Crise

Os novos descartados

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Occupywallstreet.net

 

 

 

Os jovens são os novos descartados da economia. A observação é do Papa Francisco. Ele usou essa expressão em uma entrevista aos jornalistas italianos Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi, divulgada pelo site Vatican Insider e reproduzida em vários jornais pelo mundo. Uma versão em português pode ser lida no site Carta Maior (aqui).

 

A entrevista é parte de um livro que Tornielli e Galeazzi estão lançando, intitulado “Papa Francisco: essa economia mata”. Nela, o Papa critica o que chama de “cultura do descarte” que sustenta o processo de globalização. E defende a construção de uma economia na qual o bem das pessoas, e não o dinheiro, seja o centro.

 

“Quando já não é o homem, senão o dinheiro, o que ocupa o centro do sistema, quando o dinheiro se transforma em um ídolo, os homens e as mulheres são reduzidos a meros instrumentos de um sistema social e econômico caracterizado, e dominado por profundos desequilíbrios. E assim se ‘descarta’ o que não serve a esta lógica: é essa atitude que descarta as crianças e os anciãos, e que agora também afeta os jovens. Impressionou-me saber que, nos países desenvolvidos, existem muitos milhões de jovens menores de 25 anos que não têm trabalho. Às vezes, me pergunto qual será o próximo descarte”.

 

As estatísticas dão razão a Jorge Bergoglio.

 

Foto do site No Amazonas É Assim (http://noamazonaseassim.com)

 

De acordo com o último informe do Escritório de Estatísticas Europeu (Eurostat) divulgado em 7 de janeiro, o desemprego atinge 24,423 milhões de pessoas na Europa, dois quais 5,1 milhões são jovens com menos de 25 anos. A situação é mais dramática na Espanha onde mais da metade (53,5%) dos desempregados estão nessa faixa de idade, depois vem a Grécia (49,8%). Na França, 10,7% dos desempregados são jovens. As menores taxas estão na Alemanha (7,4%), Áustria (9,4%) e Holanda (9,7%).

 

Sem emprego e sem perspectivas, os jovens são os mais atingidos pela crise econômica europeia, gestada e parida em 2008 dentro dos mercados financeiros americano e europeu. O esforço dos governos para salvar os bancos – causadores do desastre – levou à lona as economias em todo mundo, aumentando a pobreza e a desigualdade, principalmente nessa faixa da população.

 

São eles mesmos, os jovens, à frente dos protestos populares – que diminuíram em tamanho, mas seguem por toda parte, por fora da pauta e das manchetes dos jornais, rádios e TVs. São eles que impulsionam o renascimento de movimentos de esquerda (e de direita também) que, por sua vez, lideram a reação aos programas de austeridade impostos pelos governos europeus para renegociar a dívida criada com os programas de salvamento de bancos. Estes movimentos acabam de obter sua primeira conquista, com a vitória do partido Syriza, considerado radical de esquerda, nas eleições de domingo na Grécia.

 

Atentos aos passos do novo governo grego com o Syriza à frente, outros movimentos como o espanhol Podemos e o francês Obras para o futuro, já se mobilizam para rever fundamentos dos programas de austeridade (leia aqui uma boa análise sobre isso no jornal argentino Página 12).

 

Quem sabe o Papa, com a postura de verdadeiro estadista que vem demonstrando desde que tomou o lugar de Bento XVI, poderá ser um apoio para esta nova corrente.

Condenados a descansar nos jardins de suas mansões

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

 

 

 

Eles “quebraram” os bancos que comandavam e detonaram a maior crise econômica desde o “crash” de 1929, causando o desemprego e a miséria de milhões de pessoas pelo planeta, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Mas os banqueiros responsáveis pela quebra daquelas instituições em 2007 e 2008 não sofreram qualquer punição e hoje flanam em seu patrimônio milionário construído às custas do desemprego mundial.

 

A Samuel número 10 está nas bancas com um sensacional dossiê sobre longevidade. Assine já e apoie a imprensa alternativa. 

 

Você pensava que nos Estados Unidos a Justiça sempre funciona? Eu também. Engano nosso. Reportagem publicada no site The Center for Public Integrity (leia aqui) revela o que aconteceu com aqueles executivos (ir)responsáveis pela bancarrota mundial: nada! Ao contrário, estão nadando na grana, depois de terem causado um desemprego recorde em vários países. Richard Fuld (foto acima) que comandava o Lehman Brothers Holdings Inc., o banco que disparou a crise ao entrar em bancarrota exatamente há cinco anos (em 15 de setembro de 2008), está tranquilo. Veja a foto da mansão dele em Greenwich, no estado de Connecticut:

 

 

 

 

Fuld tem também um sítio em Sun Valley, no estado de Idaho e uma casa de cinco quartos na Flórida. Só não tem mais um apartamento em Manhattan, na Park Avenue, porque vendeu por US$ 25,87 milhões em 2009. Coitado…

 

Os outros banqueiros também reponsáveis pela crise – Jimmy Cayne (Bear Stearns), Stanley O’Neal (Merrill Lynch), Chuck Prince (Citigroup) and Ken Lewis (Bank of America) também continuam vivendo no luxo.

 

 

As lições de Chipre

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

 

Algumas boas lições da crise europeia podem ser encontradas na imprensa alternativa, único espaço na mídia em que se questiona o sistema como um todo e não apenas se repete a ladainha da austeridade alemã.

 

Uma matéria publicada no Blog Salmón mostrou que, no último capítulo da crise – a “quebra” do minúsculo Chipre – uma “dose de realidade” foi duramente aplicada: sistemas de garantia de depósitos não são garantia de nada.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

O Blog Salmón é mantido por um grupo de economistas e outros profissionais que procuram fazer uma cobertura mais crítica da economia. Nesta matéria, eles contam que os cipriotas acabam de ser vítimas de um confisco de dinheiro em suas contas bancárias e não houve seguro de depósito que os salvasse.

 

Os autores explicam que, na verdade, em caso de colapso dos sistemas privados, não há como sustentar fundos garantidores de depósito com dinheiro do governo porque a contrapartida seria um endividamento público que custaria a todos os cidadãos, os que têm e os que não têm conta em banco.

 

Mas então não há segurança em guardar dinheiro nos bancos? Sim, há alguma, por exemplo, em caso de roubo, o banco tem que dar conta do dinheiro. Mas em uma “tsunami” financeira como a que varreu a Europa, não há seguro. Guardar dinheiro debaixo do colchão tampouco funciona. Quando há uma crise, a moeda corrente – dentro e fora do banco – desvaloriza-se e todos perdem.

 

Aparentemente, o sistema financeiro brasileiro não foi afetado pela crise financeira europeia. Pelo menos não a ponto de respingar nos correntistas. Geralmente os bancos em qualquer parte se ressentem das crises internacionais quando têm que recorrer ao mercado  para fazer alguma captação de recursos muito específica – em geral para empresas – porque o acesso ao dinheiro fica mais difícil e o custo sobe.

 

O Brasil também tem um Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mantido com dinheiro dos próprios correntistas, administrado pelos próprios bancos. O governo não tem nenhuma ingerência sobre o FGC.

 

A foto acima é a que ilustra a matéria do Blog Salmón.

 

Se você tem interesse em entender essa confusão de crise do crédito, assista o video abaixo. É uma “visualização” da crise. É um pouco longo, e está legendado em espanhol, mas é bem didático.

 

A crise europeia é tema de capa do nº 8 da Samuel, que já está na praça, não percam.

Só rindo

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

 

 

Parece que muitos europeus estão encontrando na comédia um meio de entender e enfrentar a pior crise econômica pela qual já passaram em sua longa história. Na Itália, o comediante Beppe Grillo, do Movimento 5 Estrelas, ganhou quase um quarto das cadeiras para o Parlamento nas eleições de fevereiro, comparado a 30% do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi e todo o seu poderoso aparato político e de mídia.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

Na Irlanda, dois experientes economistas com passagem por empresas e bancos organizaram um festival onde juntam economistas, analistas financeiros, jornalistas e…comediantes. Todos em um mesmo palco falando de crise econômica.

 

Parece bizarro?

 

É, mas é justamente a proposta do Kilkenomics, um festival realizado há três anos na cidade de Kilkenny, no interior do país: tratar a economia com bom humor. Leia mais nesta matéria do site Knowledge Wharton.

 

A Irlanda foi um dos países mais atingidos pela crise que vem açoitando os europeus desde 2008. Os criadores do Kilkenomics, os economistas Richard Cook e David McWilliams, queriam ajudar as pessoas a entender o que está acontecendo, porque tanto desemprego, quem é o responsável por essa catástrofe. E acreditam que a comédia é a melhor forma de explicar claramente coisas aparentemente enigmáticas como a Economia.

 

O festival tem atraído todo tipo de gente, famosos e anônimos, e a prova de seu sucesso é a participação de profissionais de peso global como os economistas Jeffrey Sachs, Paul McCulley – ex-executivo do fundo de investimentos PIMCO, um dos maiores do mundo – e Martin Lousteau, ex-ministro da Economia da Argentina.

 

Durante as apresentações, os comediantes traduzem para o público, em seu próprio entendimento, os conceitos expostos pelos palestrantes “sérios”.

 

Kilkenomics tem até sua própria moeda, o Marble, que circula durante os quatro dias do evento em bares, restaurantes e lojinhas.

 

A foto acima é do blog AC’s e mostra David McWilliams (à esquerda) cumprimentando Jeffrey Sachs por seu aniversário no palco do Kilkenomics em 5 de novembro de 2011.

 

Veja abaixo um vídeo sobre a programação do festival:

A Islândia saiu do “buraco”

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

 

 

 

Primeiro país a “cair” na bancarrota mundial desencadeada pela quebra do banco americano Lehman Brothers em 2008, a Islândia já se levantou.

 

Como? Mandando às favas as receitas neoliberais que a Alemanha prega (e força) para a Grécia, Itália e Espanha.

 

As últimas notícias, tanto na imprensa tradicional quanto na alternativa, dão conta de que a economia islandesa está se recuperando. Logo após a crise, em 2008, o pequeno país registrou dez trimestres sucessivos de encolhimento do Produto Interno Bruto (PIB). Hoje já está em seu sétimo trimestre de crescimento ao redor de 2,5% anuais. O Desemprego caiu para abaixo de 5% e a confiança da população está se levantando depois de uma profunda depressão coletiva.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a Revista Samuel.

 

Quem quiser conhecer melhor a história da crise islandesa tem que ler duas brilhantes matérias de autoria de João Moreira Salles, da Revista Piauí. A primeira, publicada em Janeiro de 2009, intitulada “A grande ilusão”, está no site, porém fechada para assinantes. E uma segunda publicada em Fevereiro de 2012, “A Ilha Laboratório“, essa sim pode ser lida no site.

 

Além de dono da revista, João é um excelente repórter, escreve super bem e foi um dos primeiros brasileiros a se deslocar para a capital Reykjavik,  passar um tempo lá e ver o que estava acontecendo in loco, ao invés de apenas acompanhar pelas agências internacionais americanas e europeias, como se vê na grande imprensa. Conversando com as pessoas, João tirou um relato da visita do ponto de vista humano, longe dos índices financeiros e da visão fria do mercado.

 

Na última matéria, João Moreira Salles já dizia, resumidamente, que o governo islandês conseguiu sair da bancarrota usando suas reservas para socorrer seu próprio povo ao invés de socorrer os bancos.

 

O vídeo abaixo conta, em espanhol, como a Islândia entrou e depois saiu do “buraco”, em uma verdadeira revolução silenciosa.

 

 

Mas Salles frisa que não se pode dizer que a solução encontrada por um país inexpressivo como a Islândia possa servir para outros. A Islândia nunca representou um risco sistêmico para o mundo. Já Itália e Espanha…

 

A foto acima foi emprestada do blog The Daily Irrelevant e mostra rostos dos banqueiros que fugiram do país depois da crise, agora ilustrando o W.C. em banheiro público de Reykjavik.

 

Você já leu o dossiê Educação da Samuel nº 7? Não perca, está sensacional.

 

Será um novo “Lehman”?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017


Apesar do tombo que as economias dos países ricos tomaram a partir de 2007 por culpa dos bancos, parece que pouca coisa mudou para o lado dos banqueiros desde então. Uma análise feita pelo economista Marco Antonio Moreno (leia aqui no original em espanhol), publicado recentemente no site do Observatório Econômico da América Latina (Obela), mostra que as atividades especulativas de uma rede de bancos de investimentos – que passam ao largo da supervisão das autoridades monetárias -nunca pararam desde a crise. E que eles apenas mudaram seu “eixo” dos EUA para a Europa – justamente a região que mais está sofrendo com a crise.

“Sistema bancário na sombra” é o nome que os economistas dão àquelas instituições que oferecem aos investidores em todo mundo instrumentos sofisticados de remuneração de aplicações como os chamados veículos estruturados de investimento e fundos Money Market. Estas operações não são contabilizadas nos balanços pelas regras normais exigidas dos bancos tradicionais, por isso ficam invisíveis para os órgãos de supervisão e fiscalização. O volume de operações deste sistema “sombra” foi crescendo espetacularmente desde a virada do Milênio por meio de operações derivativas do tipo CDS (Credit Swap Defaults) que levaram à lona o banco Lehman Brothers nos EUA, dando início à crise.

Moreno faz sua análise a partir de um relatório do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB na sigla em inglês). Leia aqui o relatório original do FSB em inglês. De acordo com os números do Conselho, até 2005 cerca de 44% do sistema bancário “sombra” estavam baseados nos EUA enquanto a Europa abrigava 31% (mais 9% estavam no Reino Unido). Hoje esse quadro se inverteu e a Europa tem 46% da banca-sombra enquanto nos EUA o percentual caiu para 35.

A pergunta que fica é: o que estão esperando? Um Lehman europeu?

 

Apoie a imprensa independente. Assine a Samuel.

 

Soros, pessimista com o euro

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Da Grécia à Espanha, da Itália a Portugal, os europeus sofrem com os efeitos da crise financeira internacional – gerada e parida nos bancos – que quebrou estados nacionais e ceifou os orçamentos públicos por todo o continente. Dizem que essa crise é maior que o “crash” de 1929, mas o ex-megaespeculador George Soros discorda.

“Poderoso Chefão da Esquerda”

Para ele há semelhanças, mas também há grandes diferenças, conforme explicou em uma entrevista exclusiva à repórter Alícia Gonzalez, da publicação eletrônica Other News.

A diferença mais importante, explica, é que na Grande Depressão de 1929 os Estados Unidos tinham muito pouca dívida pública e agora a dívida do Tesouro Americano é a mais elevada da história.

Naquela época, e por recomendação do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946), o governo americano gastou rios de dinheiro público para estimular investimentos na produção e gerar empregos. A dívida, nesse caso, foi justificada como instrumento contracíclico, ou seja, para contrabalançar o encolhimento da atividade econômica provocado pela crise.

Segundo Soros, essa opção não existiria hoje devido ao elevado endividamento do governo americano, equivalente a 84% do Produto Interno Bruto do país segundo um relatório da agência internacional de risco de crédito Standard & Poor’s.

Mas Soros discorda da receita que está sendo aplicada na Europa sob a batuta da Alemanha, oposta à preconizada por Keynes: corte brutal de gastos dos estados para forçar um equilíbrio orçamentário de forma a gerar excedentes para o pagamento das dívidas.

Foi exatamente a receita aplicada no Brasil (e em toda América Latina) nos anos 90 e que sabemos bem no que deu.

Soros diz que medidas que reduzem a atividade econômica, reduzem também a capacidade de pagamento das dívidas. Simples e óbvio.

George Soros, famoso por ter quebrado o Banco Central da Inglaterra nos anos 90, está bem mudado. A partir de uma fundação que leva seu nome, ele tem se voltado à filantropia e causas sociais. Esta matéria em inglês do Media Research Center (MRC) diz até que Soros é de esquerda – o que certamente é um exagero. É porque ultimamente ele tem doado dinheiro para organizações identificadas como de esquerda nos EUA como as pró-legalização das drogas e pró-sindicatos de trabalhadores, entre outras.

A foto acima é do site The Blaze, que reproduziu parte do texto da MRC.

A entrevista completa para o Other News pode ser lida no original em espanhol neste link.

 

LEIA MAIS

PARCEIROS