Historiadora discute motivação de norte-americanos na II Guerra e revela lado sombrio de libertação da França

Segundo a professora Mary Louise Roberts, militares negros eram responsabilizados injustamente por estupros de francesas

No último dia 6 de junho, o presidente francês, François Hollande, recebeu o presidente norte-americano, Barack Obama, a rainha Elisabeth II e outros líderes mundiais para celebrar os 70 anos do desembarque na Normandia. A maior e mais complexa operação militar já realizada até então permitiu aos Aliados abrir uma frente de batalha na Europa Ocidental e levou à vitória sobre a Alemanha nazista.

“Os soldados que desembarcaram aqui há 70 anos carregavam um sonho. A promessa de um mundo livre da tirania e da guerra. O sonho também de uma sociedade mais justa e mais fraterna”, disse Hollande em seu discurso na praia de Ouistreham. Mas, segundo a historiadora norte-americana Mary Louise Roberts, muitos desses soldados desembarcaram na costa francesa com sonhos bem diferentes.

Em seu livro “What Soldiers Do: Sex and the American GI in World War II France” (O que os soldados fazem: Sexo e os Militares norte-americanos na França durante a Segunda Guerra Mundial, em tradução livre), recentemente traduzido para o francês, ela defende que as Forças Armadas difundiram uma imagem erotizada da França para convencer soldados a participar da campanha da Normandia.

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Professora de História da Universidade de Wisconsin, Mary Louise Roberts examina um dos maiores tabus por trás da libertação da Europa pelos norte-americanos:  os estupros cometidos por militares. Ela toca ainda em outra ferida ao acusar a hierarquia de um Exército profundamente segregado de fazer dos soldados negros bodes expiatórios, a fim de preservar a imagem da corporação. E para isso, afirma ela, os norte-americanos contaram com a cumplicidade das autoridades e da população francesas, com quem dividiam as mesmas ideias pré-concebidas sobre uma suposta violência sexual inata por parte dos negros.

A tese, porém, não é unanimidade na academia. Professor de sociologia e criminologia na Universidade de Northern Kentucky, J. Robert Lilly pondera que ainda faltam evidência para confirmar a hipótese.  

De passagem pela França para participar das gravações de um documentário baseado em seu livro, Mary Louise Roberts concedeu entrevista a Opera Mundi. Leia a seguir os principais trechos.

OM: Como a promessa de aventuras eróticas foi usada pela hierarquia militar para motivar os soldados que iriam participar da campanha da Normandia?
MLR: Não era difícil motivar os soldados a lutar contra os japoneses, porque eles haviam atacado o país e eram vistos como uma raça inferior. Mas na Europa não havia nenhuma dessas motivações. Além disso, os alemães não haviam atacado os EUA. Muitos dos soldados que chegaram à França em 1944 tinham estado na Itália. Eles estavam muito cansados da guerra e não acreditavam em liberdade ou qualquer outra propaganda desse tipo. Embora não fosse algo estratégico, ao examinar edições do Star and Stripes (jornal oficial das Forças Armadas norte-americanas no exterior, ndr), descobri que uma das maneiras usadas para motivar os militares era fazer dessa campanha uma espécie de aventura romântica e erótica. Por meio de fotografias, por exemplo de francesas beijando soldados, tentava-se passar a ideia de que se eles invadissem aquelas praias e libertassem a França, seriam recompensados com beijos, abraços etc. Os franceses sempre foram vistos como um povo sensual nos EUA. Muitos dos pais dos militares tinham lutado na Primeira Guerra Mundial e voltado com histórias de aventuras eróticas em Paris, o que reforçou o estereótipo. Aliás, ele continua vivo até hoje!

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Imagem das forças norte-americanas na Normandia


OM: De que maneira a desigualdade entre os franceses, empobrecidos por quatro anos de guerra e ocupação alemã, e os soldados norte-americanos, bem alimentados e equipados, favoreceu a prostituição?
MLR: Muitas mulheres se prostituíam por rações militares, sabonetes ou barras de chocolate. Os militares costumavam chamar essas mulheres de “Hershey bars”, porque elas faziam sexo em troca de chocolate. Foram anos muito difíceis para os franceses, eles eram privados até dos alimentos mais básicos. Muitas mulheres se prostituíram para manter suas famílias. A mesma coisa aconteceu na Itália até com mulheres da classe média, porque a situação lá era ainda pior.

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OM: A senhora afirma que o sexo foi um dos domínios em que se deu a luta pelo poder entre norte-americanos – que estavam assumindo seu papel de superpotência global – e franceses – antiga potência colonial que começa a tomar consciência de sua perda de influência. Como um ato privado adquiriu esse significado político?
MLR: Eu acredito que sexo é muito mais do que um ato privado. Uma das minhas fontes de inspiração é o trabalho do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984). Ele afirmava que a sexualidade era controlada pelo Estado por meio da disponibilidade de métodos de contracepção ou de aborto, e também dando estímulos financeiros para famílias numerosas, ou ao contrário punindo de várias maneiras os casais que não têm filhos. Segundo Foucault, esse controle da sexualidade pelo Estado é uma especificidade da história moderna. Então eu vejo o sexo como algo político. Partindo desse ponto de vista, não foi difícil notar como o sexo pôde se tornar um terreno de batalha política entre dois Estados. Por exemplo, os franceses não conseguiam controlar a prostituição. Antes da guerra havia na França um sistema de prostituição legalizada no qual a saúde das mulheres era monitorada. Era mais uma maneira de controlar a sexualidade. Mas o governo recentemente libertado não tinha os recursos para efetuar esse controle. E, por outro lado, o Exército norte-americano não queria as prostitutas perto dos militares por causa das doenças venéreas. Quando os soldados ficavam doentes, eles não podiam combater. Então o Exército queria manter as prostitutas longe dos militares, e é por isso que se tornou uma questão política.

OM: A senhora inicia seu livro descrevendo o ano de 1945 em Le Havre, onde os soldados norte-americanos faziam sexo em parques, praças, edifícios abandonados e até no cemitério, em plena luz do dia e diante dos passantes. Como a situação pôde chegar a esse ponto?
MLR: Em Le Havre, a cidade portuária onde cerca de quatro milhões de militares chegaram e partiram da França, a situação era particularmente ruim porque os norte-americanos não se importavam. Houve uma grande diferença entre o momento em que eles vieram para a França e o momento em que partiram, no verão de 1945. Eles haviam vencido a guerra na Europa e estavam vencendo no Pacífico. Então não havia a necessidade de disciplinar os soldados, e as doenças venéreas não eram mais um problema. Além disso, em dezembro de 1945 apareceu a penicilina, que cura doenças venéreas em poucos dias. Então todas as razões que o Exército tinha no verão de 1944 para manter as prostitutas longe haviam desaparecido. Os soldados estavam entediados e traumatizados, tinham visto coisas horríveis na guerra e bebiam muito. A única preocupação do Exército era evitar que o público norte-americano soubesse o que estava acontecendo.  Quando as coisas ficaram muito ruins em Le Havre, o prefeito Pierre Voisin escreveu para o coronel Weed, o comandante norte-americano da região, sugerindo que o Exército criasse bordeis legalizados, seguindo o modelo que existia antes da ocupação. O comando dos EUA rejeitou a ideia porque, se institucionalizassem o sexo, os jornalistas acabariam sabendo e informariam a opinião pública. Como resultado, os franceses eram obrigados a ver soldados fazendo sexo em qualquer lugar.

OM: Há estatísticas confiáveis sobre o número de estupros cometidos por soldados norte-americanos na França?
MLR: É impossível saber com certeza. Podemos falar de centenas, talvez mil ou dois mil. Foi muito pouco, se comparado ao número de estupros cometidos por nazistas na Rússia, particularmente no verão de 1941, e ao número de alemãs estupradas por soldados soviéticos em Berlim em maio de 1945 (as estimativas giram em torno de 100 mil).

OM: Segundo estatísticas militares que a senhora cita no livro, até outubro de 1944, 152 soldados norte-americanos tinham sido julgados por estupro na França, dos quais 139 eram negros. Em 1944 e 1945, 29 condenados por estupro na Europa foram enforcados publicamente. Desses, 25 eram afro-americanos - que correspondiam a cerca de 10% das tropas norte-americanas no continente. Por que a senhora afirma que o Exército usou esses números para fazer do estupro um crime de negros?
MLR: Essas estatísticas não levam em consideração o fato de que os negros ficavam baseados em um mesmo lugar e tinham mais contato com civis, porque integravam unidades de apoio. Eles dirigiam caminhões, descarregavam munição, enterravam os mortos... Então ficavam mais tempo em grandes cidades, como Le Havre ou Cherbourg. Era mais fácil prender e julgar esses homens. Por isso parecia haver uma preponderância de estupros cometidos por negros, segundo as estatísticas do Exército.

Quando prometeu aos soldados uma aventura erótica, as Forças Armadas não estavam preparadas para o que de fato aconteceu. Houve prostituição em massa, aumento alarmante dos casos de doenças venéreas e estupros. E, muitas vezes, o que era chamado de estupro foi na verdade um engano: os soldados negros pensavam que iam pagar as mulheres.

Pude identificar nos documentos o momento em que as autoridades militares decidiram – embora não fosse uma decisão estratégica oficial - usar os soldados negros como bodes expiatórios, para fazer do estupro um crime de negros, e não um crime de norte-americanos. Isso porque, em outubro de 1944, os franceses estavam furiosos com a repetição desses crimes e o Exército tinha que fazer algo para proteger sua reputação. E foi fácil colocar a culpa nos negros, porque havia toda uma tradição de linchamentos de soldados negros acusados de estupro no sul dos Estados Unidos desde a Guerra Civil.

Isso foi um choque para mim e é o ponto que mais gerou discussões quando publiquei o livro nos EUA no ano passado. Até historiadores especializados na história afro-americana não sabiam disso, e certamente a população afro-americana não sabia disso na época.

Os soldados negros vieram à França esperando encontrar um oásis de tolerância racial. Nos anos 20 havia uma incrível cultura afro-americana em Paris. Mas era somente na capital, no interior havia muito racismo.

OM: Como o seu livro foi recebido nos EUA?
MLR: O livro foi bem recebido pelos críticos e eu ganhei um prêmio importante da Sociedade de Estudos Históricos Franceses. Mas recebo até hoje muitas cartas e e-mails de leitores enfurecidos, em geral veteranos. Não os da Segunda Guerra Mundial, que quase não existem mais, mas das guerras na Coreia, no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão. Algumas das cartas são muito insultantes. Muitos afirmam que não posso julgar os soldados porque nunca lutei uma guerra, como se fosse um domínio exclusivamente masculino e eu não tivesse o direito de falar sobre isso por ser mulher. Algumas pessoas que me escreveram pensam que os franceses tinham se tornado nossos devedores porque nós os libertamos, então as mulheres pagaram essa dívida.

OM: Quais foram suas fontes de informação nessa pesquisa?
MLR: Muitos documentos novos foram abertos à consulta a partir de 2005, ao final do prazo legal de 60 anos, e permitem ter uma ideia mais completa sobre esse período histórico. Eu fui a primeira a ler alguns deles. As fontes novas mais importantes foram os arquivos municipais de Le Havre, que incluem a correspondência entre o prefeito Pierre Voisin e o comandante norte-americano Weed. Outras fontes importantes foram os relatórios da polícia e os registros judiciais franceses. Também usei memórias escritas por civis da Normandia.  

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