Dilma nos EUA: mais que novas relações, possibilidade de ganhos políticos e econômicos

Esmiuçar da agenda de Dilma demonstra diversos aspectos, de política interna e externa, que, bem-sucedidos, podem melhorar as perspectivas de seu governo

Esteja sempre bem informado
Receba todos os dias as principais notícias de Opera Mundi

Receba informações de Opera Mundi

A visita de Dilma Rousseff aos Estados Unidos pode tanto mudar o cenário de seu segundo mandato quanto afetar a posição do Brasil na comunidade internacional. A presidente iniciou no domingo, dia 28 de junho, sua visita de trabalho ao país, com uma agenda que inclui Nova Iorque no dia 29, Washington nos dias 29 e 30 e encerra-se em São Francisco, no dia 1º de julho. Uma visita bilateral longa para os padrões de Dilma, criticada, com dose de razão, por negligenciar os aspectos externos da política nacional. O esmiuçar da agenda de Dilma demonstra diversos aspectos, de política interna e externa, que, bem-sucedidos, podem melhorar as perspectivas de seu governo, além de influenciar questões geopolíticas globais.

O principal foco da visita e dos comentários em torno das relações bilaterais entre os dois países será o simbolismo do encontro entre Dilma e Barack Obama. É sabido e notório o escândalo de espionagem do governo dos EUA denunciado por Edward Snowden, que incluiu as comunicações pessoais de outros líderes nacionais, como Angela Merkel, da Alemanha, e a própria Dilma. O episódio causou grande distensão nas relações entre os EUA e a comunidade internacional, incluindo o Brasil. Dilma falou de forma incisiva sobre o assunto na Assembleia Geral das Nações Unidas, recebendo apoio alemão. Dilma também cancelou uma visita de Estado que faria aos EUA, um aspecto que deve ser deixado claro: a atual visita, de trabalho, não possui os mesmos impactos, simbolismos e importância da visita cancelada.

Agência Efe/mar.2011

Visita de Dilma aos EUA pode mudar cenário do segundo mandato e afetar posição do Brasil no mundo

Em outras palavras, a visita sinaliza um fortalecimento de boas relações, mas ainda não recupera o lastro perdido no caso Snowden. Dilma será recebida em jantar na Casa Branca e ficará hospedada, quando em Washington, na Blair House, o palácio para hóspedes dignatários do governo dos EUA. Bons sinais de relações amistosas, de força simbólica, que espera-se que rendam frutos em outras agendas. Não que uma agenda política bilateral não exista. A proximidade no ramo de Defesa é uma delas. Obama espera adiantar a pauta ambiental com Dilma, pensando na COP21, que será realizada em Paris no final do ano. Em tempos recentes, nesse tema, o discurso brasileiro e o discurso dos EUA foi pouco congruente, o que espera-se que seja, no mínimo, amenizado.

Outras pautas políticas bilaterais envolvem temas previdenciários, já que existe um grande intercâmbio, mútuo, de profissionais dos dois países, além de um antigo desejo brasileiro: a dispensa de vistos para turistas brasileiros. As discussões sobre isso são realizadas desde uma década, no mínimo, e, caso consiga-se um avanço, pode representar uma vitória para Dilma. E não apenas na política exterior. Uma das principais críticas feitas ao governo Dilma, e ao governo Lula também, seria a do “antiamericanismo”, ou, no mínimo, de distanciamento dos EUA, um tradicional aliado, em prol de novas relações, como o BRICS. Pior, em prol de relações exteriores com motivos ideológicos, com os “bolivarianos” e Cuba.

Deixando de lado o sensacionalismo, o senso-comum e a falta de substância de boa parte dessas críticas, uma aproximação inédita como a abolição de vistos para turistas representaria, com impacto, uma boa relação com os EUA; logo, esvaziaria as críticas citadas, repetidas até pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. Poderia retomar parte do prestígio do governo com a classe média urbana, maior favorecida por uma medida como essa. No que concerne a política internacional, o foco deve ser o continente americano, especialmente Venezuela e Cuba, além da cooperação para as vindouras eleições no Haiti. O primeiro mandato de Obama focou-se no Oriente Médio e a Guerra ao Terror, agora os EUA estão retornando o olhar para os vizinhos. A retomada de relações com Cuba e a distensão com uma Venezuela em crise devem ser debatidas, mas longe de serem prioridade.

Obama assegura a Hollande ‘compromisso firme’ com a França após espionagem contra três presidentes

'Saúde não é mais privilégio para poucos', diz Obama após Suprema Corte validar Obamacare

Ponto central da visita de Dilma aos EUA é melhoria da relação com Obama, diz analista

 

O simbolismo político da visita de Dilma, entretanto, pode ter seu maior impacto é na agenda econômica. Dos quatro dias de sua visita, a presidente passará boa parte de seu tempo em fóruns empresariais, encontros com investidores e empreendedores. Inclusive, visitará o Vale do Silício, na Califórnia, quando a pauta deve ser inovação e intercâmbio intelectual; os EUA é o principal destino de intercambistas brasileiros do programa Ciência sem Fronteiras. Reaproximar-se de Obama é resgatar uma relação de confiança entre as duas economias, com esses investidores e empresários. Em meio ao anúncio de programas nacionais de concessões estatais e de incentivo para exportações, é uma relação mais que bem-vinda, necessária.

Uma injeção de capital na economia brasileira, nesse momento, é também um sopro de alívio para o segundo mandato de Dilma, que começou em crise. A relação econômica também é uma via de mão-dupla. Boa parte da comitiva presidencial é de ministros das áreas de economia e comércio. Joaquim Levy, ministro da Fazenda, e o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, estão presentes. Uma das prioridades brasileiras será a da abertura do mercado local para a importação de carne brasileira in natura, além da assinatura de acordos para unificação de regras em setores técnicos. A construção de uma agenda econômica na política exterior, com cooperação interministerial, é um dos focos do chanceler Mauro Vieira; ex-embaixador em Washington, lembre-se.

Não é apenas a importância das relações, mas também a possibilidade de ganhos políticos e econômicos, inclusive internos, que explica o foco de Dilma na visita. Ela teria dedicado boa parte de sua agenda recente em reuniões ministeriais para acertar detalhes e aspectos da visita. Com a recém-visita chinesa ao Brasil e o anunciado pacote de investimentos, a vindoura Cúpula do BRICS na Rússia, a institucionalização do Novo Banco de Desenvolvimento, a negociação de acordos comerciais entre Mercosul e União Europeia e, agora, a visita aos EUA, o Brasil consegue uma variedade de parceiros raramente vista. As relações Sul-Sul construídas na chancelaria de Celso Amorim somam-se à agenda comercial atual. 

A visita de Dilma aos EUA e seu encontro com Obama é reduzida, ou focada, ao seu simbolismo político. Nas palavras de Roberta Jacobson, secretária de Estado adjunta para a América Latina, "trata-se do início de um novo capítulo em nossa relação bilateral. Esta relação foi posta à prova nos últimos 18 meses”. O destaque é justificado e importante, mas não a redução. Uma grande possibilidade de ganhos políticos e econômicos  está ao alcance do governo de Dilma Rousseff. Seu segundo mandato começou já desgastado e passa por momento de queda de popularidade e radicalização do debate interno, com uma economia questionada e presente diariamente nos jornais. Novos investimentos, renovação econômica e o fortalecimento de relações com o “velho aliado” podem mudar esse panorama em curto prazo. 

Filipe Figueiredo é redator do Xadrez Verbal

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Outras Notícias

PUBLICIDADE
X

Assine e receba as últimas notícias

Receba informações de Opera Mundi

Destaques

O melhor da imprensa independente

PUBLICIDADE

A revista virtual
desnorteada

Mais Lidas

Últimas notícias

'Fatos alternativos' é a 'despalavra' de 2017

Termo estimula substituição de argumentos factuais por afirmações não comprovadas para manipular debate público, diz júri; iniciativa quer chamar atenção para palavras que ferem dignidade humana ou democracia

 

Sob a fumaça, a dependência

Não são apenas os fumantes que estão atrelados a um hábito do qual é difícil se livrar; o Brasil, líder global na exportação de tabaco, oculta sob os dados econômicos um quadro social de efeitos devastadores

 

Cientistas descobrem o que dizimou astecas

Após cinco séculos de mistério, equipe internacional de pesquisadores detecta bactéria, levada por europeus, que teria sido responsável pela morte de 15 milhões de pessoas em apenas cinco anos