Chile está acordando de um sono de 40 anos, diz cineasta Miguel Littin
Uma marmota que despertou de um sono de 40 anos. Essa é a visão do cineasta Miguel Littin sobre a atual conjuntura política no Chile. "As manifestações que estão acontecendo no país é o que houve de mais importante no Chile neste século e no anterior".
Quando se pensa em cinema chileno contemporâneo, é comum concluir que, cada vez mais, muitos realizadores optam por abordar em suas obras o espinhoso tema da ditadura do general Augusto Pinochet – uma das mais sangrentas e duradouras da América Latina. Disso, filmes dos reconhecidos Andrés Wood (“Machuca”, “Violeta”) e Pablo Larraín (“Post Mortem”) são exemplos claros da última década.

O veterano cineasta Miguel Littín, cujo filme mais recente – “Dawson Ilha 10” (2009), sobre a ilha onde o ditador chileno instalou um campo concentração para ex-ministros e funcionários do governo Allende – estreia dia 25 de novembro em cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, descorda da teoria. “O cinema chileno nunca abandonou sua linha”, ressalta o realizador do clássico “O chacal de Nahueltoro” (1970), lembrando que no cinema de seu país sempre esteve presente a recuperação da memória.
Quem tem a palavra é o diretor de “Acta general de Chile” (1986), filme realizado durante a ditadura, sob condições improváveis: Littín, exilado, se disfarçou para voltar ao Chile e filmar a repressão militar nas ruas de todo o país – incluindo cenas filmadas no Palácio de La Moneda, perto do gabinete de Pinochet. A experiência, inclusive, virou tema de um livro-reportagem do colombiano Gabriel García Márquez, que escreveu nos anos 80 “A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile”.
Sobre cinema, memória e política no Chile, Miguel Littín falou com exclusividade ao Opera Mundi. Confira a entrevista.
Como surgiu a ideia para fazer “Dawson Ilha 10”?
Esse é um filme que trata de temas que sempre dão voltas ao meu redor. Fazem parte da história do país e da minha, pessoal. Quando li “Ilha 10”, livro em que Sergio Bittar conta sua experiência como prisioneiro de Dawson e no qual se baseia o filme, fui cativado pela serenidade do relato e pela sobriedade com a qual se aborda um fato tão dramático como a existência de um campo de concentração ao qual o governo de Pinochet enviava presos políticos. Decidi investigar mais, visitar a ilha algumas vezes e, assim, nasceu “Dawson”.
Muitos filmes chilenos recentes têm explorado o tema da ditadura. A que você atribui essa reconstrução da memória através do cinema, que acontece no Chile como já aconteceu na Argentina, por exemplo?
Não se trata de uma corrente de hoje. O cinema chileno nunca perdeu a sua linha. Dos anos 60 em diante, a recuperação da memória sempre esteve presente nos filmes realizados no Chile. Felizmente, é uma tradição que se renova com realizadores como Andrés Wood e Pablo Larraín, mais ligados à ficção, documentais como “I love Pinochet” [2003], de Marcela Said, e outros exemplos.
A seu ver, que momento vive atualmente a sociedade chilena?
É como se estivesse despertando do sono de 40 anos de uma marmota. As manifestações que estão acontecendo no país é o que houve de mais importante no Chile neste século e no anterior. Não é apenas um movimento de jovens. A juventude nas ruas, apoiada por seus avós, pais, professores e cidadãos em geral, recebeu informação que foi passada de geração em geração e não reclamam só por eles, mas exigem o fim do Chile como paraíso do neoliberalismo. Ao lutar contra a educação privatizada, dizem: “Não queremos a educação de Pinochet”. Estão, na verdade, abrindo uma grande panela de repressão social e exigindo a transição não só das formas, o que lentamente se deu, mas também dos conteúdos herdados da ditadura.
Você já observa uma influência das manifestações no que se produz artisticamente e culturalmente no país?
Nesse momento, é mais interessante pensar o contrário: que influência há da arte nessas manifestações. E há muita. Nas ruas, as pessoas reivindicam Pablo Neruda, são criativas, se reinventam. Trataram no passado de formar uma geração de esquecidos, mas isso não aconteceu. A informação foi passada adiante, e a memória está viva. As duas coisas vão acontecer – arte nas ruas e as ruas na arte –, mas o que vejo agora é essa força criativa.
Como se deu a coprodução com o Brasil para a realização de “Dawson Ilha 10”?
Essa é a primeira coprodução que faço com o Brasil. Fui convidado a um seminário de cinema na Bahia [Cine Futuro - Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual] e lá conheci o Walter Lima, produtor do filme. Conversamos bastante sobre ideias e sentimentos comuns, e o acordo se deu, entre confiança e sedução. Considero esse modelo de produção uma saída importante que o cinema de conteúdo da América Latina tem para crescer e lutar contra filmes feitos só com fins de lucro. Não é compreensível que não exista um intercâmbio cultural que seria natural dentro de um mesmo continente.
O filme foi indicado ao Goya, pré-candidato estrangeiro ao Oscar e premiado no Festival de Roma. Que importância têm esses reconhecimentos, em sua opinião?
Um filme, como tudo o que faço, é algo para oferecer aos outros. Há dois lados dos prêmios, e o lado pessoal eu refuto totalmente. O aspecto importante é que eles servem para que o filme chegue ao público. Em Roma, por exemplo, “Dawson” foi aplaudido de pé pelos espectadores durante 15 minutos. Isso, sim, foi muito gratificante. Os festivais se converteram no refúgio do cinema de autor. Quando alguns diretores latino-americanos fizeram seus filmes nos anos 60 e 70, como foi meu caso com “O chacal de Nahueltoro”, não se pensava em festivais. Para nós, o mundo se projetava a partir da América Latina. Hoje, o momento é outro.
Você já tem um novo projeto cinematográfico em vista?
Sim. É uma ficção sobre a entrada de Salvador Allende no Palácio de la Moneda, com todos as honras institucionais de sua posse, e a saída de seu corpo, às duas da tarde do mesmo dia, coberto por uma manta boliviana. O que aconteceu entre esses dois momentos lá dentro? Será uma coprodução entre Chile, Venezuela, Argentina e talvez o Equador. A combinação de países sul-americanos é perfeita para o tema, porque Allende não é um nome, mas um sentimento que cobre a pele de todos nós. Algo vigente, que se presta a uma nova forma de valores humanos, longe do homem-objeto.
- Às vésperas dos Jogos, Londres “limpa” área do parque olímpico de pobres e indesejados
- Comissão da Verdade chega "atrasada" ao Brasil perante países que tiveram ditaduras
- Dubai se associa à Suíça para construir primeiro hotel submarino do mundo
- Ex-senadora colombiana se voluntaria para mediar resgate de jornalista seqüestrado pelas FARC
- Após derrota eleitoral, Merkel admite negociar pacto fiscal da UE com a oposição
- "Se Grécia não respeita regras, que vá embora", diz presidente da Comissão Europeia
- 64 anos de uma catástrofe chamada Israel
- François Hollande toma posse na França e promete conter crise econômica
- Grécia terá novas eleições em junho para definir futuro econômico do país



