Mercado

Ética só no marketing

terça-feira, 28 de março de 2017

 

 

 

 

Em março vai fazer um ano que a Polícia e a Justiça arrombaram a porta da corrupção na Petrobras, desvendando um montante de negócios ilícitos inimaginável, no qual estavam envolvidas as maiores empreiteiras do país. Não que corrupção em estatais por empreiteiras seja novidade. A novidade é que dessa vez corruptos e corruptores foram presos graças à Lei 12.846, aprovada em 2013. Também graças à independência e eficiência da Polícia Federal, resultado de um trabalho corajoso e pouco reconhecido do ex-ministro Marcio Thomaz Bastos, falecido recentemente.

 

A Justiça centrou suas investigações no período 2004-2012, mas os delatores já declararam que roubavam há muito mais tempo, alguns desde os tempos da Ditadura. Isso faz pensar que o que foi encontrado até agora é apenas a ponta de um iceberg. Se vasculhar mais na Petrobras e em outras estatais muito mais virá à tona.

 

Parecia que estávamos num mar de corrupção, em um tipo maligno de “parcerias” público-privadas. Mas em novembro, logo após o segundo turno da campanha presidencial de 2014, o empresário paulista Ricardo Semler assinou um artigo no jornal Folha de São Paulo com o ousado título “Nunca se roubou tão pouco”. Ali ele lançou uma surpreendente denúncia.

 

Presidente do Conselho e sócio majoritário da Semco Partners, companhia fundada por seu pai, originalmente dedicada à fabricação de centrífugas para óleos, Semler contava naquele texto que sua empresa havia desistido de negociar com a Petrobras nos anos 1970.

 

“Era impossível vender diretamente (para a Petrobras) sem propina”, dizia o empresário, acrescentando que não há ninguém no mundo dos negócios que não tenha conhecimento desse fato, bem como os 86 mil funcionários da empresa, honrados que não participam nem ganham nada com a roubalheira.

 

A surpresa, entretanto, estava em outro trecho do artigo de Semler: “O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propinas para o diretor de compras”.

 

 

Poster Addis Abiba, Ethiopia, 2005/Ann Porteus/Flicker

 

 

 

Toda vez que surge um novo caso de corrupção, maior que o anterior, tem início o mesmo discurso sobre a culpa dos políticos. Porém, as empresas privadas estão em dívida com a sociedade brasileira na questão ética. O elevado naipe dos executivos de construtoras presos na Operação Lava-Jato, comprova que a corrupção é sistematicamente alimentada por empresas privadas.

 

“Qual a contribuição para o mundo de uma empresa com lideranças corruptas?” questiona Luiz Antônio Gaulia, jornalista, professor, consultor em comunicação empresarial em um excelente artigo intitulado “A insustentável hipocrisia dos corruptos”, publicado originalmente no site Plurale e reproduzido pelo Envolverde.

 

O irônico da história – para não dizer trágico -, lembra Gaulia, é que muitas dessas grandes empresas que hoje estão com seus líderes presos por corrupção, vendem uma imagem de ética, transparência e honestidade como valores da companhia. Muitas expõem os supostos valores em murais e painéis coloridos na recepção de suas sedes, frases como “Honestidade de Propósitos; “Ética e Transparência” e “Atuação Responsável” ao lado de lemas bonitos como “Responsabilidade Social Corporativa” e “Desenvolvimento Sustentável”.

 

Quem quiser se informar melhor sobre a (falta de) ética nas empresas privadas vai encontrar um manancial no Blog da Governança, do Renato Chaves. Mestre em Ciências Contábeis pela UFRJ, conselheiro fiscal e de administração em várias empresas e profissional certificado de investimentos em fundos de pensão, Renato é um dos pouquíssimos no Brasil a manter uma posição crítica e independente sobre questões do mercado de capitais. No post “Código de ética: o abismo entre o discurso e a prática”, por exemplo, ele questiona empresas e executivos supostamente sérios da área de bebidas. Infelizmente, nem sempre ele revela nomes porque corre o risco de ser processado.

 

 

 

A volta do escambo

terça-feira, 28 de março de 2017

 

Se tudo o que você quer é fazer fotos, para quê comprar um novo “gadget”? Arrume um usado em bom estado e troque por algo que você não usa mais. Isso se chama consumo colaborativo que a cada dia ganha mais adeptos e investidores pelo mundo.

 

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A tecnologia é o novo motor dessa forma de “comércio” que vem dos primórdios da humanidade. Sites especializados estão aparecendo na internet para colocar em contato as pessoas e seus objetos de troca ou compra e venda. É o que conta uma matéria da revista eletrônica Periodismo Humano, leia aqui o original em espanhol.

 

Livros, CDs, video games, móveis, tudo se pode trocar e plataformas como DescolAí e Buscalá formam redes que hoje já têm centenas de milhares de pessoas conectadas por todo o país.

 

Serviços sem fins de lucro e baseados na solidariedade também têm crescido exponencialmente. Nessa matéria do site Grist, um americano conta sua experiência com os sites Airbnb e Couchsurfing que trazem ofertas de vagas para hospedagem. Também se pode “alugar um amigo” (no bom sentido) para conhecer outra cidade no Rent a Local Friend.

 

Algumas experiências são até mais radicais, como uma feira na França em que você simplesmente pega o que quer, como contou a editora da Samuel, Lamia Oualalou, neste post do blog Dolce Vita.

 

A Grist vem publicando várias matérias sobre economia colaborativa e no dia 29 de Janeiro publicou uma entrevista com o empresário Neal Gorenflo, que largou um belo emprego num banco de investimentos para tocar um negócio com esse perfil. Gorenflo criou e mantém o site Shareable.net que promove todas as formas de economia colaborativa, ensinando como encontrar redes dos mais diversos produtos e serviços, de automóveis a recicladores de resíduos, em toda parte. Leia aqui a entrevista no original em inglês.

 

Também a Yes Magazine produziu um bom retrato do tema (leia aqui). O curioso é que ela floresce na pátria do capitalismo, do consumismo sem freios e o lucro máximo. É que muita coisa mudou depois da crise financeira internacional.

 

Tomar emprestado também é uma forma de consumir sem ter que gastar rios de dinheiro com coisas que se usa apenas uma ou duas vezes, ou que exige despesas de manutenção. O melhor exemplo são os carros e bicicletas. O sistema de compartilhamento de bicicletas é um sucesso no Rio de Janeiro e o de carros começa a se expandir em São Paulo.

 

A foto acima é da galeria Dorena-WM.

 

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