Crise

Condenados a descansar nos jardins de suas mansões

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

 

 

 

Eles “quebraram” os bancos que comandavam e detonaram a maior crise econômica desde o “crash” de 1929, causando o desemprego e a miséria de milhões de pessoas pelo planeta, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Mas os banqueiros responsáveis pela quebra daquelas instituições em 2007 e 2008 não sofreram qualquer punição e hoje flanam em seu patrimônio milionário construído às custas do desemprego mundial.

 

A Samuel número 10 está nas bancas com um sensacional dossiê sobre longevidade. Assine já e apoie a imprensa alternativa. 

 

Você pensava que nos Estados Unidos a Justiça sempre funciona? Eu também. Engano nosso. Reportagem publicada no site The Center for Public Integrity (leia aqui) revela o que aconteceu com aqueles executivos (ir)responsáveis pela bancarrota mundial: nada! Ao contrário, estão nadando na grana, depois de terem causado um desemprego recorde em vários países. Richard Fuld (foto acima) que comandava o Lehman Brothers Holdings Inc., o banco que disparou a crise ao entrar em bancarrota exatamente há cinco anos (em 15 de setembro de 2008), está tranquilo. Veja a foto da mansão dele em Greenwich, no estado de Connecticut:

 

 

 

 

Fuld tem também um sítio em Sun Valley, no estado de Idaho e uma casa de cinco quartos na Flórida. Só não tem mais um apartamento em Manhattan, na Park Avenue, porque vendeu por US$ 25,87 milhões em 2009. Coitado…

 

Os outros banqueiros também reponsáveis pela crise – Jimmy Cayne (Bear Stearns), Stanley O’Neal (Merrill Lynch), Chuck Prince (Citigroup) and Ken Lewis (Bank of America) também continuam vivendo no luxo.

 

 

Macro

Perigosa dependência

terça-feira, 10 de setembro de 2013

 

 

 

O economista argentino Raul Prebisch (1901-1986) foi um ícone do pensamento desenvolvimentista. Primeiro presidente da Comissão Econômica Para América Latina (Cepal), ele alertou os governos da região para a dependência dos países da periferia aos países centrais e como essa relação alimentava o subdesenvolvimento e a miséria. Um artigo publicado sábado na revista eletrônica Diálogos do Sul (leia aqui), de autoria de Alicia Bárcena e Antonio Prado, retomam o legado de Prebisch.

 

Apoie a imprensa independente assinando a revista Samuel. Clique aqui e assine já!

 

Relembrar Prebisch ajuda a refletir sobre o momento atual. O economista argentino inspirou muitos intelectuais de esquerda nos anos 60, mas parece que seus ensinamentos foram esquecidos pelos políticos de esquerda, muitos dos quais ocuparam o poder na região nos últimos 20 anos, inclusive no Brasil.

 

Os países em desenvolvimento como Brasil, Argentina, Chile, México, Índia e Rússia, se beneficiaram fortemente nos últimos anos com as exportações de matérias primas – mais conhecidas como “commodities” – para a China, o maior comprador destes produtos no mundo. Os preços recordes para milho, soja, carne, café, petróleo e metais (como cobre e alumínio) encheram o caixa com divisas internacionais. Porém, ao mesmo tempo criaram uma forte dependência daqueles países com a China. Agora que o gigante asiático está revisando sua estratégia de crescimento, essa dependência acende o sinal amarelo.

 

Em uma reportagem publicada na revista eletrônica do Ipea, a Desafios do Desenvolvimento (clique aqui para ler), o economista Renato Baumann das Neves, diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte) do Ipea, lembra que as exportações para a China, que em 2001 respondiam por 3,2% do total das vendas brasileiras ao exterior e por 0,34% do PIB nacional, em 2011 passaram a representar, respectivamente, 17% e 1,8%. Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil.

 

É claro que 17% não é dependência (outros países compram os 83% restantes). O que espanta é o peso de um único “cliente”, a expansão em tão pouco tempo e o fato de que as matérias primas e produtos básicos respondem por quase 70% das exportações brasileiras. Segundo a matéria da Desafios do Desenvolvimento, os vizinhos Chile e Peru estão em uma situação ainda mais preocupante que o Brasil.

 

Dependência nunca foi saudável, em qualquer situação ou relação, seja entre pessoas, empresas ou países. Mas quando se trata de uma ditadura então, é de arrepiar. Empresários e economistas de várias correntes vêm alertando o governo brasileiro há muito tempo para a dependência de matérias primas e o pouco esforço feito pela área econômica para reverter um processo de desindustrialização que se reflete no desempenho da balança comercial.

 

A principal característica das commodities é sua volatilidade. Hoje estão em alta, já passaram por fortes baixas e nada garante que amanhã seguem assim. Se o Brasil não revisar essa relação, amanhã pode ter sérios problemas.

Cinema

De vento em popa

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

 

Assisti nesta terça-feira o filme  ”Flores Raras”, de Bruno Barreto, que conta o romance da arquiteta brasileira Lota Macedo Soares com a escritora americana Elizabeth Bishop. Belíssimo filme, sensível, um visual incrível, interessante. Recomendo.

 

O que chama a atenção, porém, é a boa fase do cinema nacional.

 

Apoie a imprensa independente assinando a revista Samuel.

 

De acordo com um informe da Agência Nacional de Cinema (Ancine), o número de lançamentos brasileiros em salas de exibição nos últimos 12 meses até 4 de julho foi de 107 longas-metragens. No primeiro semestre de 2013, o cinema brasileiro gerou R$ 141,9 milhões em renda e atraiu 13,6 milhões de espectadores, o que corresponde a quase tudo (90%) que foi alcançado em todo o ano de 2012.  Há muitos e muitos anos (desde 1984) o cinema nacional não vivia uma fase tão boa e continuada em termos de público e renda.

 

Antes de começar o “Flores Raras” na sessão das 19 horas de ontem, no Cine São Luiz, no Largo do Machado, assistimos trailers de outros filmes nacionais que estão para sair como “O Tempo e o Vento”, de Jayme Monjardim, baseado na obra de Érico Veríssimo, e “Casa da Mãe Joana 2″, de Hugo Carvana. Também estou curiosa para ver o cearense “Cine Holliúdy”, de Halder Gomes, que brinca com o idioma – falado em “nordestinês” com legenda em “português”.

 

No entanto, mesmo com tão bons números e resultados, o cinema nacional está muito longe de fazer frente ao estrangeiro. Filmes gringos levam mais de 80% do público e da renda do cinema no Brasil – como de resto em toda a indústria audiovisual. Do lado brasileiro, a quase onipresença das Organizações Globo é incômoda: em quase todos os filmes e produções audiovisuais de sucesso tem alguma presença da Globo Filmes.

 

Também tenho sérias restrições ao papel do grupo pertencente à família Marinho – altamente questionável em termos de poderio cultural -, mas a verdade é que a Globo tem sido importantíssima no apoio à produção e distribuição de filmes brasileiros. Sua capacidade de divulgação através dos horríveis enlatados e novelas nacionais, levam milhares de pessoas aos cinemas. É uma publicidade que dificilmente as produtoras e distribuidoras independentes teriam como pagar se não estivessem associadas à Globo Filmes.

 

Mal ou bem, é um aliado na concorrência com o “rolo compressor” norte-americano. Como nos conta a história, Hollywood vem sendo azeitada desde meados do século passado com bilhões e bilhões de dólares e apoio político da Casa Branca para dominar o cenário cultural e impor a ideologia capitalista. Não só lá nos EUA, mas em todo mundo – em especial na América Latina.

 

E por falar em Globo, imperdível o comentário do jornalista Gustavo Gindre sobre os grupos de comunicação no Brasil, publicado no Observatório da Imprensa e reproduzido na revista Forum.

Trabalho

O preço real da roupa barata

quinta-feira, 16 de maio de 2013

 

Trabalhadores analfabetos (ou quase), sem qualificação profissional, dos países mais pobres da Ásia estão pagando o preço das péssimas condições de trabalho impostas pelas grandes indústrias ocidentais que ali produzem suas mercadorias.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

Um velho dito popular  é que não existe almoço grátis. Grifes famosas a preços módicos, vendidas em lojas caras, enormes, cheias de funcionários e bem localizadas nas principais capitais do mundo, pode ter certeza que alguém está pagando a diferença (os custos e os lucros).

 

A impressionante foto acima e as que seguem abaixo são do site Periodismo Humano e ilustram uma matéria sobre as vítimas do desmoronamento do Rana Plaza, um edifício sede de várias indústrias de confecções em Daca, Bangladesh, em abril. Leia aqui a matéria no original em espanhol.

 

A matéria ressalta que as mulheres são a maioria entre as vítimas. Não só no Rana Plaza, mas em várias outras fábricas de confecções instaladas no país, elas costuram, lavam e empacotam as roupas por 30 a 40 dólares mensais, com uma jornada de dez horas diárias, sete dias por semana.

 

As peças são vendidas para marcas famosas como GAP, C&A, Walmart, JC Penney, El Corte Inglés. O preço que chega ao consumidor, na verdade, nem é tão barato assim. Imagine o lucro dessas empresas.

 

 

Grandes indústrias do Ocidente e dos países asiáticos mais ricos, como Japão e Coreia do Sul, começaram a transferir seus centros de produção para países como Bangladesh, Camboja e Paquistão.

 

O motivo é que os salários em velhos polos produtivos de mão de obra baratíssima, como China e Tailandia, começaram a aumentar, conta a revista eletrônica mexicana Desinformémonos.

 

A tragédia de Bangladesh se soma a outras tantas – por exemplo, em novembro, 100 trabalhadoras morreram num incêndio na fábrica Tazreen Fashion, na mesma cidade de Daca, e em 2011 cerca de 300 pessoas foram queimadas vivas em um incêndio na fábrica Ali Enterprises, no Paquistão.

 

Especialistas que acompanham o assunto de perto alertam que a próxima tragédia pode acontecer no Camboja, outro novo polo de trabalhadores pagos a preço menor que o de banana.

 

 

País paupérrimo na fronteira com a Tailândia, ainda minado de bombas da Guerra do Vietnã, o Camboja entrou para o time dos emergentes há uns 20 anos, atraindo o “investimento” de diversas empresas atrás da fartura de trabalhadores baratos.

 

Já pressionada pelas barbaridades cometidas contra os trabalhadores chineses e indianos, a comunidade internacional através da ONU criou um programa em parceria com a iniciativa privada para melhorar as condições das fábricas no Camboja. Lançado em 2001, o programa se chama  Better Factories Camboia (BFC) e seu objetivo é monitorar e relatar as condições de trabalho nas indústrias de vestuário daquele país.

 

Segundo o site South East Asia Globe, acadêmicos da Universidade de Stanford e membros da organização de defesa dos direitos trabalhistas WRC divulgaram um relatório questionando abertamente o BFC. O  programa, informa o relatório, é bem intencionado, mas na verdade está servindo apenas para encobrir a realidade atrás de uma fachada de responsabilidade social das empresas,  já que não tem poder nenhum de fiscalização ou mesmo de relato fiel da situação. A verdade é que no Camboja há dezenas de fábricas funcionando sem condições mínimas de higiene, conforto e segurança, além da excessiva carga de trabalho.

 

 

Macro

O som da inflação

segunda-feira, 6 de maio de 2013

 

Os menores de 30 anos não viveram, talvez não saibam o que é isso. Mas os mais velhos lembram bem de quando ela vinha acompanhada do “hiper”. Era um pesadelo, principalmente para quem ganhava pouco. Você recebia seu salário num dia e tinha que sair correndo pra gastar.

 

No dia seguinte já não valia a mesma coisa. Os reajustes de preços eram quase diários.

Beth Carvalho definiu bem nessa música de 1977, de autoria de Chico Santana (Velha Guarda da Portela).

 

Apoie a imprensa independente assinando a Revista Samuel. Clique aqui e assine já!

 

A inflação é inimiga do povo. Ela acaba com o valor do dinheiro e com o salário. Clara Nunes faz uma referência à desvalorização do dinheiro nesse samba:

 

 

E a dupla sertaneja Dino Franco e Mouraí imagina a perseguição e o diálogo travado entre inflação e o salário:

 

 

Inflação (e como combatê-la) é o tema do momento. Mas o discurso sobre isso na mídia é escorregadio e pode levar a interpretações equivocadas.

 

Tem gente que se beneficia dela (os que têm mais, obvio), sempre se beneficiaram e mais ainda da forma como o Brasil ficou refém das taxas de juros para conter a alta de preços – nem sempre com sucesso.

 

Quem tiver interesse em conhecer o que realmente está em jogo nessa discussão, deve ler o artigo que o Luis Nassif publicou na Carta Capital. Leia aqui.

 

Aliás, a Carta está estreando novo projeto gráfico, lindo, com o bom conteúdo de sempre.

 

 

 

 

 

 

Dinheiro

“Outro lugar”

terça-feira, 16 de abril de 2013

 

 

Quem estiver interessado em entender melhor sobre os chamados “paraísos fiscais” – onde os muito, muito ricos se escondem – vai encontrar um bom material na revista eletrônica Outras Palavras.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

No dia 8 de abril, a Outras Palavras publicou a tradução de uma entrevista do escritor britânico Nicholas Shaxon ao jornalista francês Christophe Ventura para o site Memoire de Luttes. Conhecido por seus trabalhos investigativos publicados em livro (o mais conhecido é “Treasure Island”, de 2011), Shaxson explica em termos simples o funcionamento dos paraísos fiscais, a barreira protetora montada pelos seus beneficiários e as consequências para as nações.

 

Na entrevista, intitulada “Muito mais que bucólicos paraísos fiscais”, Shaxon define estes locais com duas palavras: “fuga” e “outro lugar”. Um lugar no qual as pessoas abrem uma empresa ou investem em um fundo de investimentos e através desses veículos não só sonegam impostos, mas também fogem às leis penais, à regulação financeira, às obrigações de transparência. Ou seja, fogem às responsabilidades civis e sociais.

 

“Eles isentam os ricos e as grandes empresas das restrições, dos riscos e das obrigações que a democracia exige de cada um de nós. A tributação é apenas um aspecto da questão”, afirma Shaxon.

 

A sociedade europeia e americana passou a prestar mais atenção a estes “outros lugares” quando perceberam que quem consegue abrigo ali está fora dos sacrifícios exigidos de todos para enfrentar a crise detonada pelos bancos em 2008.

 

E mais recentemente, o ICIJ, um consórcio de jornalistas independentes, conseguiu e divulgou documentos que comprovaram a presença (e a grana) de muita gente importante no cenário político internacional refugiada em paraísos fiscais.

 

Foi em um desses lugares, a Ilha de Jersey, que o ex-prefeito Paulo Maluf escondeu dinheiro desviado de obras da Prefeitura de São Paulo. Mas tudo tem limite: a justiça da Ilha agora está mandando Maluf devolver o dinheiro.

 

A foto acima é da galeria da Agência de Turismo das Ilhas Jersey

 

 

Agricultura

Terra estrangeira

terça-feira, 9 de abril de 2013

 

 

Sem muito alarde, grandes extensões de terras agrícolas nos países em desenvolvimento na América Latina e na África estão passando às mãos de estrangeiros. O fenômeno, também conhecido como “land grab” foi tema de uma ampla e muito bem feita matéria da Revista Unesp Ciência (leia aqui o texto original).

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

A corrida do capital internacional para realizar grandes aquisições de terras tem como alvo os países pobres ou em desenvolvimento da Ásia, da América Latina e, principalmente, da África. Os compradores são geralmente grandes empresas transnacionais dedicadas á produção de commodities (como milho e soja) para exportação, exploração de recursos minerais e florestais.

 

O grande mercado para toda essa produção é a China, como se pode ler na matéria “La tierrita de los Orientales”, publicada no site Rebelión.

 

Assunto que pouco atrai o interesse do público, o avanço estrangeiro sobre as terras rurais está chamando a atenção de organizações internacionais ligadas à segurança alimentar por colocar decisões estratégicas de produção de alimentos nas mãos de poucas empresas cujo único foco é o lucro.

 

Além da polêmica questão da propriedade e da soberania sobre os recursos naturais, o fenômeno traz outros efeitos negativos. Concentração da produção, contaminação da água e da terra pelo abuso de agrotóxicos, baixos índices de arrecadação tributária, expulsão de pequenos produtores e desemprego são alguns dos problemas causados pela transferência de grandes extensões de terra aos estrangeiros.

 

De acordo com a reportagem da Unesp Ciência, 1% dos imóveis rurais no Brasil detem 45% da superfície e o mesmo caminho está seguindo a África. O curioso é que no caso africano, os estrangeiros que estão tomando conta são…brasileiros.

 

Um estudo da organização sem fins lucrativos Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agro-Biotecnológicas (ISAAA na sigla em inglês), que foi base para a matéria do Rebelión,  apontou ainda o elevado uso de sementes transgênicas na produção agrícola de 28 países analisados, dos quais 20 deles são periféricos.

 

A foto acima é do site Geograph.

 

Crise

As lições de Chipre

terça-feira, 2 de abril de 2013

 

Algumas boas lições da crise europeia podem ser encontradas na imprensa alternativa, único espaço na mídia em que se questiona o sistema como um todo e não apenas se repete a ladainha da austeridade alemã.

 

Uma matéria publicada no Blog Salmón mostrou que, no último capítulo da crise – a “quebra” do minúsculo Chipre – uma “dose de realidade” foi duramente aplicada: sistemas de garantia de depósitos não são garantia de nada.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

O Blog Salmón é mantido por um grupo de economistas e outros profissionais que procuram fazer uma cobertura mais crítica da economia. Nesta matéria, eles contam que os cipriotas acabam de ser vítimas de um confisco de dinheiro em suas contas bancárias e não houve seguro de depósito que os salvasse.

 

Os autores explicam que, na verdade, em caso de colapso dos sistemas privados, não há como sustentar fundos garantidores de depósito com dinheiro do governo porque a contrapartida seria um endividamento público que custaria a todos os cidadãos, os que têm e os que não têm conta em banco.

 

Mas então não há segurança em guardar dinheiro nos bancos? Sim, há alguma, por exemplo, em caso de roubo, o banco tem que dar conta do dinheiro. Mas em uma “tsunami” financeira como a que varreu a Europa, não há seguro. Guardar dinheiro debaixo do colchão tampouco funciona. Quando há uma crise, a moeda corrente – dentro e fora do banco – desvaloriza-se e todos perdem.

 

Aparentemente, o sistema financeiro brasileiro não foi afetado pela crise financeira europeia. Pelo menos não a ponto de respingar nos correntistas. Geralmente os bancos em qualquer parte se ressentem das crises internacionais quando têm que recorrer ao mercado  para fazer alguma captação de recursos muito específica – em geral para empresas – porque o acesso ao dinheiro fica mais difícil e o custo sobe.

 

O Brasil também tem um Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mantido com dinheiro dos próprios correntistas, administrado pelos próprios bancos. O governo não tem nenhuma ingerência sobre o FGC.

 

A foto acima é a que ilustra a matéria do Blog Salmón.

 

Se você tem interesse em entender essa confusão de crise do crédito, assista o video abaixo. É uma “visualização” da crise. É um pouco longo, e está legendado em espanhol, mas é bem didático.

 

A crise europeia é tema de capa do nº 8 da Samuel, que já está na praça, não percam.

Empresas

Na mira das ditaduras

terça-feira, 26 de março de 2013

 

 

A Comissão de Valores Mobiliários da Argentina – cuja sigla é CNV  – divulgou um relatório que mostra a repressão dos militares sobre as empresas e o mercado de capitais durante a ditadura, no período entre 1976 e 1983.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

Segundo esse relatório, antecipado pelo jornal Página 12 em sua edição de domingo (leia aqui o original em espanhol), a CNV descobriu que mais de 130 empresários, corretores da bolsa de valores e investidores foram sequestrados por agentes do regime, sendo que 11 deles desapareceram.

 

O relatório é resultado da análise de mais de 500 atas de assembleias de empresas e outros documentos que estavam arquivados na própria CNV que, aliás, colaborava na época com os militares na perseguição a estas pessoas. O trabalho também incluiu entrevistas com empresários que haviam sido sequestrados e destituídos de suas empresas.

 

A perseguição atingiu grandes indústrias na época, como Papel Prensa, que produzia papel de imprensa, pertencente ao Grupo Graiver (16 pessoas sequestradas) e a construtora Mackentor (34), de Córdoba. Ambas eram controlados por empresários que tinham ligações políticas com os governos anteriores, ou simplesmente incomodavam outros empresários amigos do regime.

 

Dono de bancos e indústrias, David Graiver (foto), era ligado ao ex-presidente Juan Domingo Perón. Quando veio a ditadura, Graiver se envolveu com os Montoneros, grupo armado que enfrentou os militares com uma guerrilha urbana. Graiver gerenciava o dinheiro dos Montoneros.

 

Em ambos os casos, diretores, executivos e funcionários foram presos irregularmente, encaminhados aos centros de detenção ilegais, muitos torturados e desaparecidos. A propriedade das empresas foi confiscada. Graiver conseguiu fugir para o México, mas morreu em um acidente de avião até hoje mal explicado.

 

Posteriormente, relata a CNV, os militares começaram a atacar corretores e investidores, pessoas que na verdade não tinham qualquer atividade que pudesse ser considerada subversiva pelos padrões do regime.

 

Que os argentinos estão muito à frente dos brasileiros na Justiça aos crimes da ditadura militar, não é novidade. Eles não só estão passando a limpo todo aquele passado tenebroso, como estão colocando os criminosos na cadeia.

 

Por aqui, só agora começamos a nossa Comissão Nacional da Verdade (por coincidência a mesma sigla CNV) que, de fato, não poderá punir ninguém. Mas com tão pouco tempo de ação, algumas informações levantadas por esse grupo mostram que por aqui aconteciam fatos muito parecidos e que os militares no regime também estenderam suas garras sobre empresários considerados de oposição.

 

Foi o caso do fechamento da companhia aérea Panair, cujo processo está sendo reaberto pela CNV. Tem também o outro lado: dos empresários que colaboraram com as torturas e desaparecimentos.

 

Sempre achei que essa história de “ditabranda” no Brasil se deve ao fato de que não conhecemos a verdade, não porque tenham sido torturadas, mortas e desaparecidas menos vítimas do que na Argentina ou no Chile. Como se vê pelo trabalho da Comissão da Verdade, foi só começar a revirar o passado para aparecer fatos antes desconhecidos.

 

Espero que no fim, o número de vítimas da ditadura brasileira não supere a dos vizinhos. É o tipo de “liderança” que eu, como cidadã, vou me envergonhar de ter.

 

A foto acima, que mostra David Graiver, peguei emprestada do meu amigo Ariel Palácios em seu excelente blog no Estadão.

 

Não perca a edição nº 8 da Revista Samuel, que traz um dossiê sobre a crise europeia.

Consumo

A volta do escambo

terça-feira, 19 de março de 2013

 

Se tudo o que você quer é fazer fotos, para quê comprar um novo “gadget”? Arrume um usado em bom estado e troque por algo que você não usa mais. Isso se chama consumo colaborativo que a cada dia ganha mais adeptos e investidores pelo mundo.

 

Apoie a imprensa independente. Assine a revista Samuel.

 

A tecnologia é o novo motor dessa forma de “comércio” que vem dos primórdios da humanidade. Sites especializados estão aparecendo na internet para colocar em contato as pessoas e seus objetos de troca ou compra e venda. É o que conta uma matéria da revista eletrônica Periodismo Humano, leia aqui o original em espanhol.

 

Livros, CDs, video games, móveis, tudo se pode trocar e plataformas como DescolAí e Buscalá formam redes que hoje já têm centenas de milhares de pessoas conectadas por todo o país.

 

Serviços sem fins de lucro e baseados na solidariedade também têm crescido exponencialmente. Nessa matéria do site Grist, um americano conta sua experiência com os sites Airbnb e Couchsurfing que trazem ofertas de vagas para hospedagem. Também se pode “alugar um amigo” (no bom sentido) para conhecer outra cidade no Rent a Local Friend.

 

Algumas experiências são até mais radicais, como uma feira na França em que você simplesmente pega o que quer, como contou a editora da Samuel, Lamia Oualalou, neste post do blog Dolce Vita.

 

A Grist vem publicando várias matérias sobre economia colaborativa e no dia 29 de Janeiro publicou uma entrevista com o empresário Neal Gorenflo, que largou um belo emprego num banco de investimentos para tocar um negócio com esse perfil. Gorenflo criou e mantém o site Shareable.net que promove todas as formas de economia colaborativa, ensinando como encontrar redes dos mais diversos produtos e serviços, de automóveis a recicladores de resíduos, em toda parte. Leia aqui a entrevista no original em inglês.

 

Também a Yes Magazine produziu um bom retrato do tema (leia aqui). O curioso é que ela floresce na pátria do capitalismo, do consumismo sem freios e o lucro máximo. É que muita coisa mudou depois da crise financeira internacional.

 

Tomar emprestado também é uma forma de consumir sem ter que gastar rios de dinheiro com coisas que se usa apenas uma ou duas vezes, ou que exige despesas de manutenção. O melhor exemplo são os carros e bicicletas. O sistema de compartilhamento de bicicletas é um sucesso no Rio de Janeiro e o de carros começa a se expandir em São Paulo.

 

A foto acima é da galeria Dorena-WM.

 

PARCEIROS