De onde vem o perigo do fascismo?

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As agressões contra a caravana do ex-presidente Lula, no sul do país, culminando com um atentado a tiros no Paraná, deram novos contornos ao clima de intolerância que toma conta da nação.

Um par de semanas após o assassinato de Marielle Franco e Anderson Pedro, encabeçando lista de execuções que chega a quase setenta durante o atual governo, os acontecimentos meridionais confirmam a reintrodução da violência planificada como instrumento de luta política.

Ao contrário do último período ditatorial, quando o Estado monopolizava a repressão contra qualquer força rebelde, por meios institucionais ou clandestinos, dessa vez a violência se reapresenta principalmente como fenômeno paramilitar.

Grupos de sicários, vinculados à ultradireita, muitos desses aparentemente recrutados nas fileiras policiais, passam a agir como braço armado do ódio contra as correntes progressistas e democráticas, tentando intimida-las, forçando-as ao recuo na disputa de projetos e classes que divide o país.

Não se trata de novidade histórica. O recurso à violência, adotando-a como ferramenta de hegemonia, é um dos traços típicos do fascismo. Na ascensão de Mussolini e Hitler, por exemplo, o papel dos camisas negras e pardas foi essencial, ao menos em três planos: a atemorização dos adversários, a mobilização de hordas antissistema e a construção de autoridade político-militar.

Essas falanges, no entanto, somente puderam avançar quando as elites e seus partidos tradicionais, incapazes de se unificar e impor uma derrota estratégica à esquerda, as convocaram para o serviço sujo ou lhes abriram passagem, com a expectativa de retorno à normalidade depois de finalizada a missão delegada.

Durante quase três décadas, desde a redemocratização, a franja fascista da sociedade brasileira sentia-se aprisionada e comportava-se de forma constrangida. Suas opiniões reacionárias, racistas e discriminatórias eram motivo de vergonha. Disfarçava-se de algo mais ameno e palatável. A direita se escondia sob diversas máscaras, do liberalismo à socialdemocracia, fugindo de sua identidade secular.

Os seguidos triunfos do petismo sobre o conservadorismo, contudo, foram levando essa coalizão às trevas, adotando discurso que soltava o neofascismo de suas amarras. O cálculo era simples: para bater a esquerda, seria necessária forte mobilização das camadas médias, tarefa para a qual tornava-se imprescindível uma direita militante.

O bolsonarismo não brotou do asfalto ou de eventuais talentos do seu líder. Saiu do armário e ganhou as ruas pelas mãos do PSDB e seus aliados, de parte dos meios de comunicação, de setores do sistema de justiça, de frações das Forças Armadas e de segmentos expressivos do empresariado.

Os seguidores do ex-capitão se constituem na tropa de choque do bloco que tomou o governo de assalto. São a vanguarda mais ativa dos patos e panelas que serviram como banda de música da ruptura constitucional.

Continuam a contar com o silêncio, a cumplicidade e até o estimulo dos partidos de centro, da mídia que lhes é aliada e dos aparatos repressivos que controlam. Não foi por acaso que, em vários dos ataques contra a caravana de Lula, as polícias militares cruzaram os braços ou facilitaram a ação do gangsterismo.

A emergência do neofascismo exige combate firme e unitário, até que seja obrigado a retornar para a jaula da qual foi libertado. Mas essa batalha, fundamental para a reconstrução da democracia brasileira, jamais será vitoriosa se não forem derrotados também aqueles que abriram o cadeado.

Publicado na Folha de S.Paulo em 02 de abril de 2018, página 03

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Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.