Selfie revolucionário: quando Che Guevara ficou careca

Foto do revolucionário Che Guevara sem cabelo foi publicada no Brasil em 1997, pouco antes de seu corpo ser encontrado na Bolívia

Em 1997, escrevi um breve texto para a Folha de S.Paulo sobre a biografia de Che Guevara, do norte-americano John Lee Anderson. O texto foi pequeno, entre outros motivos, porque a principal estrela da resenha era a foto, publicada pela primeira vez no Brasil. Um "selfie" de Che, que era um bom fotógrafo: na imagem feita com a ajuda de um espelho pendurado na porta, o olhar firme distrai a atenção de quem observa e só com algum esforço se vê a câmera fotográfica que está em seu colo.

Lembro que foi difícil acertar o título. Acho que "usou careca", como foi publicado, expressa essa dificuldade. O melhor teria sido o "ficou". Mas isso é o de mesmo: boa mesmo era o auto-retrato de Adolfo Mena González. 

Uma atualização importante no texto: em junho do mesmo ano de 1997, o corpo de Che foi encontrado na Bolívia. 

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Leia, abaixo, a íntegra do texto:

Che usou careca, mas era só um disfarce

O empresário uruguaio Adolfo Mena González chega a La Paz em busca de dados econômicos para a Organização dos Estados Americanos. É novembro de 1966.

Reprodução/Hey Che

Em 8 de outubro de 1967, estará magro e enfraquecido pela asma. Será capturado pelo regime militar boliviano e terá, depois de morto, suas mãos cortadas. A data diz quem era, na realidade, González: Ernesto Che Guevara.

Nascido argentino, e cubano após a revolução de 1959, Che é o personagem da história do século 20 que mais merece a nacionalidade de latino-americano (no século 19, o posto fica para Simón Bolívar).

Os 30 anos da morte de Che não passarão em branco, em parte por culpa de John Lee Anderson.

O jornalista norte-americano passou cinco anos pesquisando a vida do guerrilheiro. Entre outras coisas (como a foto ao lado), obteve a informação da região onde estaria enterrado o corpo do guerrilheiro na Bolívia. Publicada no "The New York Times", a notícia reabriu o caso. O governo boliviano realizou buscas e achou corpos de outros militantes. Mas o de Che não chegou a ser encontrado.

A pesquisa de Anderson resultou em "Che - Uma Biografia" (Objetiva, 948 págs.). Outras virão.

O livro de Anderson é um detalhado levantamento jornalístico da vida do guerrilheiro. A foto do Che empresário, entretanto, não é reveladora do conteúdo da biografia. Nela prevalece a figura jovem e decidida, personificada na foto que correu o mundo (Anderson, aliás, revela quando essa foi feita).

Admirador de Che sem ser militante, Anderson viajou pela América Latina quase inteira, conhecendo os países que Che percorreu antes de chegar a Cuba. Também esteve na União Soviética.

Duas experiências parecem ter sido fundamentais na formação política de Che.

Na Bolívia, em 1953, viu o governo pós-revolucionário ceder às pressões dos EUA e os camponeses só serem recebidos nos ministérios após banhos de inseticida.

Na Guatemala, em 1953 e 54, Che viu um regime progressista ser derrubado após a ação da CIA, a agência de inteligência norte-americana. Concluiu que a via democrática estava, então, obstruída.

O livro evita, a todo custo, descambar numa hagiografia, numa santificação. Não omite os defeitos do jovem que assinou cartas como "Stálin 2º", pediu um jipe a Evita Perón e sonhou com a reconciliação entre chineses e soviéticos.

Mas não é o que sobra da vida de Che. Sobra o Che que tentou exportar a revolução e que, em alguns casos, conseguiu. O livro, por exemplo, chega ao mercado sem dizer que Laurent-Désiré Kabila chegou ao poder no ex-Zaire.

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