Hoje na História: 1198 - Morre o filósofo árabe Averróes, mestre na filosofia aristotélica

Seus 'Comentários' balizaram a interpretação ocidental da obra do filósofo grego

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Max Altman (1937-2016), advogado e jornalista, foi titular da coluna Hoje na História da fundação do site, em 2008, até o final de 2014, tendo escrito a maior parte dos textos publicados na seção. Entre 2014 e 2016, escreveu séries especiais e manteve o blog Sueltos em Opera Mundi.


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O célebre filósofo, astrônomo, médico e escritor árabe Averróes morre em 10 de dezembro de 1198 no Marrocos. Nascido Abu’l-Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Muhammad ibn Rashid, em 1126, Averróes foi educado em sua cidade natal, Córdoba, Espanha. Seu pai e avô eram juízes de paz e desempenharam importante papel na história política da Andaluzia. Dedicou-se à jurisprudência, medicina, e matemática bem como filosofia e teologia.

Pouco antes de sua morte, o édito contra os filósofos foi revogado. Muitos de seus trabalhos em lógica e metafísica foram enviados à fogueira de modo que não pôde fazer escola. No final do domínio dos mouros na Espanha, que ocorreu pouco depois, a corrente do averroísmo passou a fluir pelo idioma latino, com o que influenciou o pensamento cristão europeu até o amanhecer da era moderna.

Estátua de Averróes em Córdoba, EspanhaA grande obra em medicina de Averróes, "Culliyyat", foi publicada como o 10º volume da edição latina das obras de Aristóteles. Seus “Comentários” sobre Aristóteles, seus trabalhos filosóficos originais e seu tratado sobre teologia chegaram até nós em traduções para o latim ou hebraico. Os "Comentários", que lhe granjeou o epíteto de “Comentador” eram de três tipos: uma curta paráfrase, uma breve exposição e uma mais extensa exposição. Nenhum deles tem qualquer valor para a crítica textual de Aristóteles, uma vez que Averroes, não tendo familiaridade com o grego, baseou suas reflexões sobre uma tradução muito imperfeita para o árabe do original grego.

Seus Comentários exerceram uma grande influência na definição da interpretação filosófica e científica de Aristóteles. Seus tratados filosóficos incluem um trabalho intitulado "Destructio Destructiones" publicado em 1497 e 1527, dois tratados sobre a união dos intelectos ativo e passivo, também em latim; tratados sobre lógica em diversas partes do "Organon", publicado sob o título de "Quaesita in Libros Logicae Aristotelis"; tratados, sobre física baseados em “Física” de Aristóteles; um tratado refutando e outro sobre a inter-relação entre filosofia e teologia.

Averróes defendia o princípio da duplicidade da verdade, sustentando que a religião tem uma esfera e a filosofia, outra. A religião se destina à multidão iletrada e a filosofia para alguns cultos. A religião ensina por meio de sinais e símbolos, a filosofia apresenta a própria verdade. Embora o filósofo observe que o que é verdade na teologia é falso na filosofia, não condena a educação religiosa, pois privaria as massas do único meio de que disporia para chegar ao conhecimento simbólico da verdade.

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A filosofia de Averróes é o aristotelianismo matizado com o neo-platonismo. Nela encontramos a doutrina da eternidade da matéria como princípio positivo do ser; o conceito de multiplicidade de espíritos situa-se hierarquicamente entre Deus e a matéria, mediando entre eles; a negação da Providência no sentido comumente aceito; a noção, de emanação como substituto da criação; e, finalmente, a glorificação do conhecimento místico como a última aspiração da alma humana.

O que é peculiar na interpretação de Averróes sobre Aristóteles é o significado que dá à doutrina aristotélica do intelecto ativo e passivo. Os termos passivo, possível, material eram usados por Averroes para designar as espécies de intelecto. À parte, falava em intelecto adquirido (intellectus acquisitus), entendido como a mente individual em comunicação com o intelecto ativo. Portanto, enquanto o intelecto ativo é numericamente um, existem tantos intelectos adquiridos quanto almas individuais, com as quais o intelecto ativo entrou em contato.

A debilidade dessa doutrina como uma explanação psicológica da origem do conhecimento é sua incapacidade de levar em conta a existência da consciência, evidenciada, segundo os escolásticos na expressão “eu penso”. Outra debilidade da doutrina do monopsiquismo, ou seja, a doutrina que supõe ser a alma formada por um único fluido especial que anima os seres vivos, é que deixa sem resposta a questão da imortalidade da alma individual.

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