Victor Hugo explica o gênio de Shakespeare

Dramaturgo inglês completa 450 anos de existência; saiba pelas mãos de quem seus textos venceram a rivalidade franco-britânica e ganharam público na França

Houve um tempo em que o nome de William Shakespeare (1564-1616) não conseguia atravessar o Canal da Mancha — e, quando isso acontecia, era motivo de chacota. No reino de França, Voltaire não era o único grande pensador a menosprezar o dramaturgo e poeta inglês.

Shakespeare só passa a ser reconhecido como grande gênio na França quando o movimento romântico se firma no país, cuja rivalidade com a Inglaterra é não apenas histórica, mas também literária. E é na escrita do maior nome do romantismo francês — Victor Hugo (1802-1885) — que Shakespeare ganha o prestígio que lhe era injustamente negado. Em William Shakespeare (Campanário Editorial, 328 págs.), lançado em francês em 1864, Victor Hugo, autor de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre Dame, faz um imperdível perfil ensaístico do criador de Hamlet e de Sonhos de Uma Noite de Verão

William Shakespeare está incluído entre as leituras que o crítico literário Harold Bloom afirma ter-lhe proporcionado "prazer e entendimento particulares", no apêndice em forma de lista de seu O Cânone Ocidental (Objetiva, 1995). Trata-se de um encontro de gigantes da literatura universal. E Shakespeare torna-se um belo pretexto para que Victor Hugo eleja seus gênios, incluindo o inglês numa lista que começa com Homero, passa por Ésquilo (que classifica como o Shakespeare da antiguidade), São Paulo, Dante e Cervantes, entre outros, até chegar ao dramaturgo inglês.

[Gigante da literatura mundial, existência do dramaturgo inglês William Shakespeare completa 450 anos]

"Quem estiver procurando unta biografia não vai encontrá-la, eu mesmo não saberia classificar seu gênero, se tivesse de colocá-lo na estante de uma livraria", afirma o editor e tradutor (com Renata Cordeiro) do livro, Paulo Schimdt.

Reino do livro

A arte é a grande preocupação da obra, também um manifesto literário e uma ode à escola pública e universal.  "A multiplicação dos leitores é a multiplicação dos pães, no dia em que Cristo criou esse símbolo, ele vislumbrou a imprensa", escreve Hugo. "Portanto, que tolice essa: a poesia está acabando! Poderíamos gritar: está chegando! Quem diz poesia diz filosofia e luz; ora, o reino do livro está começando."

Leda Tenório da Mata, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, diz que Victor Hugo e Stendhal (1783-1842) são os responsáveis pela "reapresentação" de Shakespeare à França e ao mundo. Aproximadamente na mesma época, Stendhal está escrevendo Racine e Shakespeare", diz. Os dois, assim, apontam as diferenças que tinham em relação ao teatro francês e reforçam as posições do romantismo, cuja construção retoma do teatro de William Shakespeare a combinação do sublime com o grotesco. Victor Hugo começou a escrever sobre Shakespeare no exílio, na ilha de Jersey, no Canal da Mancha. Deputado republicano, fora obrigado a deixar a França após o golpe de Estado de Luís Bonaparte — que se torna Napoleão III —, em 1851 (só retornaria à França em 1870).

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Inicialmente, o texto seria apenas um prefácio para a tradução que seu filho, François-Victor, também exilado, preparava de obras de Shakespeare. Hugo percebeu que não poderia escrever tão pouco sobre o autor inglês, a quem qualifica de "homem-oceano", e o texto introdutório converte-se num ensaio. Ele também assinaria o prefácio (que consta dessa edição brasileira, como anexo) mais tarde, dizendo que "Shakespeare é um dos poetas que mais se defendem contra o tradutor". É a partir dessa versão de François-Victor, em prosa, da obra de Shakespeare, que o autor conquista o respeito dos franceses, lembra Paulo Schmidt.

Os cavalos do teatro

No ensaio, Victor Hugo relata brevemente o modo como Shakespeare chegou ao mundo do teatro. Começa contando suas origens, em Stratford-upon-Avon. Vinha de uma família católica, o que, para Victor Hugo, era um vício, que teria levado a família a desabar. Lembra que "estreou num abatedouro". "Aos 15 anos, de mangas arregaçadas no açougue do pai, matava carneiros e bezerros." De seu casamento com Anne Hatway, realça o fato de, após ter com ela três filhos, a mulher ter sumido de sua vida, só reaparecendo no testamento, em que lhe deixa "a menos boa" de suas duas camas.

Por algumas moedas, Shakespeare guardava cavalos nas entradas dos teatros londrinos. "Ficou muito tempo na soleira do teatro, do lado de fora, na rua. Por fim entrou. Atravessou a porta e chegou aos bastidores. Foi bem-sucedido como call-boy, o menino que chamava, menos elegantemente, o que ladrava" — profissão que exercia por volta de 1586.

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A partir daí, o romântico Victor Hugo passa a enumerar as peças e a relacioná-las a fatos históricos. Cita, por exemplo, que, em 1589, Jaime VI, filho da decapitada Maria Stuart, rendia seus respeitos à decapitadora Elizabeth, enquanto Shakespeare escrevia Péricles. Hamlet surge em 1603, quando Henrique IV afirma que Elizabeth "era virgem como eu sou católico". Assim segue até que Shakespeare complete 52 anos, em 23 abril de 1616, dia em que morre: "Nesse mesmo dia de 23 de abril de 1616, morreu Cervantes, gênio da mesma estatura. Quando Shakespeare morreu, Milton tinha 8 anos, Corneille tinha 10, Carlos I e Cromwell eram dois adolescentes, um com 16, outro com 17 anos."

A imagem que Victor Hugo apresenta de Shakespeare não o impede de identificar na França e na Inglaterra mundos diferentes. "Paris é a capital de uma vertente da humanidade, Londres é a capital da vertente oposta", acredita. Também vê no inglês e no francês idiomas "compostos em sentido inverso", quando discute a dificuldade de perseguir o gênio e de realizar a transposição da obra de Shakespeare. Ainda assim, afirma que "traduzir um poeta estrangeiro é aumentar a poesia nacional".

William Shakespeare, o ensaio, é também um belo discurso do político e escritor Victor Hugo. Um avanço incrível para um país como a França, que apenas em 1999 assistiu à montagem de Henrique V (no Festival de Avignon), a mais antifrancesa das peças do inglês — que foi o mais universal dos dramaturgos.

(*) Texto originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 3/6/2000.

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