Consumismo faz pessoas lerem sem pensar, diz educadora colombiana

Para Silvia Castrillón, a educação em oito anos de governo Uribe só não foi desastrosa porque era impossível ficar pior do que estava

As estimativas mais recentes da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) sobre a qualidade do ensino na Colômbia indicam que praticamente 100% dos jovens e adultos do país estão alfabetizados e que quase 15% do orçamento do governo é destinado para o aprimoramento de instituições públicas de ensino.

Para muitos brasileiros que ainda lutam para convencer o governo a converter o equivalente a 10% do PIB em recursos para o ensino público, isso seria considerado um grande exemplo a ser seguido. Para a educadora colombiana Silvia Castrillón, contudo, isso não quer dizer absolutamente nada.

Filipe Mauro/Opera Mundi
Um dos nomes mais importantes em políticas públicas de apoio à leitura e à escrita na América Latina, ela revelou ao Opera Mundi que a maioria das estatísticas feitas sobre a educação do continente não demonstram nada além da hegemonia de um modelo produtivista de ensino e leitura.

***

Opera Mundi - Por que há cada vez mais pessoas lendo mais rapidamente quantidades maiores de livros?
Silvia Castrillón -
Essa é uma resposta à sociedade de consumo e de mercado. Trata-se de uma mercantilização do livro, de um consumismo acrítico infelizmente aliado a políticas públicas de leitura. É um modelo social de mercado no qual as palavras acabam sendo cooptadas por um pensamento hegemônico.

Na América Latina, por exemplo, as estatísticas são feitas sobre o número de livros e não mensuradas de acordo com práticas de leitura. O critério acaba sendo o consumo de livros, a quantidade de volumes por habitante e por ano que consome um país.

Com esses números, autoridades pensam que medem a qualidade da educação e do acesso à literatura. Na realidade, o que medem é o consumo, a compra. Nesses questionários a palavra é quase sempre “quanto”. “Quantos livros tem em sua casa?” e “Quantos livros já leu esse ano?”, a literatura se quantifica. São desconsiderados, portanto, fatores como tipo de leitura, qualidade de leitura e sentido de leitura.

OM - O que podemos esperar dos livros em tempos de imediatismo?
SC -
Uma de minhas críticas é justamente que as escolas não oferecem qualquer possibilidade de silêncio e de contemplação. O silêncio é extremamente necessário após a leitura de um poema, por exemplo. É preciso dar tempo para esse diálogo interior. Mas, nas escolas, isso não existe, todas estão lotadas de atividades. Torna-se impossível a meditação ou a introspecção.

Há também muito temor entre os adultos sobre o que as crianças podem estar pensando. Então a mente dos jovens acaba sendo colonizada com a ideia de que não há tempo a perder, de que tempo é ouro. Isso não é nada além de um modelo produtivista.

OM – Você já chegou a afirmar que “não há uma crise da leitura, mas sim uma crise do leitor”. Você ainda acredita nessa tese?
SC -
Eu acredito que agora se lê muito mais. As crianças, por exemplo, leem muito. A maioria já leu toda a série de Harry Potter, que é composta de livros com mais de 400 páginas. Há 20 anos, isso não ocorria.

Tudo isso, contudo, faz parte de uma lógica pragmática e lucrativa. A finalidade é quase sempre a simples informação ou a evasão da realidade. Ou seja, não é mais a leitura em si que está em crise, mas sim o modo de ler. O que eu acredito que perdeu sentido na sociedade é a busca de significação, a possibilidade de indagar-se sobre si mesmo e sobre os que estão a sua volta.

Há dez anos participei de uma mesa redonda com o sociólogo espanhol Gil Calvo, que argumenta que já não lemos mais como destino, mas sim como desocupação, como retiro. De alguma forma, a leitura era antes uma forma de questionar o passado e de construir um futuro individual ou coletivo. Agora não. Agora não se lê mais para saber no que se quer acreditar.

O que há é a leitura de aplicação prática e imediata, necessária para incutir nos jovens as competências de um trabalho pragmático e de uma cidadania acrítica.

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OM - Em países emergentes, fala-se muito em “investir em educação” como forma de sustentar taxas de crescimento econômico. É esse o modelo de ensino que esses novos núcleos de poder geopolítico deveriam trazer consigo?
SC -
 Quando se relaciona educação com desenvolvimento econômico, quase sempre surge o pragmatismo da indústria. Trata-se tanto de um modo de alcançar a competitividade entre indivíduos quanto entre países.

Está na moda dizer que é necessário investir na educação para o desenvolvimento econômico. E não só em países em desenvolvimento como China, Brasil e Índia, mas também em nações pobres, como a Colômbia. O Estado até promove esses recursos, mas sem deixar de convocar o setor privado. E quando o setor privado aplica na educação, surgem investimentos, a meu ver, perversos.

Na Colômbia, por exemplo, o setor privado investe em educação dando bolsas de estudo das universidades mais elitistas do país a jovens mais pobres de melhor qualificação acadêmica. Tiram, assim, possíveis líderes de transformações de suas comunidades. Não sei se o Estado percebe o que isso significa. Não sei o que pode ser mais maquiavélico do que tirar dos setores populares suas maiores inteligências sociais.

OM - Como você vê a educação pública no Brasil?
SC -
 Há uma certa diferença na educação no Brasil e na Colômbia. Creio que aqui há uma maior noção de ensino público. Aqui as universidades não só são públicas como também são boas e gratuitas. Os brasileiros têm ao menos a possibilidade de estudar sem pagar nada.

Na Colômbia, não há nenhuma universidade gratuita. Nem mesmo as públicas. Somos obrigados a pagar matrículas e outras taxas, algo próximo do modelo universitário norte-americano. Trata-se de um nível tão baixo de educação, que não há nada que possamos recuperar. Ainda precisamos tentar construir essa educação pública que não possuímos.

OM – É possível ensinar a uma criança o prazer pela leitura?
SC -
 É muito fácil. É só ter vontade. A maioria dos adultos e dos professores está sempre dizendo que as crianças não gostam de ler e que é necessário entregá-las coisas mais velozes, do mundo do entretenimento. O que ocorre é que eles acabam definindo de antemão quais são os interesses das crianças. Cria-se um determinismo, um preconceito. Isso é renunciar às esperanças no ensino.

As escolas podem parar de falar que tudo está perdido e começar a oferecer uma leitura lúdica e divertida. Creio que quando um professor é um bom leitor, apaixonado pela boa literatura ele é capaz de se colocar como testemunha e não como exemplo. O bom professor tem sensibilidade para ouvir e compartilhar suas experiências com seus alunos.

OM - Quais foram as consequências dos oito anos de governo de Álvaro Uribe para a educação colombiana?
SC -
 Não posso dizer desastroso porque é impossível ser pior do que estava antes. Não houve uma mudança significativa sequer. Na Colômbia, não se pode negar que o acesso às escolas aumentou. Mas, a questão é: entrar na escola para fazer o quê? A educação em meu país ainda é de qualidade muito baixa e segue modelos pragmáticos e utilitaristas. Falam em formar a “autonomia” do aluno, mas isso é, na realidade, formar o egoísmo.

Também não crio muitas expectativas com relação ao governo de Juan Manuel dos Santos. Na realidade, acredito que as mudanças não ocorrem de cima para baixo, mas sim a partir das bases. São os professores em sala de aula, ao lado de organizações sociais, que podem alcançar algumas transformações.

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