POR QUE O PT BOICOTOU O COLÉGIO ELEITORAL EM 1985?

Célio Azevedo/Wikimedia Commons
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on PinterestShare on LinkedInEmail this to someone

No dia 15 de março de 1985 deveria ter tomado posse o mineiro Tancredo Neves, eleito dois meses antes, de forma indireta, para a Presidência da República. Adoecido, quem assume é seu vice, José Sarney.

A aliança entre o PMDB e a Frente Liberal (formada por dissidentes do regime militar) logrou 72% dos votos no colégio eleitoral reunido em 15 de janeiro, contra 28% de Paulo Maluf, o candidato do PDS, partido da ditadura.

Apenas o PT, entre as agremiações com representação parlamentar, se recusou a participar do processo indireto.

Derrotada a Emenda Dante de Oliveira, em 25 de abril de 1984, praticamente toda a oposição liberal-burguesa abandona a campanha das diretas e começa a negociar um acordo de transição que passasse pelo Colégio Eleitoral.

A maioria das organizações de esquerda, até então clandestinas, subordinadas à hegemonia da fração antiditadura das classes dominantes, paulatinamente também adere à tese do pacto por dentro do sistema montado pelo regime militar.

O PT, ao lado de alguns grupos dissidentes do PMDB e dos demais partidos democráticos, busca manter viva a luta pelas diretas, até o limite do tempo sucessório. Esse movimento, no entanto, é derrotado.

O partido toma, então, a decisão mais importante de sua história: boicotar o Colégio Eleitoral.

O isolamento foi brutal. Tão grave que provocou divisões internas, com três deputados expulsos pela direção nacional por terem anunciado sua intenção de participar das eleições indiretas.

O resto da esquerda caminhara no sentido oposto: votar nas eleições indiretas, aderir ao pacto liderado por Tancredo e Sarney, apoiar o surgimento da Nova República.

O PT, correndo enormes riscos, fez outra aposta: se dissociar completamente da transição conservadora, construir uma oposição frontal ao governo Tancredo-Sarney, estabelecer um caminho independente para a intervenção política da classe trabalhadora.

Era uma ruptura efetiva com a lógica que predominara, até então, no campo popular.

A grosso modo, tanto o PCB quanto o PC do B, além de outros agrupamentos menores, centralizavam sua política pelo objetivo de formar a mais ampla aliança contra a ditadura, na prática abdicando de disputar hegemonia nesse bloco ou fazendo dessa possibilidade uma meta subordinada.

O PT ousou, então, inverter a fórmula dominante, estabelecendo como pedra angular de sua orientação a independência e a hegemonia da classe trabalhadora, não a preservação da frente contra o regime militar a qualquer custo, com qualquer programa e por qualquer caminho.

Se tivesse ido ao Colégio Eleitoral, o destino do PT provavelmente seria o mesmo dos autênticos do PMDB, do PCB e de outras correntes populares: submissão aos liberais, perda de identidade, comprometimento com o novo governo das classes dominantes, incapacidade de comandar e absorver o inevitável afastamento das massas em relação à transição conservadora.

Boicotando o Colégio Eleitoral, o PT criou um caminho autônomo e se colocou em condições de dirigir um novo ciclo histórico da esquerda brasileira, concebendo como protagonista o papel do campo popular.

Isolado a princípio, o PT colheria bons frutos alguns anos depois: como o principal partido de oposição ao governo Sarney, sem qualquer vínculo com as políticas e tramoias do pacto pelo alto, capitalizou a falência da Nova República e construiu uma coalizão de forças capaz de apresentar, com viabilidade, uma alternativa de governo, como ficou provado nas eleições de 1989.

A orientação petista ajudaria a provocar abalos entre os grupos que apoiaram o nascimento da Nova República.

Setores da esquerda se deslocariam da transição conservadora para uma aliança estratégica com o PT, como foi o caso do PCdoB e do PSB.

O PDT de Brizola, embora de forma errática, também se dissociou da transição conservadora e reconquistou espaço nas primeiras eleições presidenciais diretas desde 1961. Apesar do peso histórico de seu líder, no entanto, ficou ilhado no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, sucumbindo à força que o PT e Lula vinham acumulando desde a campanha das diretas.

A verdade é que o processo político decantado em 2002, com a consolidação de uma coligação democrático-popular sob comando da esquerda, somente foi possível pela ousadia de 1985, sem a qual provavelmente jamais teria sido desbravado o caminho que levaria Lula ao Palácio do Planalto.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on PinterestShare on LinkedInEmail this to someone
Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.