Livros

Sabe com quem está falando?

segunda-feira, 26 de junho de 2017

 

 

 

 

O escritor Luiz Ruffato (foto) está tomando porrada de todos os lados por ter feito um discurso crítico da sociedade brasileira – não de nenhum governo – durante a Feira do Livro de Frankfurt. Foi o que ele contou à agência Deutsche Welle em entrevista divulgada nesta sexta-feira (leia a entrevista completa aqui).

 

Encarregado de ser o porta-voz dos escritores brasileiros na feira, Ruffato fez um discurso-denúncia sobre as precariedade da situação do escritor no Brasil e também sobre as mazelas de nossa vida social, cultural, política e econômica, dadas as desigualdades e o autoritarismo tradicionais na história brasileira, segundo relato do site Carta Maior.

 

Houve melhoras nos últimos anos em termos de distribuição de renda, afirmou, mas elas ainda não permitem dizer que o país superou todos estes problemas, bem longe disso. Segundo o Carta Maior, ele foi muito aplaudido ao final.

 

No início do ano, fiz uma entrevista com Ruffato que considerei importante relatar para mostrar a coerência deste escritor. A entrevista foi sobre uma antologia que ele organizou, de contos reunindo o melhor da literatura brasileira – Machado de Assis, João Ubaldo Ribeiro, Érico Veríssimo, Otto Lara Rezende, entre muitos outros. O título da obra é: “Sabe com quem está falando?”.

 

Não preciso dizer muito, todos os brasileiros conhecem bem essa história.

 

“Sabe com quem está falando” (Editora Língua Geral, 2012) traz contos incríveis, casos engraçadíssimos, e se fosse só pela qualidade da literatura já valeria a pena ler. Mas não é. É também pela denúncia que estes mestres da literatura fizeram – alguns há mais de um século – e que Ruffato invocou neste livro: a corrupção e a malandragem que dão o tom das relações no Brasil, não só na política.

 

A entrevista foi para a edição 10 da revista Etco, uma publicação do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial – aberta para leitura, clique aqui para acessar a revista. Nela, Ruffato fala dos motivos que o levaram a fazer esse trabalho, contribuir com a leitura crítica e a reflexão especialmente dos jovens, de uma forma que já havia feito em outros trabalhos anteriores.

 

Ele começa a entrevista lembrando do pouco tempo que temos de democracia continuada. “Sempre me incomoda muito quando se fala sobre a política no Brasil de uma maneira desdenhosa, primeiro, porque temos muito pouca experiência ainda com o exercício da política, com a democracia. Então, é até injusto você querer que o Brasil tenha uma democracia transparente e maravilhosa sendo que são apenas 27 anos. Isso não é nada!”

 

Quando perguntei a ele se achava que faltava uma compreensão maior da sociedade, Ruffato disse que era isso, mas mais que isso. “É não compreender o processo histórico”.

 

Ruffato frisou não estar sugerindo que estivesse tudo bem e o povo reclama por reclamar. Ao contrário. “Nós temos um exercício da política podre no Brasil. Mas, estamos aprendendo”. Ele disse que uma das coisas que o incomoda é que “a gente fica falando ‘ah, política no Brasil é uma sujeira…” sem pensar nisso dentro de um contexto histórico’. Mas o que mais o incomodava é que “nós, no Brasil, temos sempre uma expressão em que nós não nos colocamos no problema. Então, a corrupção é sempre uma coisa do outro, nunca é nossa! Simplesmente falamos assim “ah, a corrupção em Brasília”, a “corrupção no Palácio dos Bandeirantes”. Nunca é nossa a corrupção.

 

Em Frankfurt, Ruffato teve a oportunidade de ampliar a reflexão, agora desde um palco mundial. Mas como disse um dia Caetano Veloso – que hoje quer a censura prévia das biografias – “Narciso acha feio o que não é espelho”. Por isso Ruffato está apanhando.

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