Mentira de que Argentina pertencia ao primeiro mundo foi fatal, diz diretor de 'Las Insoladas'

Em novo filme, autor de 'Medianeras' discute as transformações ocorridas em seu país nos anos 90: 'foi uma década decisiva, que trouxe grande mudança cultural'

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Em Las Insoladasamigas se reúnem para tomar sol no terraço de um prédio em Buenos Aires

Enquanto no Brasil de hoje a sugestão de ida à terra de Fidel Castro tornou-se agressiva e pejorativa nas bocas de opositores do governo federal, na Argentina a expressão “vai pra Cuba” segue sendo somente uma boa indicação de destino turístico. No filme Las Insoladas, que chegou ao circuito comercial brasileiro na quinta-feira (13/08), as seis personagens principais são amigas que passam o dia se bronzeando no terraço de um prédio em Buenos Aires e sonham em viajar para o país caribenho.

Segundo longa-metragem do diretor Gustavo Taretto — o mesmo de Medianeras, comédia romântica que fez sucesso no circuito alternativo brasileiro em 2011 —, o trabalho tem sua história situada no dia 30 de dezembro de 1995. Na ocasião, o presidente Carlos Menem estava no início do segundo mandato, depois de ser reeleito pela população em maio daquele ano.

Assista abaixo ao trailer do filme 'Las Insoladas':

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Embora o que predomine à primeira vista sejam os diálogos que atestam preocupações banais das protagonistas, um olhar mais atento pode encontrar no filme elementos críticos ao consumismo e à futilidade, características que o diretor aponta como legados do período menemista (1989-1999).

“A partir dos anos 90, deixamos de ter como referência a Europa e passamos a olhar para os Estados Unidos. Chegaram os McDonald’s e as coisas descartáveis. Foi uma década decisiva, que trouxe grande mudança cultural”, analisa Taretto.

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"Se ocorresse nos dias de hoje, seria um encontro de seis mulheres junto a outras pessoas conectadas pelo Whatsapp"

Em entrevista concedida por email a Opera Mundi, o diretor argentino falou sobre as questões políticas e culturais tratadas pelo novo filme e também comentou sobre o atual cenário eleitoral de seu país. Leia abaixo os principais trechos:

Opera Mundi: Quais motivações temáticas levaram você a realizar Las Insoladas?
Gustavo Taretto:
Para desenvolver um projeto, preciso de várias portas de entrada. Sempre me chamou atenção as pessoas que tomam sol na cidade, que conseguem se esquecer de onde estão e passam o dia em Buenos Aires como se estivessem em Cancún.

Os terraços também são um ponto de interesse para mim; gosto deles e, ao mesmo tempo, me dão vertigem: são como uma ilha de cimento.

Também me atrai a ideia de poder entrar, pelo filme, em uma reunião exclusiva para mulheres. Por último, queria refletir sobre uma década que foi muito determinante para a vida dos argentinos, na qual houve grandes mudanças culturais e tecnológicas.

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Gustavo Taretto: "ideia da moeda forte e a mentira de que pertencíamos ao primeiro mundo foi fatal, especialmente para a classe média"

OM: O filme se situa em 1995, ano em que a Argentina teve uma retração do PIB atribuída à crise mexicana. No geral, porém, os anos 90 registraram grandes taxas de crescimento em seu país e ficaram marcados pela paridade do peso com o dólar. Por que você escolheu esse ano/período para representar no seu filme? Qual foi a sua experiência pessoal naquela época?
GT:
A paridade entre o dólar e o peso nos enlouqueceu. A ideia da moeda forte e a mentira de que pertencíamos ao primeiro mundo foi fatal, especialmente para a classe média. Os jornais estavam cheios de ofertas turísticas, e nós, argentinos, enlouquecemos e saímos para gastar dólares pelo mundo, em um êxodo exagerado.

De todos os destinos, um deles parecia o preferido. Um que para nós é distante: com areia branca, água transparente e quente, palmeiras... Parecia que todo mundo ia para o Caribe e depois voltava para mostrar seu corpo bronzeado. Las Insoladas é a história de um grupo de mulheres que ficaram fora da festa e que se perguntam: por que não podemos também passar sete dias no Caribe?

A partir dos anos 90, deixamos de ter como referência a Europa e passamos a olhar para os Estados Unidos. Chegaram os McDonald’s e as coisas descartáveis. Foi uma década decisiva, que trouxe grande mudança cultural.

De minha parte, nunca votei nem apoiei aquele governo, mas viajei bastante nesta época, para Cuba inclusive.

OM: Em 1995, Cuba vivia uma recuperação econômica, centrada justamente no turismo, depois do grande impacto provocado pelo colapso da URSS. Por que você escolheu o país como sonho de consumo das personagens? Qual é a relação dos argentinos com Cuba?
GT: Cuba é um país muito próximo dos argentinos, por vários motivos: a curiosidade de ser uma ilha comunista, com todos os mitos que carrega; a nacionalidade argentina de Che Guevara; e a certeza de que é um dos países latino-americanos no qual os argentinos são muito bem recebidos.

OM: Aqui no Brasil, pessoas ligadas a ideais de direita costumam dizer aos governistas para “irem a Cuba”, alegando que os governos do Partido dos Trabalhadores querem implantar aqui o comunismo. Você já tinha ouvido essa expressão aí?  
GT: Nunca escutei essa expressão aqui, nem sei de alguém que quer impor o comunismo. Para muita gente, na Argentina, Cuba é um país admirado pela excepcionalidade de seu governo e por enfrentar os EUA; para a grande maioria, é um local lembrado por suas praias, sua música e pelo carisma de seu povo.

OM: No seu filme, uma menção ao ex-presidente Carlos Menem por uma das personagens é repreendida pelas amigas, que dizem que falar aquele nome traz má sorte. O filme se passa em 1995, ano em que Menem foi reeleito com larga vantagem nas eleições de maio. Já havia em dezembro daquele ano esta aversão a Menem, ou isso foi apenas uma licença poética do roteiro?
GT: Não foi uma licença poética. Até hoje há pessoas que não falam o nome (do ex-presidente Carlos Menem). Ficou na memória coletiva o ato reflexo de se proteger (quando o nome de Menem é citado).

OM: A carreira política de Daniel Scioli começou com o apoio do ex-presidente Menem, a quem ele não nega gratidão ainda hoje. Como você analisa a vitória de Scioli nas eleições primárias? Você acha que ele pode significar um rompimento com a política personalista dos Kirchner?
GT: Scioli é um kirchnerista que vai tentar deixar de sê-lo; não sei se ele conseguirá isso. Eu não posso acreditar que ele será o candidato mais votado nas eleições depois de oito anos de um governo que deixa muito a desejar. Mas, bem, há muitas coisas que não entendo.

OM: O filme Las Insoladas parece dizer que o legado do governo Menem foi uma sociedade consumista e fútil. Depois de 12 anos, qual é o legado cultural, comportamental e social deixado pelos governos Kirchner?
GT: O discurso kirchnerista é diferente, mas o comportamento é muito similar.

OM: Algumas situações no filme (a revelação do roubo de fotos analógicas por uma funcionária; a compra de um novo celular, hoje completamente ultrapassado) revelam atitudes de consumismo e voyeurismo também muito presentes nos dias de hoje. Você acha que a internet e as redes sociais mudaram as relações interpessoais e os comportamentos humanos, ou elas apenas deram espaço para um comportamento sempre presente? A inserção dessas situações no filme serve para mostrar que pouco mudou de lá para cá?
GT: Muda a forma, mas a essência é a mesma. A internet potencializou tudo. Talvez a grande diferença é que seis mulheres sem celulares em suas mãos vão se relacionar de uma outra maneira. Esta mesma situação, se ocorresse nos dias de hoje, seria um encontro de seis mulheres junto a outras pessoas conectadas pelo Whatsapp.

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Cena do filme Medianeras, primeiro longa de Gustavo Taretto

OM: O seu primeiro longa-metragem, Medianeras, fez muito sucesso no circuito alternativo do Brasil. Por ser uma comédia romântica, você acredita que ele trazia um tema mais universal do que Las Insoladas?
GT: Eu não sabia o que aconteceria com Medianeras no Brasil, nem tampouco sei o que vai ocorrer com Las Insoladas desta vez. Talvez seja mais fácil se identificar e conectar com MedianerasLas Insoladas é um filme mais particular e exigente para o espectador. Mas estou certo de que, quem gostar, vai gostar muito. É um trabalho que demanda um espectador que veja além da superfície. A riqueza do filme está nos sonhos, no espírito de grupo, na disputa individualidade x grupo, no reflexo de uma década e na ideia de um paraíso, de que em outro lugar os problemas não existem. Por trás da banalidade que aparece na superfície há muitos temas importantes que retratam a classe média argentina dos anos 90. Acredito que no Brasil a história foi bastante parecida.

* Adriano Garrett é editor do site Cine Festivais

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