Lisboa inaugura mostra de artista do século XVII que virou maior pintora barroca de Portugal

Josefa de Óbidos viveu profissionalmente da pintura e fez pelo menos 130 obras, que estão expostas no Museu de Arte Antiga da capital portuguesa até setembro

DGPC/ADF/José Pessoa

Natureza-morta com doces e barros (1676) - Óleo sobre tela de Josefa de Óbidos. Museu Municipal de Santarém

Atualizada em 25.mai, às 14h47

Viveu profissionalmente da pintura. Foi empresária. Chegou a ingressar em um convento, mas logo saiu. Nunca se casou. Morreu com fama e riqueza consideráveis. Tudo isso no século XVII. Josefa de Ayala ergueu na pequena província portuguesa de Óbidos uma vida incomum a uma mulher de sua época, convertendo-se na maior referência do Barroco português.

Emancipada e com importantes encargos da Igreja em Portugal e na Espanha, deixou centenas de obras que hoje são conhecidas mundialmente – estão na coleção do Museu do Prado (Madri) e do Louvre (Paris). Lisboa inaugurou no Museu Nacional de Arte Antiga, no último dia 16, a maior exposição até hoje de seus trabalhos, em exibição que vai até 6 de setembro. “As obras dela mostram um domínio dos efeitos da luz, gosto pelo detalhe e uma beleza idealizada”, disse a Opera Mundi Joaquim Oliveira Caetano, um dos curadores.

Menino Jesus Peregrino (1676) - Óleo sobre tela. Col. Particular Ao longo de 130 obras de pintura, escultura e artes decorativas, pretende-se afastar o mito de uma artista beata e provinciana. Ao contrário, Josefa era uma mulher culta e independente. De família bastante religiosa – dois de seus irmãos eram clérigos – teve uma breve passagem por um convento, não chegando a se tornar freira. Manteve em toda sua vida, contudo, uma profunda admiração por Santa Teresa D'Ávila, a grande influência feminina do período na Península Ibérica. Diversas de suas obras a homenageiam.

A história de Josefa de Óbidos, como ficou conhecida, desafia a história da arte, que pouco ou nada diz sobre mulheres artistas. Apesar de não haver qualquer retrato ou autorretrato seu, o legado que deixou vai além de um rosto. Nascida em Sevilha em 1630, regressou cedo para a terra natal do pai, o pintor Baltazar Gomes Figueira, precursor das naturezas-mortas em Portugal, à maneira do bodegón espanhol. Trabalharam juntos no mesmo ateliê durante anos, e só passou a assinar as naturezas-mortas depois da morte do pai.

A abrangência da obra de Josefa é, porém, mais ampla. Dona de um estilo herdeiro do tenebrismo de origem mais nórdica, consagrou-se por um profundo e culto misticismo, sobretudo na fase mais madura, quando se torna uma ativa pintora de retábulos (estrutura em pedra ou madeira que se coloca na parte posterior de um altar).

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Santa Teresa Esposa Mística (1672) - Óleo sobre tela. Paróquia de CascaisJosefa também acumulou outras conquistas excepcionais. Dedicou-se em paralelo à pintura e à gravura, uma escolha pouco usual à época, além de ter sido o caso mais precoce na pintura em Portugal: aos 16 anos, já compunha obras em pequeno formato, mas de uma qualidade e riqueza de detalhes que seriam sua marca ao longo de quatro décadas de carreira.

Emancipação

Aos 30 anos e com consenso dos pais, ela adquire um estatuto de emancipação administrativa, equiparando-se a uma viúva. Até então, as mulheres estavam obrigadas a dependerem de um homem (o pai ou o marido) para efeitos de negócios. Era seu pai quem lhe comprava as chapas de cobre para pintar ou que recebia os valores da venda das gravuras, por exemplo.

A partir daí, a artista consegue grandes encargos (especialmente na região espanhola da Estremadura), compra sua própria casa, passa a viver sozinha e começa a mover-se no mundo dos negócios. Adquire bens, terras e empresta dinheiro com juros. “Não era normal uma mulher solteira viver com completa independência, fora da casa dos pais, sem abdicar de sua profissão, e seguir a ser considerada socialmente um modelo de virtude”, salienta Caetano. Algum tempo após sua morte, aos 54 anos, já há registros de biografias escritas sobre ela.

Entre as principais obras, estão as da fase tardia, como o Menino Jesus Peregrino (1676), Santa Teresa Esposa Mística (1672) e as telas de retábulo com a Vida de Santa Teresa de Jesus, pintadas em 1672 para a Igreja Matriz de Cascais. Também ocupa lugar de destaque a vasta coleção de obras de natureza-morta, muitas das quais compôs em coautoria com o pai, o que dificulta sua identificação.

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