Papa Francisco

Os novos descartados

domingo, 24 de setembro de 2017

Occupywallstreet.net

 

 

 

Os jovens são os novos descartados da economia. A observação é do Papa Francisco. Ele usou essa expressão em uma entrevista aos jornalistas italianos Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi, divulgada pelo site Vatican Insider e reproduzida em vários jornais pelo mundo. Uma versão em português pode ser lida no site Carta Maior (aqui).

 

A entrevista é parte de um livro que Tornielli e Galeazzi estão lançando, intitulado “Papa Francisco: essa economia mata”. Nela, o Papa critica o que chama de “cultura do descarte” que sustenta o processo de globalização. E defende a construção de uma economia na qual o bem das pessoas, e não o dinheiro, seja o centro.

 

“Quando já não é o homem, senão o dinheiro, o que ocupa o centro do sistema, quando o dinheiro se transforma em um ídolo, os homens e as mulheres são reduzidos a meros instrumentos de um sistema social e econômico caracterizado, e dominado por profundos desequilíbrios. E assim se ‘descarta’ o que não serve a esta lógica: é essa atitude que descarta as crianças e os anciãos, e que agora também afeta os jovens. Impressionou-me saber que, nos países desenvolvidos, existem muitos milhões de jovens menores de 25 anos que não têm trabalho. Às vezes, me pergunto qual será o próximo descarte”.

 

As estatísticas dão razão a Jorge Bergoglio.

 

Foto do site No Amazonas É Assim (http://noamazonaseassim.com)

 

De acordo com o último informe do Escritório de Estatísticas Europeu (Eurostat) divulgado em 7 de janeiro, o desemprego atinge 24,423 milhões de pessoas na Europa, dois quais 5,1 milhões são jovens com menos de 25 anos. A situação é mais dramática na Espanha onde mais da metade (53,5%) dos desempregados estão nessa faixa de idade, depois vem a Grécia (49,8%). Na França, 10,7% dos desempregados são jovens. As menores taxas estão na Alemanha (7,4%), Áustria (9,4%) e Holanda (9,7%).

 

Sem emprego e sem perspectivas, os jovens são os mais atingidos pela crise econômica europeia, gestada e parida em 2008 dentro dos mercados financeiros americano e europeu. O esforço dos governos para salvar os bancos – causadores do desastre – levou à lona as economias em todo mundo, aumentando a pobreza e a desigualdade, principalmente nessa faixa da população.

 

São eles mesmos, os jovens, à frente dos protestos populares – que diminuíram em tamanho, mas seguem por toda parte, por fora da pauta e das manchetes dos jornais, rádios e TVs. São eles que impulsionam o renascimento de movimentos de esquerda (e de direita também) que, por sua vez, lideram a reação aos programas de austeridade impostos pelos governos europeus para renegociar a dívida criada com os programas de salvamento de bancos. Estes movimentos acabam de obter sua primeira conquista, com a vitória do partido Syriza, considerado radical de esquerda, nas eleições de domingo na Grécia.

 

Atentos aos passos do novo governo grego com o Syriza à frente, outros movimentos como o espanhol Podemos e o francês Obras para o futuro, já se mobilizam para rever fundamentos dos programas de austeridade (leia aqui uma boa análise sobre isso no jornal argentino Página 12).

 

Quem sabe o Papa, com a postura de verdadeiro estadista que vem demonstrando desde que tomou o lugar de Bento XVI, poderá ser um apoio para esta nova corrente.

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