Adlène Hicheur, físico deportado do Brasil, volta à Argélia após cinco meses de prisão domiciliar na França

Hicheur atuou como professor da UFRJ até julho, quando foi deportado sumariamente por ordem do Ministério da Justiça; ele quer que governo brasileiro reconheça que ele não fez nada de errado no país

Há oito anos ele não via a sua terra natal. No dia 18 de dezembro, Adlène Hicheur, o físico argelino que trabalhou no Brasil como professor de Física da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e foi deportado em julho, voltou para a Argélia. O cientista trocou Vienne, na França, por Sétif, uma cidade montanhosa no nordeste argelino, onde nasceu há 40 anos. Assim ele enterrou a fase de prisão domiciliar no apartamento de seus pais naquela cidade do sudeste francês, perto de Lyon. Este período, que durou cinco meses, foi de muita angústia, como relatou aos colegas brasileiros: ele dizia estar na condição de refém do Estado francês.


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Adlène Hicheur pediu a renúncia de sua nacionalidade francesa em outubro e recebeu o sinal verde no dia 30 de novembro. Foi a saída encontrada para livrar-se da prisão domiciliar que o impedia de trabalhar e participar de eventos internacionais. No último dia 14, cerca de 30 cientistas europeus decidiram realizar, em Vienne, o workshop “Física do Bc e decaimentos semileptônicos do B na era do LHC” em solidariedade a Hicheur. Mais 15 físicos de Brasil, Estados Unidos e China assistiram remotamente à conferência do físico sobre as propriedades da partícula subatômica Bc meson.

Antes da notícia de que voltaria para a Argélia, o britânico John Ellis, um dos mais importantes físicos teóricos do mundo, do King’s College Londres, fez um discurso defendendo Hicheur durante o Simpósio Latino-Americano de Física de Altas Energias (Silafae), na cidade de Antigua (Guatelama), no dia 17 de novembro, ao qual o argelino não pode comparecer por estar em prisão domiciliar. Hicheur fez sua exposição por vídeo na condição de representante do braço brasileiro, da UFRJ, no experimento LHCb (um dos detectores de partículas construídos no Grande Colisor de Hádrons), do CERN (Organização Europeia para Pesquisa Nuclear).

Em uma entrevista concedida a esta repórter por Skype antes da conferência, John Ellis criticou duramente a atitude do governo Michel Temer, relacionando a “deportação” de Hicheur com a turbulência política por que passa o Brasil. “O novo governo, que sabemos passar por muita turbulência política, o expulsou. Sabemos que no Brasil temos um novo governo de direita que quer mostrar sua postura dura contra o terrorismo e toda essa besteira usual”, afirmou o cientista britânico, que dedica-se a incentivar a colaboração internacional científica.“[O Brasil] o mandou de volta à França embora ele desejasse ir para a Argélia. E aí a França o colocou em prisão domiciliar, o que para mim é puni-lo novamente, uma segunda vez, por um crime que não cometeu”, lembrou. Ellis disse esperar que o Brasil “admita o erro” e o deixe entrar no país novamente. “Minha opinião é a de que o governo francês e o brasileiro são culpados de permitir que seus problemas internos e políticos interfiram na conduta da ciência”, ressaltou o físico britânico.

Reprodução / Facebook

Adlène Richeur, no centro, com cientistas que participaram da conferência em Vienne, na França

Em 2009 Hicheur, que trabalhava no CERN, foi preso, e em 2012 foi condenado pela Justiça francesa por associação com um grupo terrorista islâmico, após um julgamento criticado por colegas que apontaram fraqueza nas evidências. Ele foi investigado durante três anos, mas a acusação conseguiu apenas basear-se em uma série de e-mails trocados com um estranho cuja identidade nunca foi provada. Hicheur foi libertado logo após a sentença, sem mais nada dever à Justiça da França.

Adlène Hicheur tinha apenas um ano de idade quando foi trazido para a França por seus pais, que deixavam sua terra, sem perspectivas, nos fim dos anos 1970. Agora, em Sétif, ele volta às suas raízes. É a segunda cidade mais importante do país, após a capital Argel. Sétif está encrustada em uma montanhosa província, de mesmo nome, com população de 1,5 milhão de habitantes, de acordo com o senso de 2008. A palavra Sétif evoca em argelinos e franceses a memória de um capítulo tenebroso da história da colonização deste país do Norte da África: as matanças cometidas por forças estrangeiras inundaram de sangue a região desde o século 19. 

Os argelinos da geração dos avós de Hicheur passaram pelo trauma do chamado “massacre de Sétif ”, em 8 de maio de 1945, justamente o dia em que se comemorava o fim da Segunda Guerra Mundial em uma marcha convocada pelas autoridades francesas: muitos soldados argelinos lutaram no Exército francês contra os alemães.

Mas naquele momento havia um grande descontentamento: vários intelectuais argelinos apodreciam na cadeia por denunciarem a violência dos colonizadores. Quando, naquele dia, alguns manifestantes começaram a gritar palavras de ordem pelo fim da ocupação francesa, a reação das autoridades foi brutal. A repressão durou várias semanas e resultou na morte de milhares de homens, mulheres e crianças em toda a região. A carnificina de Sétif foi um ingrediente a mais na receita que gerou a Guerra de Independência da Argélia (1954-1962). O 8 de maio, dia da vitória para o colonizador, tornou-se o dia do luto para o colonizado.
 

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Arquivo pessoal

Adlène Hicheur (centro) durante workshop de física realizado em Vienne, em solidariedade ao físico, por seus colegas

O passado de opressão colonialista foi levado em conta no caso Hicheur. Em 2012, durante o processo de condenação, o juiz francês citou a origem argelina do cientista como um dos motivos para atenuar a sentença em um ano. O magistrado lembrou que Adlène Hicheur usou várias vezes a palavra “humilhação” e observou que era possível sentir sua dor de pertencer a um povo colonizado durante dois séculos por representantes de seu país de adoção, a França. Além disso, segundo proferiu o juiz francês, a Corte não poderia ignorar que Adlène Hicheur nasceu em Sétif, uma cidade que carrega um triste histórico que só reforça seu senso de injustiça.

Hicheur diz que, durante estes últimos cinco meses de prisão domiciliar na França, foi alvo de medidas de retaliação, como fechamento de sua conta bancária, assim como das contas de seu irmão e de sua cunhada, sem explicações. “Foi banditismo mesmo”, afirma. O físico sustenta que a Lei do Estado de Emergência – criada ainda na época da Guerra da Argélia, na década de 1950 – tem sido usada para perseguir muçulmanos como ele.

Uma matéria publicada pelo website francês Lundimatin questionou, logo após ele ter sido “deportado” do Brasil e posto em prisão domiciliar na França: “Qual é a justificativa para trazer um brilhante cientista do outro lado do mundo? Podemos acabar infinitamente com a vida de uma pessoa partindo do pressuposto de que porque no passado foi considerada uma ameaça ela continua uma ameaça potencial? Essa lógica não tem um fim?”. Poucos dias antes de partir para a Argélia, Hicheur contou que recebeu livros de presente de Mathieu Burnel, um ativista de esquerda acusado de terrorismo, preso em 2008 por ter frequentado determinados sites. “Ele, que tem origem europeia, foi libertado”, ressalta o argelino.

“A França usou a minha deportação do Brasil em julho, por ordem do ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para me prejudicar e para me manter em prisão domiciliar sem nenhuma razão. Essa deportação foi um verdadeiro crime”, protesta Hicheur. “Eu estou lutando contra a máquina de dois Estados”. A sua saída forçada do Brasil para a França ainda precisa ser explicada, diz ele. Seus advogados brasileiros buscam, a duras penas, informações para esclarecer e reverter este ato de força contra o professor: a deportação, segundo eles, não respeitou os procedimentos administrativos ou judiciais previstos em lei.

Hicheur conta com o apoio de colegas brasileiros, inclusive do diretor do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), Ronald Shellard, e do reitor da UFRJ, Roberto Leher, que querem vê-lo de volta ao Brasil. Seus advogados no Brasil tem certidões de “nada consta” a respeito de Hicheur: não há em trâmite na Justiça brasileira qualquer ação de natureza cível ou criminal relacionada a ele.

Os cientistas escreveram em outubro uma carta para a Embaixada brasileira na França solicitando que o Brasil, país onde ele trabalhou como pesquisador e professor universitário por quase três anos, admita este fato. Sobre isso, o Ministério de Relações Exteriores não respondeu ao e-mail da reportagem. “O Brasil era a terra da esperança para mim. É uma frustração ver que esse ódio [contra os muçulmanos] chegou ao país e me atingiu dessa forma. Eu considero uma vergonha intercultural essa atitude de expulsar um convidado, uma violação do código de honra”, lamenta.

O fator honra, no entanto, não é considerado nos cálculos da equação na qual o cientista argelino foi jogado pela França, com ajuda preciosa do Brasil.

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