Desobediência à cubana: artista enfrenta cultura industrial

Ernesto Oroza, designer e artista cubano, estudou a fundo o jeito do país de encontrar solução para tudo, depois de períodos subsequentes de crise

Enquanto o mundo, sob o domínio da lógica capitalista, estigmatiza a necessidade e a vê como fraqueza, em Cuba a criatividade que provém da falta é matéria abundante há décadas. Claro que as ideias cubanas surgem de um estímulo cruel – a escassez e a pobreza –, mas é inegável que mais do que meras gambiarras, elas representam uma forma de inovação que faz frente à cultura industrial, com suas estandardizações e códigos fechados com objetivo de gerar dependência.

Divulgação/ Ernesto Oroza

Projeto "Technological Disobedience" (desobediência tecnológica), exposto no Museu de Ciência de Miami neste ano


Fala-se aqui da chamada “desobediência tecnológica”. Um conceito elaborado por Ernesto Oroza, designer e artista cubano que estudou a fundo o jeito cubano de encontrar solução para tudo, depois de períodos subsequentes de crise e de um implacável bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.

Para Ernesto, que atualmente vive e trabalha na Flórida, nos Estados Unidos, tudo começa em meio à crise cubana dos anos 90, quando ele começou a colecionar objetos caseiros que encontrava na Havana, sempre feitos com a reutilização de materiais e adaptações e pensados criativamente para solucionar problemas do dia a dia. Viu que nisso existia um conceito, uma “ciência" que ia muito além do remendo, e passou estudá-los com cuidado.

Divulgação/ Ernesto Oroza
Já para o seu país, esse movimento começa nos anos 60, quando a chegada da Revolução e a conturbada atmosfera política fizeram com que inúmeros engenheiros fugissem para Miami. É quando acontece o chamado “Movimento Nacional de Inovadores e Racionalizadores”, em o povo cubano se apropria massivamente das máquinas e passa a entender seu funcionamento.

[Cartaz faz parte do projeto "Desobediência tecnológica"]

Nessa época, mais especificamente no final de agosto de 1961, Ernesto “Che" Guevara lançou o mote “trabalhador, constrói tua maquinária” – uma frase radical e revolucionária, ainda hoje, que advogava pela reinvenção das relações de produção e, com ela, da própria sociedade.

Porém, somente alguns dias depois, ele solicitou, como Ministro de Indústrias, a inscrição de Cuba à Organização Internacional de Estandardização. Por um lado, pedia aos trabalhadores a reinvenção do mundo e, por outro, acatava o domínio da ordem capitalista global. É o nascimento da história cubana de desobediência e estandardização.

“Nós, cubanos, realizamos coletivamente uma dissecção contingente e implacável da cultura industrial. O interessante é que essa radicalidade vinha de tarefas domésticas simples, como consertar, acumular ou adaptar o escasso grupo de objetivos que ficaram na ilha quando colapsaram a produção nacional e as importações. Em outras palavras, foram os lares, enquanto se encontravam soluções às necessidades da família, o berço dessa desobediência”, explica Ernesto Oroza em uma entrevista à a revista argentina Hecho en Buenos Aires.

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O designer conta que, 20 anos depois de começar sua investigação sobre o tema, tendo acesso a determinada bibliografia fora de Cuba, que o que ele definia como “objeto de necessidade” – a manifestação concreta da desobediência cubana – era o mesmo que o “objeto transparente” ou “objeto camarada”, que havia definido antes o crítico e historiador de arte Boris Arvatov. Ou seja, “um objeto que não esconde seu código ao trabalhador, nem ao usuário, sendo plenamente acessível, em oposição ao objeto suntuoso, definido por Marx”.

Cultura de reinvenção e apropriação

Contribuem, portanto, para essa riquíssima cultura de reinvenção e apropriação não só a realidade de crise em que esteve imersa a ilha, com períodos menos ou mais radicais, mas também a fase de relações econômicas estabelecidas com o mundo socialista.

Divulgação/ Ernesto Oroza

Imagem faz parte de outro projeto do designer cubano, chamado "Arquitetura da Necessidade"


Segundo Oroza, ele serviu para assentar uma cultura material homogênea que foi extremamente valiosa durante o chamado “período especial”, nos 90. “A estandardização aportou um vetor às práticas. Todos tínhamos os mesmos objetos, e, graças a isso, existia um conhecimento e um repertório técnico comum, que foi o combustível para a expansão das ideias pela ilha”. 

O tema é apaixonante e joga uma luz sobre a escura época atual, em que se discutem práticas mais sustentáveis com o planeta para evitar a destruição dos recursos e – por quê não – combater o consumismo.

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