Livro conta detalhes da relação de bilionário sueco com o nazismo

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RELAÇÕES PERIGOSAS:Fundador da Ikea foi militante nazista durante a II Guerra e amigo de líder fascista europeu 

Um dos homens mais ricos e admirados da Suécia é acusado de ter um controverso passado nazista. Ingvar Kamprad, o criador da popular Ikea —rede que vende mobília e objetos de decoração a preços baixos em quase todos os continentes— é citado nas páginas do novo livro da jornalista Elisabeth Asbrink como um ex-militante do partido nazista sueco e amigo de longa data de um líder fascista europeu.

Apesar de o empresário já ter admitido e se desculpado, em 1994, pelo que chamou de “pecados juvenis”, as revelações de agora são mais detalhadas. Segundo Elisabeth, Ingvar trabalhou ativamente para recrutar pessoas para o partido nazista União Socialista Sueca durante a II Guerra Mundial. As afirmações causaram polêmica na Europa, especialmente na Suécia, onde Ingvar é considerado um modelo pessoal e profissional para a população. Com mais de 300 lojas em mais de 35 países, a Ikea é responsável por empregar milhares de pessoas ao redor do mundo, o que aumenta em muito o número de simpatizantes do empresário.

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Procurado pelo Opera Mundi, o porta-voz de Ingvar, Per Heggenes, disse que “as informações do livro da sra. Asbrink são antigas. Ingvar Kamprad já comentou e se desculpou pelo que fez quase 70 anos atrás e descreveu isso como o maior erro da vida dele. Ele não tem mais nenhuma simpatia pelo nazismo, sob nenhuma forma. A Ikea que ele criou é baseada em princípios democráticos e engloba uma sociedade multicultural. Além disso, algumas afirmações do livro foram tiradas de contexto, por isso soam diferentes do que realmente são.” 

Poucos dias após a denúncia, a Fundação Ikea, criada por Ingvar Kamprad, doou US$ 62 milhões para ajudar as vítimas da seca e da fome no Nordeste da África. Segundo o órgão das Nações Unidas que intermediou a ajuda, essa é a maior doação privada para a região em 60 anos.

O livro “E em Wienerwald permanecem as árvores” (tradução livre) acabou de ser lançado em sueco e ainda não foi traduzido para nenhuma outra língua. A autora aceitou conversar com o Opera Mundi para explicar os pontos mais polêmicos da obra.

Leia a seguir a íntegra da entrevista com Elisabeth Asbrink:

Seu livro ganhou muito em publicidade com as revelações sobre Ingvar Kamprad, mas do que exatamente se trata a história?
É sobre a vida de um garoto judeu chamado Otto, que foi mandado da Áustria para a Suécia um pouco antes do começo da II Guerra. Os pais dele foram capturados e morreram em Auschwitz, mas antes disso escreveram mais de 500 cartas para o menino. São essas cartas a principal base da história. Para sobreviver, Otto trabalhou na fazenda da família Kamprad e acabou ficando muito próximo de Ingvar. Os dois eram adolescentes quando se conheceram. Assim que o questionei sobre essa relação, Ingvar respondeu: “Não me entenda errado, mas me apaixonei”. Eles se tornaram grandes amigos imediatamente. Vem daí a primeira grande controvérsia, já que, apesar dessa amizade, Ingvar estava ligado a atividades nazistas.

Quais eram essas atividades nazistas e como a senhora teve acesso à informação?
As informações vieram do predecessor do que é hoje o Serviço de Segurança Sueco (SAPO, na sigla original). De acordo com os dados, Ingvar Kamprad foi o membro número 4014 da União Socialista Sueca, o partido nazista da época. Em 1943, o Serviço de Segurança criou um arquivo sobre Ingvar, então com 17 anos, com o título ‘nazista’. Várias cartas dele foram abertas e são citadas no arquivo. Entre outras coisas, ele escrevia sobre recrutar novos membros e dizia que não desperdiçaria nenhuma chance de trabalhar para o movimento. Os documentos também apontam que ele trabalhava para o jornal do grupo e que, portanto, devia ter algum tipo de posição oficial dentro da organização nazista.

Essa militância continuou depois da guerra?
Não há registro disso, mas Ingvar era muito amigo do líder fascista sueco Per Engdahl. Essa amizade continuou depois da guerra por muito tempo. Eles trocavam cartas e saiam juntos. Enquanto isso, Engdahl organizava a fuga de prisioneiros nazistas capturados durante os conflitos. Em 1947, ele começou a trabalhar para a reconstrução da extrema direita fascista e nazista na Europa. Em 1962, uma investigação da Alemanha Ocidental o nomeou como um dos maiores contatos internacionais dos novos nazistas no continente. E Ingvar Kamprad continuava sendo muito próximo desse homem naquela época, apesar de todas essas atividades. No ano passado, eu entrevistei o senhor Kamprad e ele disse que Per Engdahl era um grande ser humano.

O porta-voz de Ingvar Kamprad disse que a senhora usou essa afirmação fora de contexto. Qual é a sua versão?
Existe uma verdade nessa defesa. Ingvar disse que entende agora que as ideias de Per Engdahl sobre como o Estado deveria ser governado estavam erradas. Não há problema quanto a isso. Mas o meu objetivo era entender como foi possível naquele tempo ele ser tão próximo de um nazi-fascista e ao mesmo tempo manter a amizade com Otto, um rapaz que sofria os efeitos diretos daquela linha de pensamento. Pra deixar mais claro, vou descrever exatamente como foi a entrevista nesse ponto – e esse diálogo está gravado. Eu disse: ‘Estou curiosa para saber como tudo isso aconteceu ao mesmo tempo. Como o senhor podia achar as ideias dele (Engadhl) tão importantes e corretas e ainda assim continuar amigo de alguém que experimentou as consequências dessas ideias. O que o senhor acha?’ A resposta foi: ‘Não havia contradição para mim. Per Engadhl era um grande ser humano e seguirei pensando assim enquanto viver.” Para mim é óbvio que estava falando o tempo todo sobre política e não sobre a pessoa privada de Per Engdahl. Não me interessava saber se ele era um bom companheiro de pesca ou algo do tipo. Cada um pode interpretar como quiser, mas o contexto me parece bem claro.

Em sua opinião essas revelações podem afetar a vida do empresário sob algum aspecto?
Acho que não. Talvez o que Ingvar faça seja parar de dar entrevistas, porque obviamente o que ele diz acaba atingindo a Ikea de alguma forma. Não que a empresa tenha sido realmente prejudicada, mas esse tipo de relação não é boa para os negócios. De qualquer forma, ele já está com 85 anos e deve se aposentar em breve.

Como o público sueco recebeu o seu livro?
Criou-se um enorme debate por conta disso. Tenho recebido muitas cartas e emails. Ingvar é o mais famoso sueco no mundo atualmente. As pessoas o admiram imensamente, como empresário criador de empregos e como pessoa. Evidentemente, chegam muitas críticas dizendo que deveria deixar o velho homem em paz e que sou apenas uma jornalista tola querendo vender livros e fazer dinheiro. Por outro lado, a maioria acha que o caso é relevante e que, exatamente por Ingvar ser um símbolo para a Suécia, deveria vir a público e explicar tudo em detalhes. Isso é importante até para sabermos mais do nosso próprio passado, que é muito obscuro no que diz respeito a essa época da guerra. Mas as pessoas tentam escapar disso. Ingvar diz que fez coisas erradas porque era jovem demais. E agora dizem que ele é muito velho para responder por isso. Só que não o entrevistei em um asilo. Nossa conversa foi no escritório central da Ikea, enquanto ele trabalhava.

E quanto a Otto? Dá para dizer o que aconteceu com ele, sem estragar o final do livro?
Ele morreu em 2005. Nós nunca tivemos contato. Entrevistei alguns amigos e familiares e eles me disseram que Otto ficou muito surpreso quando soube do envolvimento de Ingvar com o nazismo. Deve mesmo ter sido um choque.

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