Filme mostra como banda de rock influenciou movimento pró-autonomia da Groenlândia nos anos 70

Em exibição no festival In-Edit Brasil, documentário revive trajetória da Sumé, primeiro grupo do gênero a compor em groenlandês; leia entrevista com diretor

Divulgação

Centa do documentário 'Sumé', que recria a trajetória da banda groenlandesa e do movimento autonomista local

Em 2008, um referendo popular garantiu maior autonomia à Groenlândia, território colonizado pela Dinamarca. Tida como o último passo rumo à independência formal, a consulta popular não teria sido possível sem a luta do movimento nacionalista iniciado nos anos setenta e que, para se popularizar, contou com grande apoio de uma banda de rock: em 1973, o grupo Sumé rompeu barreiras ao fazer sucesso compondo músicas em groenlandês pela primeira vez — em uma época em que até as escolas locais relegavam o idioma ao segundo plano.

A trajetória dos roqueiros que faziam faculdade na Dinamarca é revivida no filme Sumé - The Sound of Revolution, filme que integra a programação do festival de documentários musicias In-Edit Brasil (e que será exiibido nesta quarta-feira, 8 de julho, às 16h, no Centro Cultural São Paulo).

Mais do que uma mera banalidade, a escolha pela língua fazia parte de uma postura de confronto à colonização dinamarquesa que se refletia principalmente nas letras das músicas, recheadas de críticas diretas e indiretas à opressão sobre a colônia. "Com o consentimento da própria população local, os groenlandeses estavam se transformando em dinamarqueses", comenta Inuk Silis Høegh, diretor do documentário, a Opera Mundi.

Assista abaixo ao trailer do filme, legendado em inglês, 'Sumé - The Sound of Revolution':

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Ouvindo pessoas próximas, integrantes e fãs da banda, o documentário retraça a trajetória da Sumé e aponta a rebeldia da banda como fundamental para difundir entre a população o discurso autonomista que resultaria, já em 1979, na criação de um governo local — atualmente a Dinamarca é responsável apenas pela condução das políticas externa e de defesa da Groenlândia.

Leia abaixo a entrevista, concedida por email, em que o cineasta groenlandês Inuk Silis Høegh fala sobre as principais questões levantadas pelo seu trabalho, relacionando os movimentos autonomistas dos anos setenta aos de hoje em dia.

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Banda Sumé foi o primeiro grupo de rock a compor canções em groenlandês, em 1973

Opera Mundi: Como a banda Sumé influenciou o movimento autonomista da Groenlândia?
Inuk Silis Høegh:
As ideias a respeito de uma Groenlândia mais independente já estavam circulando entre a elite política do país e os jovens que estudavam na Dinamarca, mas a mensagem que trazia a necessidade de mudanças foi espalhada para cada lar através da poesia e da música da banda Sumé. Eles realmente prepararam o terreno para que a Groenlândia finalmente viesse a ter um governo local, o que se consolidou em 1979.

OM: Na Espanha, a ditadura franquista proibiu o ensino das línguas associadas a minorias (catalão, basco e galego). Na Groenlândia, Sumé foi a primeira banda de rock que cantou suas músicas em groenlandês. Por que a língua era tão importante para vocês em termos culturais?
ISH: Sumé surgiu em uma época em que o groenlandês era considerado inferior ao dinamarquês não só no idioma, mas em vários aspectos, e isso também se refletia na música. As pessoas cantavam em inglês e dinamarquês, e algumas vezes pareciam nem mesmo entender o que aquelas palavras significavam. O mero fato de a banda Sumé cantar em groenlandês foi uma revelação para muitos. Um homem disse que estava tão acostumado a ouvir músicas populares em outros idiomas que, para ele, as músicas da Sumé pareciam estrangeiras. Eu sinto muita dor com essa história.

O diretor de 'Sumé...', Inuk Silis Høegh (esq.), e o produtor criativo, Emile H. PéronardOM: Quais eram os principais problemas da Groenlândia quando era governada pela Dinamarca? Tendo em vista os dias atuais, você acha que a conquista da autonomia política trouxe bons resultados?
ISH: Todas as decisões sobre a Groenlândia eram tomadas em solo dinamarquês. Na realidade, com o consentimento da própria população local, os groenlandeses estavam se transformando em dinamarqueses. Tudo foi feito seguindo o modelo de pensamento da Dinamarca, e o resultado disso estava sendo a perda de cultura e a confusão das pessoas em relação às suas próprias identidades. O governo local e autônomo nos deu um maior grau de controle sobre nosso destino e trouxe à população um novo começo e um senso de pertencimento e de responsabilidade mais forte sobre nossas vidas. Não estou dizendo que não há problemas, mas nós já poderíamos prever alguma turbulência depois de 250 anos de colonização.

OM: Como a história da Sumé está relacionada ao atual momento político da Groenlândia? Qual foi a reação no país ao filme que você realizou?
ISH: O filme foi um sucesso no país. Ficamos contentes por sentir que a juventude de hoje realmente foi afetada por ele. Muitos jovens se emocionaram e vieram falar conosco sobre o desejo de realizar mudanças. Além de ser sempre bom conhecer a sua história, eu acredito que os problemas mais profundos que a Sumé e o filme tocam estão muito presentes hoje em dia. Ficamos felizes em ver, mais uma vez, que a arte pode inspirar mudanças.

OM: Atualmente existem diversos movimentos nacionais liderados por minorias, como o dos escoceses no Reino Unido, dos curdos na Turquia e dos catalães e dos bascos na Espanha. Qual é a principal diferença entre os movimentos autonomistas da década de 1970 e os de hoje?
ISH: Não estou certo sobre qual é a diferença, mas me parece que, ao mesmo tempo em que tornou o mundo mais próximo em alguns aspectos, a internet também dividiu as pessoas em diferentes subculturas que ultrapassam as fronteiras nacionais. Vai ser interessante ver o que isso irá significar no futuro. Aparentemente, as pessoas estão encontrando, através dessa comunicação digital sem barreiras nacionais, os significados e o poder para impulsionar mudanças tanto localmente quanto internacionalmente.

OM: Por que essa história tão local pode interessar a pessoas de todo o mundo?
ISH: A história da banda Sumé é universal por tratar da importância de manter a sua própria identidade em um mundo que está encorajando cada vez mais a uniformidade. Parece que vivemos em um tempo em que a população mundial está perseguindo a singularidade, no qual todos estão se sentindo culturalmente invadidos – para o bem e para o mal.

OM: O que espera da exibição de Sumé no In-Edit Brasil?
ISH: É muito importante para nós essa exibição no Brasil. Eu sinto que a Groenlândia tem muitas similaridades com vocês [brasileiros] em relação ao passado colonial, e me parece que muitas culturas na América do Sul também estão lutando pela sobrevivência. Acredito que a música é uma ferramenta muito poderosa nessa luta cultural, por isso é uma honra mostrar o filme para um público interessado no tema. Espero que os brasileiros gostem do filme.

SERVIÇO:
Sessão de Sumé – The Sound of Revolution no In-Edit Brasil:
Quarta-feira (08/07), às 16h, no Centro Cultural São Paulo

* Adriano Garrett é editor do site Cine Festivais

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