UM CERTO PARALELO

Mitterrand
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Reafirmada a via institucional de sua estratégia em 1968, quando se recusa a tentar transitar da greve geral para a insurreição contra o governo De Gaulle, o PCF investe suas forças na construção de uma nova frente popular, tendo os socialistas de François Mitterrand como principal aliado.

Essa política iria ganhar fôlego em 1971, levando à candidatura unitária de Mitterrand nas presidenciais de 1974, incorporando também o apoio do Partido Radical de Esquerda (apesar do nome, expressava a ala mais à direita da social-democracia).

O PCF era muito mais forte que o PS, por sua vez uma agremiação com cabeça sem corpo, que somente poderia ter espaço na política francesa se dois fenômenos confluíssem: o esvaziamento do gaulismo, abrindo caminhos para a disputa do centro, e a renúncia dos comunistas em exercerem papel hegemônico na esquerda.

Mitterrand, uma grande raposa, decidiu fazer uma manobra da esquerda ao centro, buscando alcançar seu objetivo: aceitou um programa avançado que satisfizesse o PCF, associado a uma narrativa de unidade crítica, de tal forma que pudesse garantir autoridade junto à classe trabalhadora e ao seu principal partido, colocando-os sobre seu comando, para então se oferecer, ao centro e ao capital, a OTAN e aos EUA, como a única corrente capaz de impedir que cenários como o de 1968 se repetissem.

Não era uma política sem riscos e tensões: gerava desconfiança e colisão com os setores tradicionais da política burguesa, ao mesmo tempo em que produzia tensões com os comunistas. O líder socialista pendulava, para um lado e para o outro.

Ao contrário de 1974, quando perdeu o pleito para Valéry Giscard d’Estaing, da direitista UDF, com o gaulismo fora do segundo turno, a esquerda se apresentaria dividida em 1981: Miterrand pelos socialistas e George Marchais pelos comunistas.

Durante quase dez anos, porém, o PCF tinha sido sugado pela estratégia dos socialistas, perdera autonomia e oxigênio, em uma situação que se refletiria no resultado eleitoral: enquanto Mitterrand batera nos 25,9% dos votos, Marchais estacionou nos 15,4%, caindo fora do segundo turno, que seria disputado entre o nome do PS e o d’Estaing, então candidato à reeleição.

O PCF, com Jacques Duclos, tinha alcançado 21,27% em 1969, enquanto os socialistas, no mesmo ano, com Gaston Deferre, recolheram míseros 5,01% dos sufrágios.

O fato é que, em 1981, François Mitterrand sagra-se vitorioso, com o apoio dos comunistas no segundo turno. Para alcançar essa união, o socialista novamente aceitou programa bastante progressista, com nacionalizações e fortes políticas distributivas.

Vitorioso, precisava do PCF para ter estabilidade parlamentar. Os comunistas compuseram seu governo, avançando no processo pelo qual se transformavam, pouco a pouco em uma dependência, um apêndice, dos socialistas.

Depois de um ano de governo, Mitterrand dá um cavalo de pau e adota parte da agenda neoliberal impulsionada por Thatcher e Reagan, apresentando-se como uma alternativa modernizadora do capitalismo francês, capaz de, simultaneamente, neutralizar os trabalhadores e impulsionar os negócios da burguesia.

Os comunistas se horrorizam, discordam, conflitam. Mas já tinham virado um trapo político, com influência cadente e subordinados às cotas de poder que os socialistas lhes ofereciam sempre que necessário.

Mitterrand seria reeleito, em 1988, passando à segunda volta com 34% dos votos. O PCF, com André Lajoinie, ficaria com 7%, e novamente apoiaria os socialistas no turno final.

Logo viria o colapso da URSS e os comunistas se veriam transformados em uma corrente quase residual, embora só tenham mudado sua política de alianças na última década, finalmente rompendo com o PS e ajudando a formar a Frente de Esquerda, atualmente dirigida por Melenchon e sua corrente França Insubmissa.

Essa história deveria servir de referência e lição: quando a esquerda cede espaço e liderança à centro-esquerda, quando a classe trabalhadora e seu partido renunciam à hegemonia, em nome de uma política aparentemente ampla, o resultado pode vir a ser uma profunda derrota estratégica e um isolamento inédito.

20 Minutos História – O que foi o Maio de 1968 na França?

Assista o programa apresentado por Breno Altman sobre a mobilização dos estudantes, a participação da classe trabalhadora, a reação do presidente De Gaulle e da direita francesa. A repercussão mundial, a derrota e a herança do Maio de 1968 na França.


 

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Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.