Nafta

Quando Golias esmaga Davi

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

 

Sempre aparece gente defendendo que o Brasil abandone o Mercosul com seus sócios “pobres e problemáticos” e se associe aos ricos União Europeia e Estados Unidos. O México é um bom exemplo de que isso pode ser uma roubada. Vinte anos depois de um acordo comercial com os ricos EUA e Canadá, os mexicanos só perderam.

 

 

 

 

 

Em 1º de Janeiro, o Nafta – sigla em inglês para acordo de livre comércio da América do Norte – completou duas décadas em vigor e o saldo, como se pode ler nessa matéria do site IPS é bastante favorável…para os americanos e canadenses.

 

Antes do acordo, o México produzia trens, tratores e outros bens industriais. Depois dele, toda a sua indústria foi dizimada, assim como os pequenos e médios negócios.

 

A promessa era de que a indústria americana iria se instalar no vizinho mais pobre e gerar milhares de empregos. O que foi instalado foi uma centena de “maquiladoras”, empresas que só montam produtos vindos em kits, não acrescentam nada em tecnologia ao país e pagam salários de miséria.

 

A produção de milho do México foi praticamente destruída e o país passou a importar o produto in natura e industrializado todo dos EUA. Só lembrando que o milho é não só o alimento básico dos mexicanos, é um produto quase sagrado para eles.

 

A economia mexicana seria supostamente fortalecida nesse acordo. Quando chegou a crise internacional de 2008, o que aconteceu? O PIB do México encolheu mais de 6%, afundando junto com os americanos. O pequeno – previsivelmente – esmagado pelo gigante.

 

E pensar que nos anos 90 o Brasil quase entrou para a Alca, uma proposta do governo Clinton para ampliar o Nafta para toda a América Latina.

 

 

 

O tema relações internacionais já está sendo debatido no âmbito da campanha eleitoral, da pior maneira possível, cheio de preconceito, arrogância e ignorância.

 

Recentemente foram anunciados alguns nomes de especialistas que vão bolar o plano de governo do PSDB, que será apresentado ao público durante a campanha.

 

O ex-embaixador Rubens Barbosa – um dos convidados a ajudar o programa do partido de oposição – e que também é consultor da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), tem posições claras contra o Mercosul e a favor de um estreitamento das relações internacionais do Brasil com Estados Unidos e Europa.

 

No entanto, nem mesmo entre os tucanos existe consenso sobre esse tema. Esses dias ouvi uma entrevista do ex-presidente do BNDES no governo FHC, Luiz Carlos Mendonça de Barros. Embora ele também seja contra o Mercosul, falou da decepção que foi o Nafta para o México e de supostas soluções neoliberais desse tipo. Ouça aqui.

 

Paralelamente (e não por acaso), circulam artigos na imprensa defendendo a adesão do Brasil a tratados regionais do tipo Transpacífico – que reúne México, Peru, Colômbia e Chile – ou com a União Europeia a toque de caixa e a qualquer preço, como se os europeus estivessem fazendo um favor na associação com o Mercosul – sobre isso, leia Jorge Marchini em seu artigo para a Carta Maior.

 

A mídia ajuda na campanha, levantando só os pontos negativos dos sócios do Mercosul – especialmente Argentina e Venezuela – “esquecendo” ou “omitindo” outros aspectos. É um discurso que bate de frente com os fatos.

 

O Mercosul tem sido o maior cliente dos  manufaturados brasileiros – leia-se, produtos com maior valor agregado. Números bastante detalhados foram apresentados em um artigo do ex-chanceler Antonio Patriota, hoje chefe da missão brasileira na ONU, para a revista eletrônica Interesse Nacional.

 

O ex-chanceler mostra que de 2008 a 2012, enquanto o comércio global cresceu 13%, de US$ 16 trilhões para US$ 18 trilhões, a corrente de comércio entre os membros do Mercosul cresceu mais de 20%, passando de US$ 40 bilhões para US$ 48 bilhões.

 

Cerca de 90% das exportações brasileiras para os demais países do bloco são de manufaturados. Para a União Europeia, para a China e para os Estados Unidos, os percentuais de manufaturados são de 36%, 5,75% e 50%, respectivamente.

 

Assim, o Mercosul é o mais importante mercado externo para a indústria brasileira. Essa mesma, que quer cortar os laços.

 

A primeira foto acima é do Changhua Coast Conservation Action. A segunda é do site Commondreams e mostra protesto de estudantes mexicanos contra a Monsanto.

 

 

 

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