Comando uruguaio remanescente da Operação Condor ameaça matar brasileiro que investiga ditaduras do Cone Sul

Comando Barneix, vinculado à ditadura uruguaia (1973-1985), divulgou lista com nome de Jair Krischke e outros defensores de direitos humanos que jurou de morte em represália por atuação contra crimes da Operação Condor

Uma mensagem recém-enviada ao promotor uruguaio Jorge Díaz faz lembrar os tempos da Operação Condor, aquela que uniu ditaduras militares para perseguir, capturar e eliminar dissidentes políticos no Cone Sul. O remetente é o Comando Barneix, um grupo de ultradireita que atua nas trevas, formado por militares e paramilitares vinculados à ditadura uruguaia (1973-1985).


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Batizado com o nome do general Pedro Barneix, que se matou no ano passado, quando estava sendo processado pela morte de um militante político em 1974, o comando fez ameaças claras: “O suicídio do general Barneix não ficará impune. Não aceitaremos mais nenhum suicídio devido a processos injustos. Para cada suicídio, de agora em diante, mataremos três escolhidos aleatoriamente da seguinte lista”.

Da lista elaborada pelo grupo de ultradireita, dez são uruguaios, a começar pelo promotor Jorge Díaz e pelo ministro da Defesa, Jorge Menéndez. Os outros três são estrangeiros: o jurista francês Louis Joinet, a pesquisadora italiana Francesca Lessa e o advogado brasileiro Jair Krischke. Todos os 13 são personalidades vinculadas à defesa dos direitos humanos e do esclarecimento e punição dos crimes das ditaduras no Cone Sul.

Reprodução Facebook / Movimento de Justiça e Direitos Humanos RS

Advogado brasileiro Jair Krischke incomoda os remanescentes da ditadura uruguaia e está jurado de morte por grupo de ultradireita Comando Barneix

Presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, com sede em Porto Alegre, Krischke incomoda os remanescentes da ditadura uruguaia não apenas pelo forte ativismo no passado. Sua atuação foi decisiva para a extradição do Brasil para a Argentina do coronel reformado uruguaio Manuel Cordero Piacentini, recentemente condenado a 25 anos de prisão devido a crimes cometidos no âmbito da Operação Condor.

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Krischke também vem denunciando a presença no Brasil de outro uruguaio, o coronel Pedro Antonio Mato Narbondo, acusado de dois assassinatos políticos em Buenos Aires. Para o advogado, o Comando Barneix é um grupo que existia e tinha proteção desde os tempos da ditadura. “Eu os chamo de viúvas de Huidobro”, diz Kirschke, referindo-se ao ex-ministro da Defesa Eleuterio Fernández Huidobro, que morreu em agosto de 2016. 

Ao contrário do antecessor, o atual ministro da Defesa, Jorge Menéndez, não parece disposto a acobertar as ações do grupo, suspeito de assaltar no ano passado arquivos dos cientistas forenses que buscam restos de desaparecidos políticos. Em janeiro, Menéndez anunciou a reativação dos chamados Tribunais de Honra, para militares envolvidos nos crimes da ditadura. Não por acaso, seu nome foi incluído na relação de potenciais alvos do Comando Barneix.

Dono de um arquivo que inclui extensa documentação sobre a ditadura no Uruguai, Kirschke, como os outros citados pelo comando de ultradireita, defendem que o governo do presidente Tabaré Vázquez investigue a fundo a ação do grupo. Pelo sim, pelo não, uma audiência para discutir a ameaça já está marcada com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos).

 

Publicado originalmente no site da Revista Brasileiros

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