Todos temos ‘lugar de fala’. Que tal descobrir qual é o seu?

Imagem: freestocks / Flickr CC
Imagem: freestocks / Flickr CC

Muito tem se escrito e comentado no último ano sobre o tal “lugar de fala”. Para passar da discussão rasa de Facebook a uma reflexão minimamente embasada, recomendo uma matéria do Nexo sobre o tema e a Aula Pública ministrada pela filósofa Djamila Ribeiro em que ela comenta o conceito e seus usos. Deixo também meus dois centavos, na tentativa de ampliar um debate que tem sido levado, muitas vezes, de maneira equivocada, alarmista e até leviana:

LUGAR DE FALA

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LUGAR DE ONDE A PESSOA FALA

Eu falo do lugar que ocupo nessa sociedade aqui —> o de uma mulher branca cisgênero heterossexual – pero no mucho – de classe média.

Meu primeiro contato com o conceito foi a partir de ‘Notes towards a politics of location’, da Adrienne Rich (1929-2012). A política da localização do teu corpo. Que lugares teu corpo – teu gênero, tua cor de pele, tua capacidade física, tua sexualidade – te permite percorrer e ocupar? A que lugares (físicos e simbólicos) você tem acesso com esse corpo? Em que lugares esse corpo é barrado, interditado? “Me localizar neste corpo significa mais do que entender o que significa pra mim ter vulva e clitóris e útero e seios. Significa reconhecer esta pele branca, os lugares a que ela me levou, os lugares a que ela não me permitiu chegar.”

LUGAR DE FALA

PASSE ÚNICO OBRIGATÓRIO IMPRESCINDÍVEL PRA FALAR DE OPRESSÃO

Pode tudo, gente. Pode falar de machismo sendo homem, pode falar de racismo sendo branca, pode falar de transfobia sendo cisgênero. CONTANTO QUE consciente de que teu gênero masculino, tua pele branca, tua cisgeneridade não te permitem ocupar os lugares que são impostos a mulheres, pessoas negras, pessoas trans por causa da opressão a que elas estão submetidas precisamente por serem mulheres, por serem negras, por serem trans. CONTANTO QUE consciente de que, nessas assimetrias, o lugar de onde você fala é um lugar de privilégio, de SUJEITO QUE SE BENEFICIA DESTAS OPRESSÕES.

Nós, pessoas brancas (iludidos que somos de que somos o centro do universo, escreveu Adrienne Rich): como vivemos o racismo? Já pensou a que lugares teu corpo branco te levou e por quais razões? Quantos corpos negros chegaram e ocuparam estes mesmos lugares? Lá onde teu corpo branco tem voz, corpos negros também têm voz? Na mesma medida, na mesma intensidade, com a mesma credibilidade? Sim? Não? POR QUÊ?

Não é a mesma coisa, mas eu me permito a analogia: corpo de homem / corpo de mulher; corpo cisgênero / corpo transgênero; etc etc etc repita o exercício.

A partir desse entendimento de “lugar de fala”, deixo aqui meu singelo chamado para que todes busquemos evitar: 1. igualar os corpos, as experiências, os discursos, as amplitudes dos discursos; 2. alienar pessoas que estão tentando, mesmo, se entender e entender onde se encaixam e de que se trata afinal esse balaio asqueroso de opressões e privilégios, que há tanto pra explicar e ninguém (de bom grado) que não entenda.

(CONTANTO QUE de bom grado. Porque ninguém é obrigada a segurar a mão do coleguinha que tá bem confortável sentado em cima do próprio privilégio e só quer vociferar contra quem tá sacudindo essas estruturas.)