Ditadura militar: Volkswagen demite historiador e agora diz que investigará arquivos na Alemanha

Montadora é acusada de ter permitido tortura de funcionários durante ditadura militar no Brasil; livro denuncia multinacionais alemãs por crimes socioambientais

Atualizada às 15h34

Após ser indicado como novo responsável por apurar casos de tortura na fábrica da Volkswagen no Brasil durante a ditadura militar, o historiador Christopher Kopper anunciou que vai averiguar arquivos da montadora na Alemanha, para saber se a sede da empresa tinha conhecimento do que acontecia no Brasil.


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Kopper, historiador da Universidade de Bielefeld, substituiu Manfred Grieger, que comandava os trabalhos de investigação. Até então, toda a apuração se concentrava em arquivos brasileiros - sobretudo públicos. A Volkswagen pouco colaborou na abertura de seus arquivos, tanto no Brasil, quanto na Alemanha, e alegava que não havia registros sobre questões de segurança política no país-sede.

As denúncias de que houve tortura dentro fábrica da Volkswagem em São Bernardo do Campo foram feitas pela CNV (Comissão Nacional da Verdade).

Um relato detalhado do ocorrido na fábrica da montadora alemã consta no relatório final da CNV, documento com mais de 3.000 páginas publicado em 2014 que revelou a existência de um aparato repressivo militar-empresarial, na qual as firmas monitoravam funcionários, repassando informações e fazendo denúncias ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

"Estava trabalhando e chegaram dois indivíduos com metralhadora, encostaram nas minhas costas, já me algemaram. Na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen, já começou a tortura, já comecei a apanhar ali, comecei a levar tapa, soco", contou Lúcio Bellentani, funcionário da Volkswagen de São Bernardo do Campo, à CNV.

Volkswagen do Brasil

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Entre outras empresas alemãs citadas no relatório, estão Mercedes-Benz e Siemens, acusadas de contribuir com recursos à Oban (Operação Bandeirante), aparelho de repressão montado pelo Exército em 1969, que coordenava e integrava as ações dos órgãos de combate às organizações armadas de esquerda durante a ditadura militar.

Segundo a advogada Rosa Cardoso, coordenadora do CNV entre maio e agosto de 2013, 12 funcionários da fábrica em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, foram torturados. Outros acabaram demitidos ou foram colocados em listas negras.

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Livro

Além do caso de 1972 relatado pela CNV, outros casos foram denunciados pelo jornalista e ativista alemão Christian Russau em seu livro "Abstauben in Brasilien: Deutsche Konzerne im Zwielicht" ("Poeira no Brasil: Companhias Alemãs no Crepúsculo"), lançado em outubro.

Russau critica outras multinacionais alemãs como ThyssenKrupp, responsável pelas emissões de grafite que caíram na baía de Sepetiba em 2012, Siemens, Basf e Bayer, por violações dos direitos humanos e meio ambiente, além do próprio governo alemão, pelo acordo que possibilitou as usinas nucleares brasileiras. 

O livro investiga os impactos socioambientais da exploração de matérias-primas por fornecedores de empresas alemãs, da construção de hidrelétricas na Amazônia e do uso de substâncias proibidas na União Europeia em pesticidas vendidos no Brasil por Basf e Bayer, além de outros casos.

Em setembro do ano passado, o MPF (Ministério Público Federal) recebeu um pedido de abertura de inquérito civil contra a Volkswagen. A montadora é acusada de violação dos direitos humanos dentro de suas fábricas em São Bernardo do Campo durante a ditadura. A solicitação foi feita pelo Fórum de Trabalhadores por Verdade, Justiça e Reparação, que reúne militantes e trabalhadores oriundos de entidades e centrais sindicais participantes do Grupo de Trabalho Ditadura e Repressão aos Trabalhadores, às Trabalhadoras e ao Movimento Sindical.

(*) Com agências

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