'Doze anos de kirchnerismo mudaram ambiente ideológico no país', diz analista argentino

Ao comentar as primárias deste domingo, cientista político diz que Cristina terá papel crucial: 'ela encarna componente épico muito eficiente na hora de votar'

São 15 os candidatos a ocupar o mais alto cargo político na Argentina — e o primeiro que não terá o sobrenome Kirchner depois de 12 anos de estadia da família na Casa Rosada, um mandato de Néstor e dois de Cristina Fernández. A sucessão presidencial na Argentina terá seu primeiro ensaio neste domingo (09/08), quando 32 milhões de pessoas participam das chamadas PASO: primárias abertas, simultâneas e obrigatórias. O resultado é que a prévia de hoje aparece simbolicamente como um primeiro turno da verdadeira eleição, que ocorrerá em outubro. [entenda aqui como funciona o sistema eleitoral argentino]

Embora haja uma profusão de aspirantes, apenas três desses grupos políticos aparecem como as principais forças no pleito:

• a FpV (Frente para a Vitória), coligação de de Cristina Kirchner, que terá Daniel Scioli como candidato único;

• o Cambiemos (Mudemos), aliança conservadora que apresentará três candidatos: o chefe do PRO (Proposta Republicana) e prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, o senador radical social-democrata Ernesto Sanz e a social-cristã, de centro-direita, Elisa Carrió;

• e, a Aliança Una, de centro-direita, pela qual concorrerão os ex-kirchneristas dissidentes: deputado Sergio Massa e o governador de Córdoba, José Manuel de la Sota.

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Reprodução/Facebook

Os três candidatos com mais força nas primárias deste domingo: Daniel Scioli (dir.); Sergio Massa (c.); e Mauricio Macri (esq.)

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Mauricio Macri, que aparece na maioria das pesquisas mais a frente de Massa como o provável adversário de Scioli, precisa polarizar o eleitorado e aparecer como a única verdadeira alternativa ao kirchnerismo. Não será uma tarefa simples, avalia o cientista político Ignácio Ramirez, da consultoria Ibarometro, em Buenos Aires. Apesar dos problemas econômicos, a maioria dos argentinos, sobretudo os mais humildes, reconhece que a situação do país melhorou muito desde os anos 1990, passando pela crise econômica de 2001. Além disso, “o discurso neoliberal e privatista não tem mais espaço hoje na Argentina, já que os Kirchner conseguiram mudar a cultura política do país”, explica Ramirez a Opera Mundi. Para ele, apesar de não ser candidata, a residente Cristina terá um papel crucial nesta eleição. “Ela consegue encarnar um componente épico muito eficiente na hora de votar”, ele resume.

Abaixo, leia os principais trechos da entrevista do cientista político argentino Ignácio Ramirez:

Opera Mundi: Qual é a importância das eleições primárias deste final de semana?
Ignácio Ramirez:
De maneira geral, a votação presidencial é uma decisão complexa que depende de muitos fatores. Alguns de longo prazo, como as orientações ideológicas, as origens socioeconômicas, e as identidades políticas. A médio prazo, também influem o ponto de vista sobre o curso político atual na Argentina e as avaliações sobre o governo nacional. Finalmente, no curto prazo, estão a avaliação da imagem dos candidatos, as campanhas e as percepções sobre o desempenho da economia. Neste contexto, o voto das primárias representa um teste, quase um primeiro turno, que vai indicar se os argentinos estão a favor da mudança ou da continuidade.

Ignácio Ramirez, cientista político, atua na consultoria Ibarometro, em Buenos AiresOM: Qual é o peso de cada um dos blocos, os que querem a mudança e os que trabalham para a continuidade dos anos Kirchner?
IR: O panorama político argentino é muito competitivo. Hoje, dá para dizer que o eleitorado está dividido em dois hemisférios, ou blocos de proporções semelhantes: a favor ou contra a continuidade. Neste contexto, a oferta eleitoral tende a ser polarizada em dois eixos e, neste sentido, as primárias terão o efeito de mostrar qual candidato da oposição tem as melhores perspectivas para competir contra o oficialismo.

OM: As pesquisas apontam uma vitória de Daniel Scioli, o herdeiro de Cristina Fernández de Kirchner, apos 12 anos de governo marcados por muitas polêmicas. Como explicar esta situação?
IR:
Nos últimos meses, muitas destas variáveis mudaram em favor da continuidade. A imagem da presidente está melhorando e o balanço retrospectivo sobre os anos Kirchner é positivo. Além disso, há uma dimensão pouco analisada pelos cientistas políticos e que tem um papel importante nestas eleições: a atmosfera ideológica que a Argentina respira. Ao contrário do que aconteceu nos anos 1990, hoje ela é fortemente estruturada por um conjunto de valores em favor de uma intervenção ativa do Estado na economia. Este clima ideológico está intimamente ligado ao que aconteceu no país ao longo dos últimos dez anos. E é também resultado do papel dos Kirchner na cultura política do país, e de algumas políticas sociais que gozam de amplo apoio.

OM: Mauricio Macri, o principal candidato da oposição, mudou o discurso nas últimas semanas, dizendo ser a favor dos programas sociais que ele tinha criticado antes, e prometendo não privatizar algumas empresas públicas, como a petroleira YPF. Como explicar esta reviravolta?
IR: O clima ideológico do país impôs um desafio delicado para os candidatos da "mudança". Eles têm que incorporar em seus discursos aspectos 'continuístas' porque não há espaço no mercado argentino para propostas eleitorais com toques neoliberais ou privatistas. Mas, deste jeito, a proposta de mudança deles parece cada vez mais fraca.

OM: Qual é a influência da situação econômica no voto dos eleitores?
IR: É central, e deste ponto de vista, a percepção da situação econômica melhorou nos últimos meses. Isso tende também a definir um resultado mais favorável a um cenário de continuidade.

OM: Daniel Scioli permaneceu bastante distanciado de Kirchner nos últimos anos. Porque ele acabou rendendo-se ao kirchnerismo? Cristina Kirchner terá um impacto importante na eleição? 
IR: O “kirchnerismo” tem uma vantagem simbólica e política que vem do fato que ele conseguiu constituir uma nova identidade política. O vínculo com seus eleitores movimenta elementos muito fortes, tanto do ponto de vista afetivo quanto ideológico. Ou seja, o “kirchnerismo” levanta uma adesão intensa, enquanto os eleitores da oposição têm uma relação mais fraca com os candidatos da oposição. Além disso, o “kirchnerismo” conseguiu condensar na figura da presidente alguns componentes épicos que são muito eficientes quando se trata de converter opiniões positivas em apoio eleitoral.

* Colaborou Vanessa Martina Silva

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