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sábado, 25 de março de 2017

 

 

Terá chegado ao fim o modelo econômico implantado no Brasil pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003?

 

É a pergunta que deve estar na mente de quase todo mundo – quem votou e quem não votou por essa administração – depois que fomos apresentados à equipe econômica do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff. Ela prometeu, durante a campanha eleitoral, manter o modelo, mas a equipe da área econômica que ela nomeou para o segundo mandato levanta sérias dúvidas sobre a manutenção das diretrizes, dado o perfil dos ministros, mais afinados com as demandas do mercado do que da área social.

 

Em um artigo publicado no site Carta Maior, o economista J. Carlos Assis conta um caso que dá uma boa noção de como pensa e age Joaquim Levy, o novo ministro da Fazenda. O caso foi relatado a ele por Luís Pinguelli Rosa, nos idos de 2003 e 2004, quando este era presidente da Eletrobrás:

 

“Pinguelli estava determinado, por razões essencialmente técnicas, a construir a segunda etapa de Tucuruí. Tinha os estudos e todo o dinheiro necessário. Joaquim Levy, então secretário do Tesouro, o procurou e tentou convencê-lo muito cortesmente, por todos os meios, a abandonar o projeto. Certamente queria o dinheiro para fazer superávit primário dentro da política de (Antonio) Palocci (primeiro ministro da Fazenda do primeiro mandato de Lula). Pinguelli resistiu, a obra começou e afinal o potencial de Tucuruí foi duplicado. Se isso não tivesse acontecido, estaríamos hoje em risco de racionamento. E a situação fiscal não seria diferente de hoje”.

 

Vale a pena ler a análise completa de Assis sobre as perspectivas com a nova equipe. Cético, o jornalista Luis Nassif acha que a dupla Levy e Nelson Barbosa (novo ministro do Planejamento) “traz um componente novo de segurança fiscal em relação ao período Guido Mantega-Arno Augustin” cuja gestão ele classificou de “desastrosa”.

 

Em um artigo de seu jornal virtual GGN, Nassif lembra que os elementos do discurso de Levy e Barbosa podem ser positivos enquanto sinalização, porém devem ser vistos apenas como pontapé inicial. Se as medidas de ajuste fiscal anunciadas não forem seguidas de reformas e outras medidas de fundo – principalmente a redução da taxa de juros -, “significará a recriação de uma nova zona de conforto para a especulação”.

 

O jornalista Mario Osava colocou a questão sobre o que vem pela frente para alguns analistas em uma matéria disponível no site Envolverde. Um dos entrevistados, Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais (Ibase), disse que o modelo econômico adotado pelos governos Lula e Dilma está sob risco em razão da queda dos preços dos produtos primários, mais conhecidos como “commodities” (principalmente minério de ferro, petróleo, soja e milho). Item mais importante da pauta de exportações brasileiras, as “commodities” garantiram um farto caixa para o governo até pelo menos 2010.

 

“Agora”, disse Grzybowski, “o crescimento econômico com exportações de produtos primários para financiar políticas sociais ficou insustentável porque os preços (desses bens) caíram”.  Para Grzybowski, o modelo econômico do governo PT entrou em um “beco sem saída”, já que não existem soluções alternativas e o resto do mundo – principalmente a China, nosso maior “cliente” de “commodities” – está em franca desaceleração.

 

Para J. Carlos Assis, a margem de manobra do novo governo é realmente pequena e “cortar” – gastos e investimentos – será inevitável. O que se espera é prudência e bom senso nesse corte.

 

Para quebrar a “vibe” cético-pessimista, outro entrevistado da matéria do Envolverde/IPS, o economista Mauro Osório, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pondera que, longe de desanimador, o cenário econômico brasileiro poderá ser bastante favorável, apesar dos desequilíbrios atuais e do remédio recessivo anunciado.

 

Osório lembra que o petróleo ainda é uma grande oportunidade, em que pese a queda dos preços internacionais – na verdade, como a Petrobras mais importa do que exporta, a baixa do petróleo no exterior é uma excelente notícia para a empresa, se bem aproveitada, usando a renda do produto para o desenvolvimento, como fizeram os noruegueses. A política de conteúdo nacional nos equipamentos adquiridos pela Petrobras e as demais empresas que atuam na exploração do pré-sal deve ser, não só mantida, como defendida, porque pode impulsionar a indústria naval e tecnologias necessárias inclusive em outras atividades, acrescentou o economista.

 

A foto acima é de Kevin Doole/Flicker.

 

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