Um abraço de Amelinha Teles

Amelinha Teles na Universidade Federal na Paraíba em 2014. Foto via Facebook
Amelinha Teles na Universidade Federal na Paraíba em 2014. Foto via Facebook

Semana passada eu conheci Amelinha Teles. Amelinha é uma das muitas mulheres que lutou contra a ditadura militar, foi presa e torturada. Torturas que envolviam violência sexual e que envolveram seus dois filhos: Janaína, com 5 anos na época, e Edson, com 2 anos. A irmã dela, Criméia de Almeida, também militante contra a ditadura, foi presa quando estava no sétimo mês de gestação. Grávida, ela foi torturada, também com violência sexual. Seu filho, João, nasceu na prisão.

Dizia: conheci Amelinha. Ela me passou muita força e muita doçura – talvez pelo sotaque mineiro, que fez aflorar o meu; certamente pelo sorriso e pela gentileza que reservou a todas as pessoas com quem conversou aquela noite. Amelinha estava lá para falar para uma plateia de universitários, a maioria recém-entrada nos 20 anos, sobre a luta das mulheres contra a ditadura – as torturas e a violência sexual imposta por agentes da ditadura contra as mulheres e o machismo na militância de esquerda também estavam em pauta, bien sûr.

A palestra foi incrível e a resposta do público também. Pensei o quanto era maravilhoso que aqueles jovens tivessem ouvido Amelinha falar sobre aquilo tudo, a transformação que aquilo podia causar em cada uma das pessoas que a ouviram aquele dia. Saímos juntas da palestra e comentei isso com ela. “Ah sim, é muito bom mesmo falar sobre isso com eles. Eu acredito, o Brasil vai melhorar”, ela disse com um otimismo que, admito, me surpreendeu. “Até porque a gente não vai desistir, né?”, brinquei. “Ih, a gente não desiste não, não desiste mesmo”, respondeu Amelinha.

Pensei: se Amelinha passou por tudo que passou, nunca desistiu e segue lutando até hoje pela sociedade em que ela acredita, quem sou eu pra sucumbir às trevas atuais e desistir? Posso não, por ela e por todas as outras, que passaram e que virão. Podemos não.

Então pra quem hoje, como eu, se sente desolada diante dos últimos acontecimentos e das perspectivas do que vem por aí, eu mando um abraço forte com a energia boa que Amelinha me passou, que é a energia de todas as que vieram antes de nós, as que estão conosco hoje e as que ainda virão e que sabem que não existe outra vida que não uma vida de luta por aquilo em que a gente acredita. De coração, sem cinismo e sem afetação. Tamojunta e vamoquevamo, hoje e sempre.