Macro

Perigosa dependência

terça-feira, 10 de setembro de 2013

 

 

 

O economista argentino Raul Prebisch (1901-1986) foi um ícone do pensamento desenvolvimentista. Primeiro presidente da Comissão Econômica Para América Latina (Cepal), ele alertou os governos da região para a dependência dos países da periferia aos países centrais e como essa relação alimentava o subdesenvolvimento e a miséria. Um artigo publicado sábado na revista eletrônica Diálogos do Sul (leia aqui), de autoria de Alicia Bárcena e Antonio Prado, retomam o legado de Prebisch.

 

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Relembrar Prebisch ajuda a refletir sobre o momento atual. O economista argentino inspirou muitos intelectuais de esquerda nos anos 60, mas parece que seus ensinamentos foram esquecidos pelos políticos de esquerda, muitos dos quais ocuparam o poder na região nos últimos 20 anos, inclusive no Brasil.

 

Os países em desenvolvimento como Brasil, Argentina, Chile, México, Índia e Rússia, se beneficiaram fortemente nos últimos anos com as exportações de matérias primas – mais conhecidas como “commodities” – para a China, o maior comprador destes produtos no mundo. Os preços recordes para milho, soja, carne, café, petróleo e metais (como cobre e alumínio) encheram o caixa com divisas internacionais. Porém, ao mesmo tempo criaram uma forte dependência daqueles países com a China. Agora que o gigante asiático está revisando sua estratégia de crescimento, essa dependência acende o sinal amarelo.

 

Em uma reportagem publicada na revista eletrônica do Ipea, a Desafios do Desenvolvimento (clique aqui para ler), o economista Renato Baumann das Neves, diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte) do Ipea, lembra que as exportações para a China, que em 2001 respondiam por 3,2% do total das vendas brasileiras ao exterior e por 0,34% do PIB nacional, em 2011 passaram a representar, respectivamente, 17% e 1,8%. Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil.

 

É claro que 17% não é dependência (outros países compram os 83% restantes). O que espanta é o peso de um único “cliente”, a expansão em tão pouco tempo e o fato de que as matérias primas e produtos básicos respondem por quase 70% das exportações brasileiras. Segundo a matéria da Desafios do Desenvolvimento, os vizinhos Chile e Peru estão em uma situação ainda mais preocupante que o Brasil.

 

Dependência nunca foi saudável, em qualquer situação ou relação, seja entre pessoas, empresas ou países. Mas quando se trata de uma ditadura então, é de arrepiar. Empresários e economistas de várias correntes vêm alertando o governo brasileiro há muito tempo para a dependência de matérias primas e o pouco esforço feito pela área econômica para reverter um processo de desindustrialização que se reflete no desempenho da balança comercial.

 

A principal característica das commodities é sua volatilidade. Hoje estão em alta, já passaram por fortes baixas e nada garante que amanhã seguem assim. Se o Brasil não revisar essa relação, amanhã pode ter sérios problemas.

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