Empreiteiras

Ética só no marketing

terça-feira, 24 de outubro de 2017

 

 

 

 

Em março vai fazer um ano que a Polícia e a Justiça arrombaram a porta da corrupção na Petrobras, desvendando um montante de negócios ilícitos inimaginável, no qual estavam envolvidas as maiores empreiteiras do país. Não que corrupção em estatais por empreiteiras seja novidade. A novidade é que dessa vez corruptos e corruptores foram presos graças à Lei 12.846, aprovada em 2013. Também graças à independência e eficiência da Polícia Federal, resultado de um trabalho corajoso e pouco reconhecido do ex-ministro Marcio Thomaz Bastos, falecido recentemente.

 

A Justiça centrou suas investigações no período 2004-2012, mas os delatores já declararam que roubavam há muito mais tempo, alguns desde os tempos da Ditadura. Isso faz pensar que o que foi encontrado até agora é apenas a ponta de um iceberg. Se vasculhar mais na Petrobras e em outras estatais muito mais virá à tona.

 

Parecia que estávamos num mar de corrupção, em um tipo maligno de “parcerias” público-privadas. Mas em novembro, logo após o segundo turno da campanha presidencial de 2014, o empresário paulista Ricardo Semler assinou um artigo no jornal Folha de São Paulo com o ousado título “Nunca se roubou tão pouco”. Ali ele lançou uma surpreendente denúncia.

 

Presidente do Conselho e sócio majoritário da Semco Partners, companhia fundada por seu pai, originalmente dedicada à fabricação de centrífugas para óleos, Semler contava naquele texto que sua empresa havia desistido de negociar com a Petrobras nos anos 1970.

 

“Era impossível vender diretamente (para a Petrobras) sem propina”, dizia o empresário, acrescentando que não há ninguém no mundo dos negócios que não tenha conhecimento desse fato, bem como os 86 mil funcionários da empresa, honrados que não participam nem ganham nada com a roubalheira.

 

A surpresa, entretanto, estava em outro trecho do artigo de Semler: “O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propinas para o diretor de compras”.

 

 

Poster Addis Abiba, Ethiopia, 2005/Ann Porteus/Flicker

 

 

 

Toda vez que surge um novo caso de corrupção, maior que o anterior, tem início o mesmo discurso sobre a culpa dos políticos. Porém, as empresas privadas estão em dívida com a sociedade brasileira na questão ética. O elevado naipe dos executivos de construtoras presos na Operação Lava-Jato, comprova que a corrupção é sistematicamente alimentada por empresas privadas.

 

“Qual a contribuição para o mundo de uma empresa com lideranças corruptas?” questiona Luiz Antônio Gaulia, jornalista, professor, consultor em comunicação empresarial em um excelente artigo intitulado “A insustentável hipocrisia dos corruptos”, publicado originalmente no site Plurale e reproduzido pelo Envolverde.

 

O irônico da história – para não dizer trágico -, lembra Gaulia, é que muitas dessas grandes empresas que hoje estão com seus líderes presos por corrupção, vendem uma imagem de ética, transparência e honestidade como valores da companhia. Muitas expõem os supostos valores em murais e painéis coloridos na recepção de suas sedes, frases como “Honestidade de Propósitos; “Ética e Transparência” e “Atuação Responsável” ao lado de lemas bonitos como “Responsabilidade Social Corporativa” e “Desenvolvimento Sustentável”.

 

Quem quiser se informar melhor sobre a (falta de) ética nas empresas privadas vai encontrar um manancial no Blog da Governança, do Renato Chaves. Mestre em Ciências Contábeis pela UFRJ, conselheiro fiscal e de administração em várias empresas e profissional certificado de investimentos em fundos de pensão, Renato é um dos pouquíssimos no Brasil a manter uma posição crítica e independente sobre questões do mercado de capitais. No post “Código de ética: o abismo entre o discurso e a prática”, por exemplo, ele questiona empresas e executivos supostamente sérios da área de bebidas. Infelizmente, nem sempre ele revela nomes porque corre o risco de ser processado.

 

 

 

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