSecreto foi lançada, em novembro de 2015, eu achei uma grande besteira. Fiz textão no Facebook e tudo pra dizer, com muitas palavras, que não é tão difícil assim dizer pro amigo ou conhecido que ele tava sendo um machista de merda com tal frase ou atitude. Entre muitas coisas, achei a campanha exagerada, pensei que temos coisas muito mais importantes em que focar e que distribuir carapuças pros amigos pelas redes era uma perda de tempo.

Depois disso, algumas amigas vieram conversar comigo e me lembraram, entre outras coisas, de que nem todas as mulheres têm a mesma experiência, a mesma disposição ou as mesmas ferramentas que eu pra lidar com o machismo de amigos e conhecidos, e que o barulho que a campanha estava fazendo (e mesmo o incômodo que eu e algumas pessoas estávamos sentindo) era um sinal de que algo estava se movendo nessa conversa continuada que estamos tendo nos últimos anos sobre machismo.

Naquele momento, entre os relatos que me tocaram, bateu fundo a frase de uma mulher que eu admiro muito e que não compartilhou uma vivência pessoal dela, mas manifestou somente sobre aquela polêmica toda: “Ouçam as mulheres”.

“Ouçam as mulheres”. Parece simples, né? Pois pra mim, naquele momento, não foi. Eu não ouvi as mulheres enquanto elas abriam pro mundo uma infinidade de experiências desagradáveis, frustrantes e até violentas com homens de quem elas esperavam mais. Em vez disso, eu menosprezei o que me pareceu besteira baseada unicamente em minha vivência, que também incluía vários episódios parecidos com o que muitas mulheres estavam contando, mas que pra mim não eram tão significativos assim.

3. Daí que hoje várias mulheres, muitas feministas ligadas à militância de esquerda, apontaram que Silvio Santos foi machista com Rachel Sheherazade, um dos principais nomes da direita cheia de ódio (antifeminista, inclusive) que ascendeu com força nos últimos anos.

O que eu ouvi de muitas dessas mulheres foi: reconhecemos o que aconteceu ali porque nós também já passamos por isso. Nós também já fomos constrangidas por nossos chefes de uma maneira muito específica não porque nosso trabalho não lhes agradava, mas porque somos mulheres. Reconhecemos o que aconteceu ali e sabemos que o dono do SBT falou com Sheherazade do jeito que falou não porque estava insatisfeito com o trabalho dela, mas porque ela é mulher e por isso ele se sentiu à vontade para humilhá-la em rede nacional.

Pois bem, essas mulheres gritaram machismo e repudiaram a atitude do dono do SBT. O que veio depois disso foi a lamentável reação negativa de muitos homens ligados a essa mesma militância de esquerda, desqualificando as críticas das mulheres com sarcasmo e virulência (li até um “tá com pena, leva a Sheherazade pra casa”, referenciando um desprezível comentário da apresentadora).

4.Voltando ao meu primeiro ponto: nós, mulheres feministas de esquerda, não somos aliadas de Sheherazade. Mas nós, mulheres feministas, sabemos que o machismo que bate em Rachel também bate em Carolina, em Dilma e em Marcela. E é porque já nos vimos naquela situação que nos levantamos pra apontar que olha, aquilo é machismo, e é inaceitável, independentemente da mulher que esteja na berlinda. O que esperávamos de homens com quem compartilhamos tantas lutas era a disposição de ouvir, justamente porque aquela é uma situação que eles nunca viverão e que só poderiam compreender se se abrissem para nos escutar. Em vez disso eles preferiram, como eu na minha primeira reação ao #MeuAmigoSecreto, desprezar vivências que desconhecem – e muitos inclusive aproveitaram pra destilar o machismo e a misoginia que mal guardam dentro de si nos círculos da militância “progressista”.

5. Machismo é sempre machismo e sempre inaceitável, não importa a quem se dirija e não importa de quem venha. Se você tem qualquer compromisso com as mulheres e as lutas feministas, não existe tergiversar sobre isso, por mais que você queira e que te pareça conveniente em certos momentos. Ou: “não há nada mais parecido com um machista de direita do que um machista de esquerda”.

6. Homens, à esquerda e à direita: ouçam as mulheres. E melhorem.