Comércio

Quando Golias esmaga Davi

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

 

Sempre aparece gente defendendo que o Brasil abandone o Mercosul com seus sócios “pobres e problemáticos” e se associe aos ricos União Europeia e Estados Unidos. O México é um bom exemplo de que isso pode ser uma roubada. Vinte anos depois de um acordo comercial com os ricos EUA e Canadá, os mexicanos só perderam.

 

 

 

 

 

Em 1º de Janeiro, o Nafta – sigla em inglês para acordo de livre comércio da América do Norte – completou duas décadas em vigor e o saldo, como se pode ler nessa matéria do site IPS é bastante favorável…para os americanos e canadenses.

 

Antes do acordo, o México produzia trens, tratores e outros bens industriais. Depois dele, toda a sua indústria foi dizimada, assim como os pequenos e médios negócios.

 

A promessa era de que a indústria americana iria se instalar no vizinho mais pobre e gerar milhares de empregos. O que foi instalado foi uma centena de “maquiladoras”, empresas que só montam produtos vindos em kits, não acrescentam nada em tecnologia ao país e pagam salários de miséria.

 

A produção de milho do México foi praticamente destruída e o país passou a importar o produto in natura e industrializado todo dos EUA. Só lembrando que o milho é não só o alimento básico dos mexicanos, é um produto quase sagrado para eles.

 

A economia mexicana seria supostamente fortalecida nesse acordo. Quando chegou a crise internacional de 2008, o que aconteceu? O PIB do México encolheu mais de 6%, afundando junto com os americanos. O pequeno – previsivelmente – esmagado pelo gigante.

 

E pensar que nos anos 90 o Brasil quase entrou para a Alca, uma proposta do governo Clinton para ampliar o Nafta para toda a América Latina.

 

 

 

O tema relações internacionais já está sendo debatido no âmbito da campanha eleitoral, da pior maneira possível, cheio de preconceito, arrogância e ignorância.

 

Recentemente foram anunciados alguns nomes de especialistas que vão bolar o plano de governo do PSDB, que será apresentado ao público durante a campanha.

 

O ex-embaixador Rubens Barbosa – um dos convidados a ajudar o programa do partido de oposição – e que também é consultor da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), tem posições claras contra o Mercosul e a favor de um estreitamento das relações internacionais do Brasil com Estados Unidos e Europa.

 

No entanto, nem mesmo entre os tucanos existe consenso sobre esse tema. Esses dias ouvi uma entrevista do ex-presidente do BNDES no governo FHC, Luiz Carlos Mendonça de Barros. Embora ele também seja contra o Mercosul, falou da decepção que foi o Nafta para o México e de supostas soluções neoliberais desse tipo. Ouça aqui.

 

Paralelamente (e não por acaso), circulam artigos na imprensa defendendo a adesão do Brasil a tratados regionais do tipo Transpacífico – que reúne México, Peru, Colômbia e Chile – ou com a União Europeia a toque de caixa e a qualquer preço, como se os europeus estivessem fazendo um favor na associação com o Mercosul – sobre isso, leia Jorge Marchini em seu artigo para a Carta Maior.

 

A mídia ajuda na campanha, levantando só os pontos negativos dos sócios do Mercosul – especialmente Argentina e Venezuela – “esquecendo” ou “omitindo” outros aspectos. É um discurso que bate de frente com os fatos.

 

O Mercosul tem sido o maior cliente dos  manufaturados brasileiros – leia-se, produtos com maior valor agregado. Números bastante detalhados foram apresentados em um artigo do ex-chanceler Antonio Patriota, hoje chefe da missão brasileira na ONU, para a revista eletrônica Interesse Nacional.

 

O ex-chanceler mostra que de 2008 a 2012, enquanto o comércio global cresceu 13%, de US$ 16 trilhões para US$ 18 trilhões, a corrente de comércio entre os membros do Mercosul cresceu mais de 20%, passando de US$ 40 bilhões para US$ 48 bilhões.

 

Cerca de 90% das exportações brasileiras para os demais países do bloco são de manufaturados. Para a União Europeia, para a China e para os Estados Unidos, os percentuais de manufaturados são de 36%, 5,75% e 50%, respectivamente.

 

Assim, o Mercosul é o mais importante mercado externo para a indústria brasileira. Essa mesma, que quer cortar os laços.

 

A primeira foto acima é do Changhua Coast Conservation Action. A segunda é do site Commondreams e mostra protesto de estudantes mexicanos contra a Monsanto.

 

 

 

A volta do escambo

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

 

Se tudo o que você quer é fazer fotos, para quê comprar um novo “gadget”? Arrume um usado em bom estado e troque por algo que você não usa mais. Isso se chama consumo colaborativo que a cada dia ganha mais adeptos e investidores pelo mundo.

 

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A tecnologia é o novo motor dessa forma de “comércio” que vem dos primórdios da humanidade. Sites especializados estão aparecendo na internet para colocar em contato as pessoas e seus objetos de troca ou compra e venda. É o que conta uma matéria da revista eletrônica Periodismo Humano, leia aqui o original em espanhol.

 

Livros, CDs, video games, móveis, tudo se pode trocar e plataformas como DescolAí e Buscalá formam redes que hoje já têm centenas de milhares de pessoas conectadas por todo o país.

 

Serviços sem fins de lucro e baseados na solidariedade também têm crescido exponencialmente. Nessa matéria do site Grist, um americano conta sua experiência com os sites Airbnb e Couchsurfing que trazem ofertas de vagas para hospedagem. Também se pode “alugar um amigo” (no bom sentido) para conhecer outra cidade no Rent a Local Friend.

 

Algumas experiências são até mais radicais, como uma feira na França em que você simplesmente pega o que quer, como contou a editora da Samuel, Lamia Oualalou, neste post do blog Dolce Vita.

 

A Grist vem publicando várias matérias sobre economia colaborativa e no dia 29 de Janeiro publicou uma entrevista com o empresário Neal Gorenflo, que largou um belo emprego num banco de investimentos para tocar um negócio com esse perfil. Gorenflo criou e mantém o site Shareable.net que promove todas as formas de economia colaborativa, ensinando como encontrar redes dos mais diversos produtos e serviços, de automóveis a recicladores de resíduos, em toda parte. Leia aqui a entrevista no original em inglês.

 

Também a Yes Magazine produziu um bom retrato do tema (leia aqui). O curioso é que ela floresce na pátria do capitalismo, do consumismo sem freios e o lucro máximo. É que muita coisa mudou depois da crise financeira internacional.

 

Tomar emprestado também é uma forma de consumir sem ter que gastar rios de dinheiro com coisas que se usa apenas uma ou duas vezes, ou que exige despesas de manutenção. O melhor exemplo são os carros e bicicletas. O sistema de compartilhamento de bicicletas é um sucesso no Rio de Janeiro e o de carros começa a se expandir em São Paulo.

 

A foto acima é da galeria Dorena-WM.

 

Livre comércio? Não, obrigado

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Até poucos anos atrás, o livre comércio entre as nações era ferrenhamente defendido pelos países ricos. Os discursos, proferidos em fóruns, na mídia e em reuniões da Organização Mundial do Comércio (OMC) com representantes de mais de 190 países, davam a entender que todo mundo queria o livre comércio, só tinham que chegar a um acordo – que nunca chegava.

Europeus, americanos e japoneses diziam que os países emergentes deviam abrir seus mercados, derrubar barreiras alfandegárias, aumentar suas importações. Para os países mais pobres, o livre comércio era a solução para que enriquecessem.

Agora o discurso virou do avesso. “UE se protege das economias emergentes” é o título de uma matéria do site IBSA News bem esclarecedora sobre o assunto. Desde a crise financeira internacional, desatada em 2007, empresários, governos e trabalhadores europeus pedem medidas protecionistas e barreiras contra o livre comércio, especialmente contra países emergentes como Brasil, Coreia do Sul, China e Índia.

O Brasil, depois de duas décadas de abertura dos portos que destruiu algumas indústrias antes importantes no país (como a de brinquedos e a têxtil) – embora tenha tido inúmeras vantagens – acabou entendendo o jogo. E nos últimos anos impôs barreiras a determinados produtos em uma tentativa legítima de proteger empresas que investem e empregam no país.

“Os governos europeus dominados pela ‘troika’ – Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI – deliberadamente decidiram retrair seu mercado interno para gerar excedentes exportáveis. É pelas exportações que pretendem sair da crise”, explica o economista José Carlos de Assis, professor de Economia Internacional da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB),  neste artigo divulgado pelo site do jornalista Luis Nassif, no qual rebate as críticas que o governo Dilma vem recebendo por se posicionar na defesa do mercado brasileiro.

 

 

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