Resultado da eleição na Holanda não significa enfraquecimento da extrema-direita, diz pesquisadora

Para Patricia Schor, da Universidade de Utrecht, discurso do ultradireitista Geert Wilders pauta debate político em todos os partidos do país, independentemente da orientação ideológica

A imprensa internacional e os líderes da União Europeia comemoraram o resultado das eleições da Holanda da última quarta-feira (15/03), que mostraram um suposto declínio do partido de extrema-direita PVV, do líder Geert Wilders. As pesquisas, nas semanas anteriores à eleição, davam à agremiação intenções de voto acima dos 40% e a liderança no Parlamento. Quando as urnas foram abertas, o PVV havia obtido “apenas” cinco cadeiras a mais e, mesmo tendo ficado em segundo lugar, teve resultado semelhante aos partidos que vinham logo atrás.


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No entanto, para a pesquisadora Patricia Schor, da Universidade de Utrecht, especialista em pós-colonialismo e racismo, o resultado não significa, necessariamente, que a ultradireita se enfraqueceu. Ela afirma, ainda, que as ações e posições de Wilders passaram a pautar o debate político de todos os partidos no país, independentemente da orientação ideológica.

Opera Mundi: Que fatores levaram ao resultado que deve reconfirmar Mark Rutte no cargo? É possível dizer que ele se aproximou de plataformas defendidas por Geert Wilders para vencer?
Patricia Schor:
O VVD [liderado por Rutte] é um partido de direita que sempre defendeu e instituiu políticas anti-imigração. Nos últimos anos, o partido ficou mais vocal quanto a este posicionamento, mesmo porque esta se tornou a questão central no processo eleitoral holandês (e europeu). Com a proximidade das eleições, Rutte adotou a retórica extremista associada à figura de Geert Wilders. Assim, oferecendo uma imagem mais “decente” e “polida”, com o aval da elite política do establishment político (neoliberal), Rutte roubou eleitores de Wilders.

Agência Efe

Posições de Geert Wilders pautam todos os partidos na Holanda, diz pesquisadora

OM: O resultado se liga à reação da comunidade internacional à visibilidade e popularidade de Wilders?
PS:
Os holandeses ainda prezam a mitologia que criaram de um país tolerante, onde xenofobia e racismo não existem. A imprensa internacional tem ecoado a crítica originária do movimento antirracismo holandês, [de que é uma] imagem falsa, denunciando as políticas migratórias restritivas, entre outras práticas institucionais. Além disso, o fato de Wilders ter sido julgado e culpado também contribuiu para tirar um pouco da credibilidade de sua imagem. No entanto, não se engane, não só o PVV é o segundo maior partido no parlamento, como conseguiu ser o partido de maior influência no país: o que o Wilders declara vira pauta política de todos os partidos (da direita, passando pelo centro, à esquerda), em medidas e formas diferentes. Foram ele e seu partido que puxaram todo o campo político mais para a direita, substancialmente mais.

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OM: Então o resultado eleitoral não representa um enfraquecimento da extrema-direita no país?
PS:
 Acredito que não. VVD e PVV consolidaram uma posição de dominação da política. Além disso, um novo e pequeno partido, o Forum for Democracy, encabeçado pelo jovem Thierry Baudet (que aliás esteve no Brasil) ganhou dois assentos no Parlamento. Baudet é uma figura de extrema-direita com um élan de sofisticação da elite do país – que, por vezes, perde o senso do ridículo (vide sua hilária foto em cima do piano). Não só Baudet fez declarações de aceitação ao estupro feminino, como recentemente manifestou sua preocupação sobre a “diluição" da configuração racial do país (ou seja, em sua concepção, cada vez menos branco). Esta figura e seu partido seriam consideradas uma aberração no cenário político de 15, 20 anos atrás, e hoje estão no parlamento holandês. Isso é significativo e preocupante.

Agora, é importante ver qual será a coligação dos partidos no parlamento. A direita saiu vitoriosa, mas o centro também saiu fortalecido (D66), e o Partido Democrata-Cristão (CDA) é de igual tamanho ao D66. A princípio ,o VVD declarou que não faria coligação com a extrema-direita, o PVV. Será?


Premiê Rutte (à frente) adotou a retórica extremista associada à figura de Geert Wilders (esq.), afirma Schor


OM: Por que a Esquerda Verde (GroenLinks) teve um crescimento expressivo? O partido representa uma ‘mudança’ à esquerda, como efetivamente dizia a campanha?
PS:
 GroenLinks cresceu porque os Trabalhistas (PvdA), que era o grande partido de esquerda no país, diminuiu vertiginosamente. Isso porque o PvdA entrou em uma coligação com a direita (VVD) e jogou sua agenda popular e socialista no lixo. O eleitorado de esquerda estava à procura de um novo partido de esquerda, e a opção corriqueira sempre foi o Partido Socialista (SP), que, porém, é visto como antiquado.

OM: Qual é a importância da figura de Jesse Klaver no GL? É possível creditar o bom resultado do partido à liderança dele?
PS:
 Jesse Klaver preencheu estes espaços, confrontando a extrema-direita. Sua vitalidade e juventude seduziram o eleitorado mais jovem, e sua agenda em prol do meio-ambiente e sustentabilidade (tradicionalmente a agenda do GL) atraiu um eleitorado preocupado com essas questões. Ao meu ver, o GL não coloca questões importantes ao capitalismo neoliberal, por isso não estou convencida que representa uma grande (e necessária) mudança com relação aos partidos de esquerda do establishment político. Vamos ver.


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