Exportações

O que vem por aí

sábado, 19 de agosto de 2017

 

 

Terá chegado ao fim o modelo econômico implantado no Brasil pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003?

 

É a pergunta que deve estar na mente de quase todo mundo – quem votou e quem não votou por essa administração – depois que fomos apresentados à equipe econômica do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff. Ela prometeu, durante a campanha eleitoral, manter o modelo, mas a equipe da área econômica que ela nomeou para o segundo mandato levanta sérias dúvidas sobre a manutenção das diretrizes, dado o perfil dos ministros, mais afinados com as demandas do mercado do que da área social.

 

Em um artigo publicado no site Carta Maior, o economista J. Carlos Assis conta um caso que dá uma boa noção de como pensa e age Joaquim Levy, o novo ministro da Fazenda. O caso foi relatado a ele por Luís Pinguelli Rosa, nos idos de 2003 e 2004, quando este era presidente da Eletrobrás:

 

“Pinguelli estava determinado, por razões essencialmente técnicas, a construir a segunda etapa de Tucuruí. Tinha os estudos e todo o dinheiro necessário. Joaquim Levy, então secretário do Tesouro, o procurou e tentou convencê-lo muito cortesmente, por todos os meios, a abandonar o projeto. Certamente queria o dinheiro para fazer superávit primário dentro da política de (Antonio) Palocci (primeiro ministro da Fazenda do primeiro mandato de Lula). Pinguelli resistiu, a obra começou e afinal o potencial de Tucuruí foi duplicado. Se isso não tivesse acontecido, estaríamos hoje em risco de racionamento. E a situação fiscal não seria diferente de hoje”.

 

Vale a pena ler a análise completa de Assis sobre as perspectivas com a nova equipe. Cético, o jornalista Luis Nassif acha que a dupla Levy e Nelson Barbosa (novo ministro do Planejamento) “traz um componente novo de segurança fiscal em relação ao período Guido Mantega-Arno Augustin” cuja gestão ele classificou de “desastrosa”.

 

Em um artigo de seu jornal virtual GGN, Nassif lembra que os elementos do discurso de Levy e Barbosa podem ser positivos enquanto sinalização, porém devem ser vistos apenas como pontapé inicial. Se as medidas de ajuste fiscal anunciadas não forem seguidas de reformas e outras medidas de fundo – principalmente a redução da taxa de juros -, “significará a recriação de uma nova zona de conforto para a especulação”.

 

O jornalista Mario Osava colocou a questão sobre o que vem pela frente para alguns analistas em uma matéria disponível no site Envolverde. Um dos entrevistados, Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais (Ibase), disse que o modelo econômico adotado pelos governos Lula e Dilma está sob risco em razão da queda dos preços dos produtos primários, mais conhecidos como “commodities” (principalmente minério de ferro, petróleo, soja e milho). Item mais importante da pauta de exportações brasileiras, as “commodities” garantiram um farto caixa para o governo até pelo menos 2010.

 

“Agora”, disse Grzybowski, “o crescimento econômico com exportações de produtos primários para financiar políticas sociais ficou insustentável porque os preços (desses bens) caíram”.  Para Grzybowski, o modelo econômico do governo PT entrou em um “beco sem saída”, já que não existem soluções alternativas e o resto do mundo – principalmente a China, nosso maior “cliente” de “commodities” – está em franca desaceleração.

 

Para J. Carlos Assis, a margem de manobra do novo governo é realmente pequena e “cortar” – gastos e investimentos – será inevitável. O que se espera é prudência e bom senso nesse corte.

 

Para quebrar a “vibe” cético-pessimista, outro entrevistado da matéria do Envolverde/IPS, o economista Mauro Osório, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pondera que, longe de desanimador, o cenário econômico brasileiro poderá ser bastante favorável, apesar dos desequilíbrios atuais e do remédio recessivo anunciado.

 

Osório lembra que o petróleo ainda é uma grande oportunidade, em que pese a queda dos preços internacionais – na verdade, como a Petrobras mais importa do que exporta, a baixa do petróleo no exterior é uma excelente notícia para a empresa, se bem aproveitada, usando a renda do produto para o desenvolvimento, como fizeram os noruegueses. A política de conteúdo nacional nos equipamentos adquiridos pela Petrobras e as demais empresas que atuam na exploração do pré-sal deve ser, não só mantida, como defendida, porque pode impulsionar a indústria naval e tecnologias necessárias inclusive em outras atividades, acrescentou o economista.

 

A foto acima é de Kevin Doole/Flicker.

 

Perigosa dependência

sábado, 19 de agosto de 2017

 

 

 

O economista argentino Raul Prebisch (1901-1986) foi um ícone do pensamento desenvolvimentista. Primeiro presidente da Comissão Econômica Para América Latina (Cepal), ele alertou os governos da região para a dependência dos países da periferia aos países centrais e como essa relação alimentava o subdesenvolvimento e a miséria. Um artigo publicado sábado na revista eletrônica Diálogos do Sul (leia aqui), de autoria de Alicia Bárcena e Antonio Prado, retomam o legado de Prebisch.

 

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Relembrar Prebisch ajuda a refletir sobre o momento atual. O economista argentino inspirou muitos intelectuais de esquerda nos anos 60, mas parece que seus ensinamentos foram esquecidos pelos políticos de esquerda, muitos dos quais ocuparam o poder na região nos últimos 20 anos, inclusive no Brasil.

 

Os países em desenvolvimento como Brasil, Argentina, Chile, México, Índia e Rússia, se beneficiaram fortemente nos últimos anos com as exportações de matérias primas – mais conhecidas como “commodities” – para a China, o maior comprador destes produtos no mundo. Os preços recordes para milho, soja, carne, café, petróleo e metais (como cobre e alumínio) encheram o caixa com divisas internacionais. Porém, ao mesmo tempo criaram uma forte dependência daqueles países com a China. Agora que o gigante asiático está revisando sua estratégia de crescimento, essa dependência acende o sinal amarelo.

 

Em uma reportagem publicada na revista eletrônica do Ipea, a Desafios do Desenvolvimento (clique aqui para ler), o economista Renato Baumann das Neves, diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte) do Ipea, lembra que as exportações para a China, que em 2001 respondiam por 3,2% do total das vendas brasileiras ao exterior e por 0,34% do PIB nacional, em 2011 passaram a representar, respectivamente, 17% e 1,8%. Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil.

 

É claro que 17% não é dependência (outros países compram os 83% restantes). O que espanta é o peso de um único “cliente”, a expansão em tão pouco tempo e o fato de que as matérias primas e produtos básicos respondem por quase 70% das exportações brasileiras. Segundo a matéria da Desafios do Desenvolvimento, os vizinhos Chile e Peru estão em uma situação ainda mais preocupante que o Brasil.

 

Dependência nunca foi saudável, em qualquer situação ou relação, seja entre pessoas, empresas ou países. Mas quando se trata de uma ditadura então, é de arrepiar. Empresários e economistas de várias correntes vêm alertando o governo brasileiro há muito tempo para a dependência de matérias primas e o pouco esforço feito pela área econômica para reverter um processo de desindustrialização que se reflete no desempenho da balança comercial.

 

A principal característica das commodities é sua volatilidade. Hoje estão em alta, já passaram por fortes baixas e nada garante que amanhã seguem assim. Se o Brasil não revisar essa relação, amanhã pode ter sérios problemas.

Geração de saldos e buracos

sábado, 19 de agosto de 2017

 

 

O Plano Nacional de Mineração do governo federal pretende triplicar a exploração mineral do país até 2030. E pode multiplicar por cinco a atual produção, distribuída por cerca 3,4 mil minas, como mostra uma matéria publicada na revista Brasil de Fato.

 

Não só no Brasil, mas em toda a América Latina, a mineração tem sido uma das grandes apostas dos governos para gerar receitas de exportação e, com isso, financiar o desenvolvimento econômico e social.

 

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Porém, essa é uma aposta duvidosa, disse o geógrafo americano e diretor do curso de pós graduação de Geografia da Universidade de Clark (EUA), Anthony Bebbington, que questiona a relação custo-benefício da mineração.

 

É certo que gera muito dinheiro, mas a mineração tem um impacto ambiental enorme e pouco retorno em termos sociais. Ao contrário, em muitos casos a atividade desloca comunidades inteiras, produz muitos conflitos e poucos empregos.

 

De acordo com uma matéria do jornal UN Periodico, publicação ligada à Universidade Nacional da Colômbia (leia aqui o original em espanhol), Bebbington – que esteve no país convidado para um seminário em Bogotá, disse que depois de sete anos pesquisando a atividade mineradora na região, hoje se pergunta se ela realmente contribui com o desenvolvimento. Ou se, ao contrário, aumenta os conflitos, a degradação e a desigualdade.

 

A matéria do jornal colombiano traça um panorama da situação na Colômbia, Peru, Bolívia, Equador e El Salvador, países que têm grande dependência da exploração mineral para seu desenvolvimento. Mas o Brasil não é muito diferente. Segundo a matéria da revista Brasil de Fato, a mineração respondeu, em 2011, por 18% da pauta de exportações do país, com mais de US$ 40 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

 

O grande mercado para nossos minérios (e dos países vizinhos) é a China.

 

Mas se de um lado, os minérios ajudam a fechar as contas externas do país, de outro, a participação na produção de riqueza nacional ainda é tímida, não alcança 4% do Produto Interno Bruto (PIB). O número de empregos gerados, cerca de 160 mil diretos, também é muito pequeno se comparado a outros setores da economia.

 

“Aumento do número de remoção de populações, geração de grandes buracos. Vale dizer, a exploração de um produto mineral requer uma movimentação gigantesca de milhões de toneladas de rejeitos”, lembrou à Brasil de Fato o advogado Guilherme Zagallo, da rede social Justiça nos Trilhos.

A foto acima é do site Mineração & Suprimentos.

Livre comércio? Não, obrigado

sábado, 19 de agosto de 2017

Até poucos anos atrás, o livre comércio entre as nações era ferrenhamente defendido pelos países ricos. Os discursos, proferidos em fóruns, na mídia e em reuniões da Organização Mundial do Comércio (OMC) com representantes de mais de 190 países, davam a entender que todo mundo queria o livre comércio, só tinham que chegar a um acordo – que nunca chegava.

Europeus, americanos e japoneses diziam que os países emergentes deviam abrir seus mercados, derrubar barreiras alfandegárias, aumentar suas importações. Para os países mais pobres, o livre comércio era a solução para que enriquecessem.

Agora o discurso virou do avesso. “UE se protege das economias emergentes” é o título de uma matéria do site IBSA News bem esclarecedora sobre o assunto. Desde a crise financeira internacional, desatada em 2007, empresários, governos e trabalhadores europeus pedem medidas protecionistas e barreiras contra o livre comércio, especialmente contra países emergentes como Brasil, Coreia do Sul, China e Índia.

O Brasil, depois de duas décadas de abertura dos portos que destruiu algumas indústrias antes importantes no país (como a de brinquedos e a têxtil) – embora tenha tido inúmeras vantagens – acabou entendendo o jogo. E nos últimos anos impôs barreiras a determinados produtos em uma tentativa legítima de proteger empresas que investem e empregam no país.

“Os governos europeus dominados pela ‘troika’ – Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI – deliberadamente decidiram retrair seu mercado interno para gerar excedentes exportáveis. É pelas exportações que pretendem sair da crise”, explica o economista José Carlos de Assis, professor de Economia Internacional da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB),  neste artigo divulgado pelo site do jornalista Luis Nassif, no qual rebate as críticas que o governo Dilma vem recebendo por se posicionar na defesa do mercado brasileiro.

 

 

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