Petróleo

O que vem por aí

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

 

 

Terá chegado ao fim o modelo econômico implantado no Brasil pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003?

 

É a pergunta que deve estar na mente de quase todo mundo – quem votou e quem não votou por essa administração – depois que fomos apresentados à equipe econômica do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff. Ela prometeu, durante a campanha eleitoral, manter o modelo, mas a equipe da área econômica que ela nomeou para o segundo mandato levanta sérias dúvidas sobre a manutenção das diretrizes, dado o perfil dos ministros, mais afinados com as demandas do mercado do que da área social.

 

Em um artigo publicado no site Carta Maior, o economista J. Carlos Assis conta um caso que dá uma boa noção de como pensa e age Joaquim Levy, o novo ministro da Fazenda. O caso foi relatado a ele por Luís Pinguelli Rosa, nos idos de 2003 e 2004, quando este era presidente da Eletrobrás:

 

“Pinguelli estava determinado, por razões essencialmente técnicas, a construir a segunda etapa de Tucuruí. Tinha os estudos e todo o dinheiro necessário. Joaquim Levy, então secretário do Tesouro, o procurou e tentou convencê-lo muito cortesmente, por todos os meios, a abandonar o projeto. Certamente queria o dinheiro para fazer superávit primário dentro da política de (Antonio) Palocci (primeiro ministro da Fazenda do primeiro mandato de Lula). Pinguelli resistiu, a obra começou e afinal o potencial de Tucuruí foi duplicado. Se isso não tivesse acontecido, estaríamos hoje em risco de racionamento. E a situação fiscal não seria diferente de hoje”.

 

Vale a pena ler a análise completa de Assis sobre as perspectivas com a nova equipe. Cético, o jornalista Luis Nassif acha que a dupla Levy e Nelson Barbosa (novo ministro do Planejamento) “traz um componente novo de segurança fiscal em relação ao período Guido Mantega-Arno Augustin” cuja gestão ele classificou de “desastrosa”.

 

Em um artigo de seu jornal virtual GGN, Nassif lembra que os elementos do discurso de Levy e Barbosa podem ser positivos enquanto sinalização, porém devem ser vistos apenas como pontapé inicial. Se as medidas de ajuste fiscal anunciadas não forem seguidas de reformas e outras medidas de fundo – principalmente a redução da taxa de juros -, “significará a recriação de uma nova zona de conforto para a especulação”.

 

O jornalista Mario Osava colocou a questão sobre o que vem pela frente para alguns analistas em uma matéria disponível no site Envolverde. Um dos entrevistados, Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais (Ibase), disse que o modelo econômico adotado pelos governos Lula e Dilma está sob risco em razão da queda dos preços dos produtos primários, mais conhecidos como “commodities” (principalmente minério de ferro, petróleo, soja e milho). Item mais importante da pauta de exportações brasileiras, as “commodities” garantiram um farto caixa para o governo até pelo menos 2010.

 

“Agora”, disse Grzybowski, “o crescimento econômico com exportações de produtos primários para financiar políticas sociais ficou insustentável porque os preços (desses bens) caíram”.  Para Grzybowski, o modelo econômico do governo PT entrou em um “beco sem saída”, já que não existem soluções alternativas e o resto do mundo – principalmente a China, nosso maior “cliente” de “commodities” – está em franca desaceleração.

 

Para J. Carlos Assis, a margem de manobra do novo governo é realmente pequena e “cortar” – gastos e investimentos – será inevitável. O que se espera é prudência e bom senso nesse corte.

 

Para quebrar a “vibe” cético-pessimista, outro entrevistado da matéria do Envolverde/IPS, o economista Mauro Osório, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pondera que, longe de desanimador, o cenário econômico brasileiro poderá ser bastante favorável, apesar dos desequilíbrios atuais e do remédio recessivo anunciado.

 

Osório lembra que o petróleo ainda é uma grande oportunidade, em que pese a queda dos preços internacionais – na verdade, como a Petrobras mais importa do que exporta, a baixa do petróleo no exterior é uma excelente notícia para a empresa, se bem aproveitada, usando a renda do produto para o desenvolvimento, como fizeram os noruegueses. A política de conteúdo nacional nos equipamentos adquiridos pela Petrobras e as demais empresas que atuam na exploração do pré-sal deve ser, não só mantida, como defendida, porque pode impulsionar a indústria naval e tecnologias necessárias inclusive em outras atividades, acrescentou o economista.

 

A foto acima é de Kevin Doole/Flicker.

 

Dez a zero contra o planeta

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

 

“A indústria dos combustíveis fósseis venceu”, sentenciou Alden Meyer, diretor de estratégia e política da Union of Concerned Scientists (União dos Cientistas Preocupados, em tradução livre) em uma entrevista à agência internacional Inter Press Service (IPS). durante a 18ª Conferência das Partes (COP 18) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que terminou dia 8 de dezembro em Doha, no Catar.

Quase dá para sentir o tom de derrota e desânimo que tomou conta das delegações que participaram do encontro diante do total fracasso das negociações para se chegar a um acordo em torno da redução das emissões de gases poluentes de forma a reverter o aquecimento global e os efeitos das mudanças climáticas (Leia aqui a cobertura completa da IPS sobre a COP18).

Enquanto o mundo ainda tenta digerir o resultado da reunião de Doha, um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) saiu ontem com dados que mostram a inutilidade destas reuniões e o total descaso do mundo com os efeitos do aquecimento global por conta do uso de combustíveis fósseis.

Segundo a agência EcoD, o relatório da AIE revela que a demanda de carvão continua crescendo em todas as regiões do mundo, exceto nos Estados Unidos, onde o gás natural têm predominado. “O mundo vai queimar cerca de 1,2 bilhões de toneladas de carvão a mais por ano, o equivalente ao atual consumo de carvão da Rússia e dos Estados Unidos juntos”, afirmou a diretora-executiva da organização, Maria van der Hoeven. A China e a Índia vão liderar o consumo desta fonte energética nos próximos cinco anos.

Em uma matéria feita pouco antes da Conferência pela IPS (“Negociações climáticas com os dias contados”), Cliff Polycarp, representante do World Resources Institute (WRI), uma das mais de 700 organizações da sociedade civil que participaram do evento em Doha, disse que a única forma de conter a desabalada carreira do uso de combustíveis fósseis é acabar com os subsídios à exploração desta fonte de energia.

Este ano serão gastos mais de US$ 600 bilhões em prospecções de gás e petróleo e em produção, segundo o estudo “Oil: The Next Revoution” (Petróleo: A Próxima Revolução), da Universidade de Harvard, citado pela IPS (leia aqui o original do estudo em inglês). Esse dinheiro  gasto com subsídios à exploração de petróleo e carvão, sugere Polycarp, poderia ser redirecionado para a produção de energias com baixas emissões de dióxido de carbono. Isso requer a intervenção dos governos que poderiam arrumar dinheiro taxando os combustíveis fósseis.

O executivo da WRI, que vem participando há anos das negociações multilaterais sobre as mudanças climáticas e estava em Doha este mês, acha que quatro quintos das reservas conhecidas de combustíveis fósseis deveriam permanecer debaixo da terra. “Mas continuamos queimando-os como se não houvesse um amanhã”, acrescentou.

A foto acima é do site Cultura Mix.

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A bomba de carbono

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Vazamento de óleo no Golfo do México em 2010: mancha em U (abaixo à direita) captada pelo satélite da NASA

Enquanto parlamentares e os governos federal, estaduais e municipais travam um intenso debate em torno da distribuição do dinheiro dos royalties do petróleo na área do pré sal, pouco se tem discutido sobre a falta de segurança ambiental dessa reserva recém descoberta. O alerta foi dado por Nathalie Rey, conselheira de Políticas Oceânicas do Greenpeace Internacional, em uma entrevista à revista eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos (IHU On-Line).

O petróleo encontrado no fundo do mar, na costa Sudeste brasileira, é considerado a redenção do país em termos energéticos. Mas também pode significar uma verdadeira bomba ambiental capaz de destruir toda a vida submarina no entorno, em caso de acidente.

O pré sal é um reservatório situado a cerca de 300 km da costa, entre os estados do Espírito Santo e Santa Catarina, a quase sete mil metros de profundidade abaixo do nível do mar. As estimativas apontam para um volume de aproximadamente 13 bilhões de barris de óleo equivalente (boe, unidade básica para medir a produção de petróleo e gás) depositados naquelas jazidas, capazes de quase dobrar o volume atual de reservas do Brasil, situado em 15 bilhões de barris.

Nathalie Rey e a assessora de Políticas Públicas do Greenpeace, Renata Camargo, disseram ao IHU On-Line que a organização vê com “bastante preocupação” a exploração do petróleo na camada de pré sal.

Por estar em águas profundas, a biodiversidade marinha está totalmente vulnerável. Nathalie Rey relembra o vazamento no Golfo do México em 2010 (foto) para dar uma noção do impacto ambiental de um acidente com petróleo nesse ecossistema: a morte de barreiras de corais, milhões de peixes, os danos à vegetação e ao homem.

E como foi amplamente explicado em uma excelente matéria da revista Piauí – entitulada “A multiplicação do perigo” (original aqui, porém fechado para assinantes da Piauí) – o Brasil não está preparado para um acidente de grandes proporções como o que atingiu o Golfo do México.

“Os poços do pré sal são mais profundos que os do Golfo, e nós sequer temos Plano Nacional de Contingência para lidar com acidentes na indústria de petróleo e gás”, disseram ao IHU On-Line. “O acidente da Chevron, na Bacia de Campos (no fim de 2011) , foi um alerta de que o país não está pronto para lidar com a exploração do pré sal”.

Vale a pena ler a entrevista completa em que Nathalie e Renata dão ainda um panorama bem detalhado da situação dos oceanos no mundo.

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