América Latina

Quando Golias esmaga Davi

segunda-feira, 24 de julho de 2017

 

Sempre aparece gente defendendo que o Brasil abandone o Mercosul com seus sócios “pobres e problemáticos” e se associe aos ricos União Europeia e Estados Unidos. O México é um bom exemplo de que isso pode ser uma roubada. Vinte anos depois de um acordo comercial com os ricos EUA e Canadá, os mexicanos só perderam.

 

 

 

 

 

Em 1º de Janeiro, o Nafta – sigla em inglês para acordo de livre comércio da América do Norte – completou duas décadas em vigor e o saldo, como se pode ler nessa matéria do site IPS é bastante favorável…para os americanos e canadenses.

 

Antes do acordo, o México produzia trens, tratores e outros bens industriais. Depois dele, toda a sua indústria foi dizimada, assim como os pequenos e médios negócios.

 

A promessa era de que a indústria americana iria se instalar no vizinho mais pobre e gerar milhares de empregos. O que foi instalado foi uma centena de “maquiladoras”, empresas que só montam produtos vindos em kits, não acrescentam nada em tecnologia ao país e pagam salários de miséria.

 

A produção de milho do México foi praticamente destruída e o país passou a importar o produto in natura e industrializado todo dos EUA. Só lembrando que o milho é não só o alimento básico dos mexicanos, é um produto quase sagrado para eles.

 

A economia mexicana seria supostamente fortalecida nesse acordo. Quando chegou a crise internacional de 2008, o que aconteceu? O PIB do México encolheu mais de 6%, afundando junto com os americanos. O pequeno – previsivelmente – esmagado pelo gigante.

 

E pensar que nos anos 90 o Brasil quase entrou para a Alca, uma proposta do governo Clinton para ampliar o Nafta para toda a América Latina.

 

 

 

O tema relações internacionais já está sendo debatido no âmbito da campanha eleitoral, da pior maneira possível, cheio de preconceito, arrogância e ignorância.

 

Recentemente foram anunciados alguns nomes de especialistas que vão bolar o plano de governo do PSDB, que será apresentado ao público durante a campanha.

 

O ex-embaixador Rubens Barbosa – um dos convidados a ajudar o programa do partido de oposição – e que também é consultor da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), tem posições claras contra o Mercosul e a favor de um estreitamento das relações internacionais do Brasil com Estados Unidos e Europa.

 

No entanto, nem mesmo entre os tucanos existe consenso sobre esse tema. Esses dias ouvi uma entrevista do ex-presidente do BNDES no governo FHC, Luiz Carlos Mendonça de Barros. Embora ele também seja contra o Mercosul, falou da decepção que foi o Nafta para o México e de supostas soluções neoliberais desse tipo. Ouça aqui.

 

Paralelamente (e não por acaso), circulam artigos na imprensa defendendo a adesão do Brasil a tratados regionais do tipo Transpacífico – que reúne México, Peru, Colômbia e Chile – ou com a União Europeia a toque de caixa e a qualquer preço, como se os europeus estivessem fazendo um favor na associação com o Mercosul – sobre isso, leia Jorge Marchini em seu artigo para a Carta Maior.

 

A mídia ajuda na campanha, levantando só os pontos negativos dos sócios do Mercosul – especialmente Argentina e Venezuela – “esquecendo” ou “omitindo” outros aspectos. É um discurso que bate de frente com os fatos.

 

O Mercosul tem sido o maior cliente dos  manufaturados brasileiros – leia-se, produtos com maior valor agregado. Números bastante detalhados foram apresentados em um artigo do ex-chanceler Antonio Patriota, hoje chefe da missão brasileira na ONU, para a revista eletrônica Interesse Nacional.

 

O ex-chanceler mostra que de 2008 a 2012, enquanto o comércio global cresceu 13%, de US$ 16 trilhões para US$ 18 trilhões, a corrente de comércio entre os membros do Mercosul cresceu mais de 20%, passando de US$ 40 bilhões para US$ 48 bilhões.

 

Cerca de 90% das exportações brasileiras para os demais países do bloco são de manufaturados. Para a União Europeia, para a China e para os Estados Unidos, os percentuais de manufaturados são de 36%, 5,75% e 50%, respectivamente.

 

Assim, o Mercosul é o mais importante mercado externo para a indústria brasileira. Essa mesma, que quer cortar os laços.

 

A primeira foto acima é do Changhua Coast Conservation Action. A segunda é do site Commondreams e mostra protesto de estudantes mexicanos contra a Monsanto.

 

 

 

Perigosa dependência

segunda-feira, 24 de julho de 2017

 

 

 

O economista argentino Raul Prebisch (1901-1986) foi um ícone do pensamento desenvolvimentista. Primeiro presidente da Comissão Econômica Para América Latina (Cepal), ele alertou os governos da região para a dependência dos países da periferia aos países centrais e como essa relação alimentava o subdesenvolvimento e a miséria. Um artigo publicado sábado na revista eletrônica Diálogos do Sul (leia aqui), de autoria de Alicia Bárcena e Antonio Prado, retomam o legado de Prebisch.

 

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Relembrar Prebisch ajuda a refletir sobre o momento atual. O economista argentino inspirou muitos intelectuais de esquerda nos anos 60, mas parece que seus ensinamentos foram esquecidos pelos políticos de esquerda, muitos dos quais ocuparam o poder na região nos últimos 20 anos, inclusive no Brasil.

 

Os países em desenvolvimento como Brasil, Argentina, Chile, México, Índia e Rússia, se beneficiaram fortemente nos últimos anos com as exportações de matérias primas – mais conhecidas como “commodities” – para a China, o maior comprador destes produtos no mundo. Os preços recordes para milho, soja, carne, café, petróleo e metais (como cobre e alumínio) encheram o caixa com divisas internacionais. Porém, ao mesmo tempo criaram uma forte dependência daqueles países com a China. Agora que o gigante asiático está revisando sua estratégia de crescimento, essa dependência acende o sinal amarelo.

 

Em uma reportagem publicada na revista eletrônica do Ipea, a Desafios do Desenvolvimento (clique aqui para ler), o economista Renato Baumann das Neves, diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte) do Ipea, lembra que as exportações para a China, que em 2001 respondiam por 3,2% do total das vendas brasileiras ao exterior e por 0,34% do PIB nacional, em 2011 passaram a representar, respectivamente, 17% e 1,8%. Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil.

 

É claro que 17% não é dependência (outros países compram os 83% restantes). O que espanta é o peso de um único “cliente”, a expansão em tão pouco tempo e o fato de que as matérias primas e produtos básicos respondem por quase 70% das exportações brasileiras. Segundo a matéria da Desafios do Desenvolvimento, os vizinhos Chile e Peru estão em uma situação ainda mais preocupante que o Brasil.

 

Dependência nunca foi saudável, em qualquer situação ou relação, seja entre pessoas, empresas ou países. Mas quando se trata de uma ditadura então, é de arrepiar. Empresários e economistas de várias correntes vêm alertando o governo brasileiro há muito tempo para a dependência de matérias primas e o pouco esforço feito pela área econômica para reverter um processo de desindustrialização que se reflete no desempenho da balança comercial.

 

A principal característica das commodities é sua volatilidade. Hoje estão em alta, já passaram por fortes baixas e nada garante que amanhã seguem assim. Se o Brasil não revisar essa relação, amanhã pode ter sérios problemas.

Terra estrangeira

segunda-feira, 24 de julho de 2017

 

 

Sem muito alarde, grandes extensões de terras agrícolas nos países em desenvolvimento na América Latina e na África estão passando às mãos de estrangeiros. O fenômeno, também conhecido como “land grab” foi tema de uma ampla e muito bem feita matéria da Revista Unesp Ciência (leia aqui o texto original).

 

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A corrida do capital internacional para realizar grandes aquisições de terras tem como alvo os países pobres ou em desenvolvimento da Ásia, da América Latina e, principalmente, da África. Os compradores são geralmente grandes empresas transnacionais dedicadas á produção de commodities (como milho e soja) para exportação, exploração de recursos minerais e florestais.

 

O grande mercado para toda essa produção é a China, como se pode ler na matéria “La tierrita de los Orientales”, publicada no site Rebelión.

 

Assunto que pouco atrai o interesse do público, o avanço estrangeiro sobre as terras rurais está chamando a atenção de organizações internacionais ligadas à segurança alimentar por colocar decisões estratégicas de produção de alimentos nas mãos de poucas empresas cujo único foco é o lucro.

 

Além da polêmica questão da propriedade e da soberania sobre os recursos naturais, o fenômeno traz outros efeitos negativos. Concentração da produção, contaminação da água e da terra pelo abuso de agrotóxicos, baixos índices de arrecadação tributária, expulsão de pequenos produtores e desemprego são alguns dos problemas causados pela transferência de grandes extensões de terra aos estrangeiros.

 

De acordo com a reportagem da Unesp Ciência, 1% dos imóveis rurais no Brasil detem 45% da superfície e o mesmo caminho está seguindo a África. O curioso é que no caso africano, os estrangeiros que estão tomando conta são…brasileiros.

 

Um estudo da organização sem fins lucrativos Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agro-Biotecnológicas (ISAAA na sigla em inglês), que foi base para a matéria do Rebelión,  apontou ainda o elevado uso de sementes transgênicas na produção agrícola de 28 países analisados, dos quais 20 deles são periféricos.

 

A foto acima é do site Geograph.

 

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