Perguntas aos parlamentares e dirigentes petistas

Foto: Lula Marques/Agência PT
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Vale a pena, para negociar espaço nas mesas da Câmara e do Senado, produzir mais confusão, divisão e desânimo na militância?

Faz algum sentido, em um momento no qual o maior problema do PT é de identidade e confiança junto ao povo, aparecer de mãos dadas com lideranças golpistas?

Tem alguma pertinência, diante da onda de ataque moral ao petismo, passar qualquer sinal de que o partido estaria disposto a trocar posições de princípio por migalhas de poder?

Não seria abissal incoerência, depois de tanta autocrítica sobre a excessiva institucionalização do PT, demonstrar que o parlamento continua a ser a chave central da política petista e que a revisão das alianças é da boca para fora?

Para abrir alguns espaços que não permitem qualquer controle sobre a pauta ou as comissões, regimentalmente de caráter presidencial e monocrático, é razoável atuar confundindo as fronteiras políticas, ao contrário de deixá-las cada vez mais definidas?

Há transparência e solidez quando se diz que o debate é sobre participar ou não das mesas, possivelmente para dar explicação palatável ao distinto público e pintar os críticos como empedernidos sectários, mesmo todos sabendo que a disjuntiva real é apoiar ou não uma candidatura golpista, único caminho para conquistar supostos nacos de poder no parlamento?

Quando as fichas políticas estão colocadas na narrativa do golpe, caracterizando o atual governo como usurpador e o processo em curso como de ruptura constitucional, qual a lógica de agir como se estivéssemos em uma situação normal, explicando o tema das mesas diretoras como se não passasse de mera querela parlamentar?

Sempre é mais importante lutar contra o isolamento do que combater por identidade? O PT errou, portanto, quando boicotou o Colégio Eleitoral de 1985? Ou quando votou contra a Constituição de 1988?

O PT teria se construído como alternativa de governo, separada dos partidos democrático-liberais, caso não tivesse boicotado o Colégio Eleitoral de 1985 e votado contra a Constituição de 1988, momentos nos quais, por mais identidade, aceitou cenário de profundo isolamento?

Por que uma decisão de tanta repercussão foi devolvida para as bancadas, ao invés de ser claramente adotada pela máxima direção do PT?

O PT, afinal, é um partido de massas ou uma agremiação parlamentar, como todas as demais, na qual deputados e senadores funcionam com autonomia e soberania sobre relevantes questões da vida política?

Não é um desatino a maioria da direção petista e da bancada, mesmo exercendo seu legítimo direito estatutário, conscientemente jogar o partido em uma guerra interna sobre algo historicamente irrelevante como participar ou não das mesas diretoras?

Não é outro desatino certas vozes da minoria partidária, contrárias a apoiar candidaturas golpistas, tratarem essa polêmica como se fosse a mais transcendental decisão de princípio?

Não há algo estranho quando, no mesmo dia em que centenas de milhares se incorporavam às marchas de mulheres contra Trump ao redor do mundo, um dos principais partidos de esquerda do hemisfério ocidental estivesse discutindo a segunda secretaria da Câmara dos Deputados?

Não é hora do PT reassumir seu papel de vanguarda do povo brasileiro, ao invés de se consumir em debates intermináveis sobre regras internas e manobras parlamentares erráticas?

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Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.