Publicações artesanais ampliam e diversificam mercado editorial cubano

Hoje, há uma intensa troca cultural entre os países, facilitada pela integração da América Latina e as diversas feiras de livro no continente

Longe das modernas tecnologias que obrigam a realização de adaptações no mercado editorial, escritores e editores cubanos encontraram na produção “artesanal” de livros uma forma de aumentar e diversificar as publicações. As chamadas editoras riso, que fazem livro de papelão e outros materiais, cobriram todo o país e permitiram a aparição de novos protagonistas no cenário. “Isso dá oportunidade a outros autores de entrarem na publicação. Sempre tem mais gente querendo publicar do que sendo publicado”, afirma a contista, poeta, ensaista e editora Jamila Medina Ríos.

Vanessa Martina Silva/ Opera Mundi

Soleida Ríos e Jamila Medina Ríos, durante conversa com a reportagem de Opera Mundi

O mercado de livros cubano é concorrido, mas, “como para a maioria dos escritores latino-americanos, não é possível viver da literatura em Cuba. Vivemos da literatura no sentido emocional, moral, mas economicamente não”, afirma a poeta Soleida Ríos. Algumas poesias dela você pode ler aqui (em espanhol).

Ambas as escritoras cubanas participam do Salão do Livro de Guarulhos, que vai até domingo (21/09), e aceitaram conversar com Opera Mundi no hotel em que estão hospedadas em São Paulo.

Todo o processo é estimulado pelo governo. “Em Cuba, há editoras em cada uma das províncias. Além das provinciais, temos editoras nacionais e pequenas que pertencem a associações”, observa Jamila. Outro fator é que “em Cuba o livro é subsidiado. Pagam o direito do autor e promovem o livro em feiras que são realizadas em todo o país, o que faz com que as pessoas estejam sempre em contato com os livros” acrescenta.

Neste vídeo, Jamila fala de sua vida e obra (em espanhol):

O bloqueio econômico que sofre o país há mais de 50 anos por imposição dos Estados Unidos foi um tema recorrente na conversa com as escritoras. Soleida observou que “se há graves restrições econômicas que afetam o país, isso afeta também a publicação de livros, a vida do ser comum, porque atinge os recursos técnicos para operar em todos os setores”. Para a poeta, “somos uma espécie auto-destrutiva e o bloqueio é uma expressão da tendência autodestrutiva que tem o gênero humano, praticada pelos governos”.

Intercâmbio cultural

A situação econômica e de certo isolamento imposto à ilha comunista se reflete nas possibilidades e oportunidades de intercâmbio cultural com outros países da região. “Para nós, existe o limite de que sempre temos que ser convidadas, não podemos eleger por vontade própria [os países e feiras onde queremos estar] porque a situação econômica em Cuba nos impede de pegar um avião com nosso salário”, afirmou Soleida, cuja obra já foi traduzida para o inglês, francês, italiano e português.

Flickr CC/ Jaume Escofet/

Venda de livros em uma praça de Havana - preço dos livros são subsidiados pelo governo cubano

Apesar disso, elas reforçaram a intensa troca cultural que existe entre os países latino-americanos e ressaltaram que o processo de integração da América Latina permitiu um avanço neste sentido, com as diversas feiras de livro que são realizadas no México, Argentina, Equador, Cuba e no Brasil.

Quanto à disseminação no único país latino-americano que fala português, Soleida fez questão de ressaltar o interesse dos cubanos pela cultura brasileira que, garante, “vai muito além do futebol”. “Em Cuba se publicam autores brasileiros. Publicamos antologias de poetas e também os vencedores do Prêmio Casa das Américas, que é uma premiação chave na região e que, em mais de 50 anos de vida, promoveu vários autores brasileiros e de toda a América. Mas ainda não é o suficiente”, reconhece.

Casa das Américas

Criada há 55 anos pelo governo cubano para ser uma instituição cultural de integração sociocultural da América Latina e do Caribe, a Casa das Américas difunde material artístico e literário, promove shows, concursos, festivais, seminários. Entre essas atividades, destaca-se o Prêmio Casa das Américas.

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“Os grandes autores latino-americanos estão lá, registrados em vozes. Me interessa registrar que a Casa é uma instituição muito séria, que sempre teve um bom tino para achar bons escritores”, ressalta Soleida.

Futuro

“Estamos em um momento em que as pessoas já não praticam tanto a palavra escrita, mas isso não significa que vão parar de ler. Pode ser que um dia o livro se torne algo contemplativo. Mas a verdade é que hoje o que vemos é que o livro é, sim, algo importante, porque o contato com o papel te permite prazeres sensoriais que os leitores digitais e tabletes não permitem”. A opinião de Jamila é compartilhada por Soleida.

No vídeo, Soleida fala de seu projeto mais recente: a coleção de sonhos, em fase de publicação (em espanhol):

“O fato é que estão ressurgindo as publicações cartoneras [livros feitos artesanalmente, com capa de papelão], com o uso de objetos naturais como lãs. Isso para mim diz algo, porque surge justamente quando as transnacionais do livro fazem grandes tiragens. E com isso ressurge o prazer. Fazer um livro é algo grandioso”, complementa Soleida, que participa de diversas iniciativas de promoção e estímulo à leitura no país.

Censura e criação

Em um país questionado internacionalmente pela suposta falta de liberdades individuais, as autoras ressaltam que nunca sofreram censura institucional. “Às vezes a pessoa pode achar que é muito livre. Isso é o que eu busco. A liberdade é interior e isso ninguém te dá. O que busco com minha obra é afiançar a liberdade”, diz Soleida. 

A arte cubana tampouco é somente social. Jamila conta que escreve “sobre coisas que quero fazer e ainda não fiz. E com a escrita resolvo isso. Faço poemas de amor e falo sobre a morte. Este é um tema que me impacta porque me interessa a vida, como me interessam também as viagens, mesmo as pequenas, até a esquina, mas as paisagens, as pessoas que se vê pelo caminho”.

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