Macro

Perigosa dependência

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

 

 

 

O economista argentino Raul Prebisch (1901-1986) foi um ícone do pensamento desenvolvimentista. Primeiro presidente da Comissão Econômica Para América Latina (Cepal), ele alertou os governos da região para a dependência dos países da periferia aos países centrais e como essa relação alimentava o subdesenvolvimento e a miséria. Um artigo publicado sábado na revista eletrônica Diálogos do Sul (leia aqui), de autoria de Alicia Bárcena e Antonio Prado, retomam o legado de Prebisch.

 

Apoie a imprensa independente assinando a revista Samuel. Clique aqui e assine já!

 

Relembrar Prebisch ajuda a refletir sobre o momento atual. O economista argentino inspirou muitos intelectuais de esquerda nos anos 60, mas parece que seus ensinamentos foram esquecidos pelos políticos de esquerda, muitos dos quais ocuparam o poder na região nos últimos 20 anos, inclusive no Brasil.

 

Os países em desenvolvimento como Brasil, Argentina, Chile, México, Índia e Rússia, se beneficiaram fortemente nos últimos anos com as exportações de matérias primas – mais conhecidas como “commodities” – para a China, o maior comprador destes produtos no mundo. Os preços recordes para milho, soja, carne, café, petróleo e metais (como cobre e alumínio) encheram o caixa com divisas internacionais. Porém, ao mesmo tempo criaram uma forte dependência daqueles países com a China. Agora que o gigante asiático está revisando sua estratégia de crescimento, essa dependência acende o sinal amarelo.

 

Em uma reportagem publicada na revista eletrônica do Ipea, a Desafios do Desenvolvimento (clique aqui para ler), o economista Renato Baumann das Neves, diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte) do Ipea, lembra que as exportações para a China, que em 2001 respondiam por 3,2% do total das vendas brasileiras ao exterior e por 0,34% do PIB nacional, em 2011 passaram a representar, respectivamente, 17% e 1,8%. Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil.

 

É claro que 17% não é dependência (outros países compram os 83% restantes). O que espanta é o peso de um único “cliente”, a expansão em tão pouco tempo e o fato de que as matérias primas e produtos básicos respondem por quase 70% das exportações brasileiras. Segundo a matéria da Desafios do Desenvolvimento, os vizinhos Chile e Peru estão em uma situação ainda mais preocupante que o Brasil.

 

Dependência nunca foi saudável, em qualquer situação ou relação, seja entre pessoas, empresas ou países. Mas quando se trata de uma ditadura então, é de arrepiar. Empresários e economistas de várias correntes vêm alertando o governo brasileiro há muito tempo para a dependência de matérias primas e o pouco esforço feito pela área econômica para reverter um processo de desindustrialização que se reflete no desempenho da balança comercial.

 

A principal característica das commodities é sua volatilidade. Hoje estão em alta, já passaram por fortes baixas e nada garante que amanhã seguem assim. Se o Brasil não revisar essa relação, amanhã pode ter sérios problemas.

O som da inflação

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

 

Os menores de 30 anos não viveram, talvez não saibam o que é isso. Mas os mais velhos lembram bem de quando ela vinha acompanhada do “hiper”. Era um pesadelo, principalmente para quem ganhava pouco. Você recebia seu salário num dia e tinha que sair correndo pra gastar.

 

No dia seguinte já não valia a mesma coisa. Os reajustes de preços eram quase diários.

Beth Carvalho definiu bem nessa música de 1977, de autoria de Chico Santana (Velha Guarda da Portela).

 

Apoie a imprensa independente assinando a Revista Samuel. Clique aqui e assine já!

 

A inflação é inimiga do povo. Ela acaba com o valor do dinheiro e com o salário. Clara Nunes faz uma referência à desvalorização do dinheiro nesse samba:

 

 

E a dupla sertaneja Dino Franco e Mouraí imagina a perseguição e o diálogo travado entre inflação e o salário:

 

 

Inflação (e como combatê-la) é o tema do momento. Mas o discurso sobre isso na mídia é escorregadio e pode levar a interpretações equivocadas.

 

Tem gente que se beneficia dela (os que têm mais, obvio), sempre se beneficiaram e mais ainda da forma como o Brasil ficou refém das taxas de juros para conter a alta de preços – nem sempre com sucesso.

 

Quem tiver interesse em conhecer o que realmente está em jogo nessa discussão, deve ler o artigo que o Luis Nassif publicou na Carta Capital. Leia aqui.

 

Aliás, a Carta está estreando novo projeto gráfico, lindo, com o bom conteúdo de sempre.

 

 

 

 

 

 

O novo mapa da indústria mundial

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

 

Enquanto por aqui debatemos o motivo do crescimento pífio de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB), uma nova geografia da produção está se desenhando no mundo. É o que observa o economista Jorge Arbache em um esclarecedor artigo publicado em janeiro pelo site Interesse Nacional.

 

Segundo Arbache, esse novo “mapa” traz os Estados Unidos de volta ao cenário industrial depois de ter perdido grande parte de seu poderio na área para a China.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

O governo Obama adotou políticas industriais e monetárias heterodoxas que, somadas a novas tecnologias, estão reerguendo a produção e as exportações industriais americanas.

 

Arbache, que também comanda a divisão para a África no Banco Mundial, disse que o movimento até animou o presidente da General Electric (GE), Jeffrey Immelt, a declarar recentemente que a transferência da produção para fora está saindo de moda como modelo de negócio.

 

Enquanto isso, do outro lado do planeta está havendo um reequilíbrio produtivo estimulado por uma mudança importante na China: depois de anos jogando para baixo os salários pelo mundo, os chineses passaram a ter ganhos reais.

 

Consequentemente, produzir na China já não é a custo de banana e países como Índia, Vietnã e Indonésia, além de africanos aproveitaram para investir em manufatura de massa, de olho nas empresas que começaram a achar a China cara. E também porque ganharam um mercado doméstico mais parrudo com a ascensão das classes de renda mais baixas.

 

O que tudo isso significa para o Brasil?

 

Segundo Arbache, as consequências mais prováveis são “aumento dos custos de produção e o acirramento da competição nos mercados de produtos menos elaborados e intensivos em trabalho”. Ou seja, o Brasil perde competitividade no exterior, o que significa perder mercado, vendas e saldos comerciais.

 

O que só agrava um quadro já ruim. Ao registrar uma queda de 2,7% no ano passado, a produção industrial brasileira não conseguiu reagir ao aumento da renda da população nem aos bilionários pacotes de estímulos, contendo redução de carga tributária e facilidades de crédito, que representaram um custo enorme para o Tesouro Nacional.

 

Em entrevista ao repórter Mario Osava, do IPS, para a matéria “Indústria atrasada, economia enigmática”, o economista Julio de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), explica que o Brasil “não acompanhou a evolução industrial do mundo” nos últimos 20 anos, como fizeram China, Coreia do Sul e Índia.

 

E esse é um equívoco da política macroeconômica do governo que pode custar caro ao desenvolvimento futuro, como já havia alertado o economista Leandro Horie em entrevista ao site IHU, postado aqui no Vintém.

 

A foto acima, intitulada “red tower w drawingcropped vib” pertence à galeria de SBT4Now.

 

O enigma do emprego

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

 

“Crise profunda” na indústria, atividade econômica em baixa. Ainda assim, o Brasil registrou em 2012 o menor desemprego da história. Como pode?

Este é um dos principais assuntos entre os economistas dentro e fora do governo hoje em dia, tentando entender como o país produz empregos se a atividade econômica em geral está fraca.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

Segundo dados do IBGE, órgão responsável pelas estatísticas oficiais, a produção do país (PIB) cresceu apenas 0,6% no fim de 2012. De acordo com o Insitututo de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a indústria brasileira fechou o ano passado com queda de 2,7%.

 

Ao mesmo tempo, a taxa de desocução média dos 12 meses de 2012 ficou em 5,5%, a menor média anual da história do país (leia aqui o informe do IBGE).

 

 

Podemos comemorar a menor taxa de desemprego. Mas a queda da atividade industrial é preocupante. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, o jovem economista Leandro Horie, explicou que o fim da inflação e a melhor distribuição de renda foram fundamentais para o dinamismo econômico que, por sua vez, impulsionou a criação de postos de trabalho.

 

Essa também é, em essência, a explicação dos economistas do Partido dos Trabalhadores (que está no comando), segundo a análise “O enigma do crescimento”, publicada no site Teoria e Debate.

 

Mestre em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista em dinâmica setorial e a questão ocupacional no Brasil, Horie alerta, porém, que o crescimento da atividade econômica e do mercado de trabalho dos últimos anos aconteceu sem grandes modificações na condução do regime macroeconômico que vem desde a década de 1990.

 

“Se por um lado esse modelo proporcionou o fim da inflação, o que é positivo, por outro nos colocou em uma ‘camisa de força’ justamente porque ele limita as possibilidades de maior sustentabilidade do crescimento econômico a partir de um maior dinamismo da indústria, seus encadeamentos setoriais e os efeitos positivos de seu investimento”, afirmou Horie ao IHU.

 

Horie lembra que este aspecto começa a ficar claro a partir de 2011, quando a economia brasileira, mesmo com estímulos (redução de impostos, benefícios tributários, crédito farto), não consegue melhores resultados.

 

A primeira das fotos acima é uma reprodução da obra “Operários”, de Tarsila do Amaral, e foi emprestada do site Aos Mestres da Educação.

 

PARCEIROS